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Balança, mas não cai

por Redação Carta Capital — publicado 17/12/2010 10h09, última modificação 17/12/2010 10h09
In extremis, Silvio Berlusconi impede a queda do seu governo. Não tem, no entanto, uma maioria “sólida”

In extremis, Silvio Berlusconi impede a queda do seu governo. Não tem, no entanto, uma maioria “sólida”

Duro na queda, é o que cabe dizer de Silvio Berlusconi depois de derrotada no Parlamento a moção que lhe negava a confiança. Apertadíssima a contagem na Câmara, onde o governo sobrevive por três votos, um pouco mais folgada no Senado. O revés da oposição não surpreende. Operações aritméticas feitas no último fim de semana já o previam, com margem tão estreita quanto se deu.
O vencido mais evidente é o ex-aliado de Berlusconi, cofundador do PdL que encabeça a maioria, Gianfranco Fini, presidente da Câmara e agora líder do partido Futuro e Liberdade. O premier tripudia, fiel a seu estilo debochado, cercado por sua corte de extraordinários imitadores. Mas se Atenas chora, Esparta não ri. Ou pelo menos, não poderia. A maioria na Câmara está longe de ser “sólida”, como recomendam o presidente da República, Giorgio Napolitano, e o próprio líder da Liga, senador Umberto Bossi, que a compõe atrás do PdL.

Bossi não adere ao tripúdio. Pelo contrário, diz inevitáveis eleições antecipadas. A despeito da alegria desbragada da hora, Berlusconi admite a possibilidade, sem deixar de acentuar que outros primeiros-ministros europeus governam com maioria apertada. E na categoria inclui Obama, “que governa contra a maioria”.

Como se vê, desconhece a diferença entre presidencialismo e parlamentarismo, em atenção à ignorância que o distingue.
Divulgado o resultado da votação do dia 14, uma manifestação de estudantes contrários à lei da reforma do ensino pretendida pelo governo foi o estopim de uma revolta que pôs a ferro e fogo o centro histórico de Roma. Carros incendiados, lojas atacadas, vitrines quebradas, dez feridos em conflitos com a polícia que entrou em ação para sustar o avanço dos manifestantes na direção do Palácio Madama, sede do Senado, e Montecitorio, da Câmara.

Há suspeitas de que no meio da multidão tenham agido alguns provocadores com intenções até agora obscuras. Segundo levantamento dos lojistas, os danos chegam a 20 milhões de euros, pouco acima de 50 milhões de reais. Permanece, de todo modo, um clima de tensão desde sábado da semana passada, quando uma fluvial manifestação promovida pelo maior partido de oposição, o PD, com centenas de milhares de participantes, atravessou as ruas da capital, carregando faixas e escandindo slogans contra Berlusconi e seu governo. Sem incidentes, mas sem baixar a temperatura da insatisfação de boa parte da nação.

A votação do Parlamento de fato espelha a situação, que apresenta a Itália partida politicamente ao meio. Berlusconi acredita poder reforçar a sua esfarrapada maioria graças à adesão de parlamentares da oposição de fé escassa, seduzidos pela resistência vitoriosa e, afirma-se, por presentes de calibres diversos. Os derrotados do centro empenham-se para mostrar a força na sua reação e se unem em uma nova agremiação intitulada Polo da Nação. Anunciam a adesão de cem deputados, contingente respeitável. Não conseguem esconder, porém, que nem todos ali estão de bom humor.

Enquanto a derrota de Fini foi nítida, Casini, o outro líder do Polo, saiu do embate fortalecido: confirmou sua chefia dentro do UDC e não cedeu aos repetidos convites de Berlusconi para passar-se à situação. Desta maneira, Casini ganha destaque à testa da agremiação recém-criada enquanto os finianos resmungam. Este gênero de desencontros intestinos é típico da política italiana. Há tempo, por exemplo, dilaceram a esquerda, onde os velhos mandarins disputam o poder envolvidos em jogos renascimentais. É este o primeiro motivo do enfraquecimento do PD e um daqueles do desencanto dos eleitores.

Do outro lado, Berlusconi permanece. Há 16 anos invadiu a ribalta e foi eleito três vezes. Nas duas oportunidades em que o centro-esquerda tomou-lhe o lugar, não soube, ou não quis, criar as condições para impedir seu retorno. Por caminhos óbvios, a começar por uma lei draconiana e plenamente justificada sobre o conflito de interesses. Sobra sempre a dúvida de que também o centro-esquerda tenha seus telhados de vidro.

Resta o fato. Berlusconi é duro na queda, mas se tinha um projeto para levar adiante, e cabem dúvidas a respeito, em 16 anos não o realizou. Como escreve Sergio Romano, diplomata e historiador de peso, no poder Berlusconi não criou coisa alguma.