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Editorial

As vicissitudes de um “clown”

por Mino Carta publicado 18/02/2011 09h16, última modificação 21/02/2011 12h16
Reflexões sobre o processo movido contra Berlusconi, com miúda incursão pelo caso Battisti. Por Mino Carta
As vicissitudes de um "clown"

Reflexões sobre o processo movido contra Berlusconi, com miúda incursão pelo caso Battisti. Por Mino Carta. Foto: Tony Gentile/ Reuters/ Latinstock

Reflexões sobre o processo movido contra Berlusconi, com miúda incursão pelo caso Battisti

A itália de Berlusconi tem proporcionado um espetáculo circense de diversão oceânica para o globo terráqueo graças ao desempenho primoroso de Silvio, clown incomparável. Uma visão panorâmica da Península, mesmo à luz de uma análise atualíssima, não se reduz porém à figura caricata do premier metido a casanova, contador de piadas triviais, autor de gafes de repercussão urbi et orbi, perfeito intérprete do caso patológico do oportunista inoportuno, de personalidade pueril e compulsivos pendores predatórios.

Fortes atributos da democracia italiana são desde o imediato pós-guerra a Constituição sólida e longeva, obra de uma Assembleia Constituinte exclusiva, e a Justiça independente e eficaz, como, de resto, determina o regime. Esta Justiça condenou o político mais influente nos anos 80 e começos dos 90, líder socialista e primeiro-ministro, Bettino Craxi, que ao cabo fugiu para a Tunísia e lá ficou até a morte para evitar cerca de 20 anos de prisão.
Pois é, na Itália ricos e poderosos também vão para a cadeia. Foi o que se deu com os envolvidos da larga e demorada operação chamada Mãos Limpas. Atingiu ministros, parlamentares, empresários médios e graúdos, provocou suicídios e implodiu a Primeira República e com ela os partidos surgidos com o fim do fascismo, a começar pelo Democrata Cristão, primeiro atolado no pântano da corrupção.

Agora esta mesma Justiça se move contra Berlusconi e marca para o próximo dia 6 de abril o início do processo que o incrimina por concussão e prostituição de menor. A situação do premier, que até hoje conseguiu sobreviver a despeito de crescentes vicissitudes políticas, da crise econômica e de três pendengas judiciais ainda em andamento, talvez desta vez se tenha complicado fatalmente. Há tempo, aliás, abriu caminho a tese de que Berlusconi poderia, de certa forma, repetir Al Capone, o qual acabou condenado como sonegador, em vez de maior vilão do crime organizado.
A Justiça da Itália cumpre com lisura e competência a tarefa que lhe cabe dentro do Estado Democrático de Direito. Foi o que disse na semana passada um grande escritor, Umberto Eco, ao participar do programa Annozero da Rai, para mostrar a contradição de Berlusconi: aprova, disse Eco, a condenação de Cesare Battisti, mas não admite ser processado. O autor de O Nome da Rosa e outros livros de sucesso universal não deixou de afirmar que a negativa à extradição de Battisti “ofende a Itália e os italianos”. E a razão é simples e compreensível: a julgar pelo “não” de Lula, parece que o Brasil acredita cegamente no próprio preso da Papuda, em uma escritora de ficção policial (não é Agatha Christie), nas convicções de quem ignora a história da Itália e pretende rasgar um tratado assinado em 1998, lei em pleno vigor pela aprovação dos dois parlamentos. Ou, por outra: o Brasil não acredita na Justiça italiana e internacional, no presidente da República, Giorgio Napolitano, ex-comunista doc, na própria esquerda peninsular, desde sempre alinhada com o Partido dos Trabalhadores.

Não pretendia voltar ao caso Battisti, mas o embate em curso entre Berlusconi e a magistratura que ele acusa de “comunista” me leva automaticamente a certas considerações. Mesmo na certeza de voltar a ser crivado pelas ofensas grosseiras de quem frequenta a internet para exibir não somente sua covardia, mas também, e sobretudo, a sua ignorância. Parece que Wálter Fanganiello já criou um calo capaz de impecável resistência às aleivosias eruptadas diariamente contra ele.

Especial espanto me causam este gênero de internautas e muitos outros cidadãos prontos a confundir um ladrãozinho de arrabalde ideologizado na cadeia, terrorista e pluriassassino, com valentes guerrilheiros dispostos a morrer em nome da liberdade. Espanto porque não se permitem, em momento algum, ao menos um resquício de dúvida. Bem, vale considerar que a dúvida é sinal de inteligência. Omito comparações entre Umberto Eco e Fred Vargas.

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