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As vantagens da democratização

por Gianni Carta publicado 23/02/2011 16h57, última modificação 06/06/2015 18h17
Segundo Gal Levy, cientista político israelense, seu país também ganharia com o fim das ditaduras
As vantagens da democratização

Segundo Gal Levy (foto), cientista político israelense, seu país também ganharia com o fim das ditaduras. Foto: Gianni Carta

O cientista político Gal Levy, pesquisador da Open University e diretor do programa da New York University, em Tel-Aviv, avalia a reação de Israel às revoltas no mundo árabe
CartaCapital: Em artigo acadêmico escrito com outros colegas, o senhor alegou que a paz pode ser vista pelo governo israelense como “surpresa” ou “perturbação”. Para o Israel, as revoltas no mundo árabe são uma surpresa ou perturbação?
Gal Levy: Aconteceu tudo tão rápido que ainda é difícil dar uma resposta definitiva. Para se ter uma ideia, os serviços de inteligência dos militares haviam descrito o Egito como regime estável uma semana antes de a revolta eclodir. Mas diria que os eventos no Egito e em outros países árabes são recebidos pelo governo israelense como uma “perturbação”. Basta observar a reação de jornalistas da chamada mídia dominante. Exprimem e interpretam a nova realidade com base nos quadros por eles conhecidos das relações israelenses com o mundo árabe. E a relação israelense com o mundo árabe é sempre antagônica. Mesmo em relação ao Egito, como qual Israel assinou um acordo de paz há mais de 30 anos. Hosni Mubarak, claro, era útil para a estabilidade do mundo árabe com Israel. Mesmo assim,o Egito era visto como um país hostil em relação a Israel. Isso fica claro em documentos oficiais.
CC: Mas o governo israelense não deveria estar preocupado com as revoltas no mundo árabe?
GL: Claro que Israel tem de se preocupar com sua segurança. Quando há instabilidade política, governos têm de estar preparados para diferentes eventualidades. Por ora, houve mudanças, não sabemos ainda se para pior ou para melhor, na Tunísia e no Egito. Outros países estão em estado de ebulição, como o Irã. As mudanças na Tunísia e no Egito foram positivas. Os povos daqueles países se liberaram de algo que não aprovavam. Não cabe aos israelenses decidirem o que é bom ou não para o povo do Egito.
CC: Crê que as autoridades israelenses estão se portando de maneira vaga em relação a esses movimentos por ora democráticos?
GL: Sim, porque esses eventos sacodem ou minam seus próprios conceitos da realidade. As autoridades daqui colocam ênfase na predominância da Irmandade Muçulmana no Egito, não em outras possibilidades mais democráticas. O Cairo romperá o acordo de paz com Israel e entrará em guerra?
CC: O premier Benjamin Netanyahu deu as boas-vindas à decisão do governo militar provisório no Egito de respeitar tratados internacionais (como o acordo de paz com Israel, de 1979).
GL: Sim, mas Israel se comporta como um casal, ambos com 80 anos. Brigam entre eles o tempo todo, mas por que se separariam? Melhor deixar as coisas como estão porque é difícil começar do zero. A nova vida trará inseguranças e é melhor viver de maneira segura...
CC: Mas este não seria o momento para virar as mesas e tentar algo diferente?
GL: É o que acho. Israel, dizem aqui, é a única democracia no Oriente Médio. E nós nos congratulamos por isso. Mas, se o Oriente Médio fosse mais estável e democrático, seria melhor para Israel. Portanto, este é um momento para reflexão. Como podemos tornar esta situação vantajosa para nós, israelenses? E, no entanto, quando os eventos tiveram início, apoiamos Mubarak.
CC: Outros governos foram ambivalentes em relação ao Egito e a outras revoltas, como o próprio Barack Obama.
GL: Obama e outros líderes preferiram, num primeiro momento, acreditar na estabilidade para seus governos no Oriente Médio. Mas, quando as massas tomam as ruas, você não pode desfazer o que já começou. Claro, ninguém poderia prever o futuro. Os manifestantes atingiriam seu objetivo inicial, o de derrubar Mubarak? As autoridades israelenses e de outros países não podem se portar como um disco riscado que volta ao começo da faixa musical.
CC: Por que voltar, numa velha vitrola, ao início de uma música de um disco riscado?
GL: Porque algumas pessoas com elos nas esferas militares, econômicas e políticas não estão interessadas na paz entre Israel e a Palestina, e entre Israel e o mundo árabe. Há interesses materiais para que guerras prossigam. A indústria de armas se beneficia com essas guerras, e outras supostas indústrias civis dependentes da indústria bélica também saem ganhando. E há os aspectos simbólicos, de prestígio, e sempre de ganhos materiais. Generais viram políticos ou migram para o mundo de negócios.

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