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Internacional

Itália e Vaticano

As margens ingovernáveis do Tibre

por Wálter Maierovitch publicado 07/03/2013 11h41, última modificação 07/03/2013 11h41
De um lado, o governo italiano pena para formar maioria. De outro, um Vaticano envolto em disputa intestina

As duas margens do lendário Rio Tibre (Tevere) apresentam-se, no momento, ingovernáveis. Numa delas, onde está instalado o soberano Estado do Vaticano, o monarca Ratzinger renunciou. Isso em razão da luta intestina pelo poder entre grupos de clérigos purpurados e por faltar a ele energia para governar e se manter no trono petrino. Do outro lado do rio, o italiano Partido Democrático e os seus coligados ganharam as eleições, mas, por falta de maioria no Senado, não poderão governar sem alianças. Caso venham a ser celebradas, representarão, usada uma conhecida gíria política italiana tirada do dialeto napolitano, um inciucio, ou seja, acordo entre forças  ideológicas contrapostas. E o grande derrotado, o premier Mario Monti, recebeu apoio dos clérigos do lado de lá do Tevere, apesar da sua política recessiva, geradora de desemprego.

Com efeito, não dá para imaginar um acordo dos democratas com o partido de Berlusconi, que quebrou financeiramente o país, ou com o movimento do populista Beppe Grillo, desejoso de novas eleições para chegar mais rápido ao poder. Parênteses: Grillo, que desinformados brasileiros pensam se tratar de um Tiririca.

Do lado da margem vaticana, prepara-se um conclave, a justificar o próprio étimo de “fechado a chaves”. Pela constituição apostólica Universi Dominici Gregis, de fevereiro de 1996 e feita por João Paulo II para regrar as eleições, na hipótese de sede vacante, abandonou-se uma regra vigorante desde 1179. Até a modificação por Karol Wojtyla, exigia-se maioria de dois terços dos votos para o papa ser eleito. O fim da regra beneficiou Ratzinger, que, como revela a crônica, não conseguiria os dois terços. Mesmo sendo o “delfim” de Wojtyla.

Wojtyla, como escreveu Corrado Augias do jornal La Repubblica, “temia o risco de uma minoria em bloco (com 34% dos votos ou mais) poder travar o conclave por tempo indeterminado”. Essa modificação apostólico-constitucional estabeleceu, uma vez passados 13 dias do conclave e sem solução, o seu prosseguimento. Então, a maioria absoluta dos cardeais (51%) decidiria como se daria a eleição: maioria simples ou segundo turno, com os dois mais votados.

Depois de eleito, Bento XVI, por motu proprio, fez voltar a maioria dos dois terços. Mais ainda, ocorrendo indefinição após 13 dias, passa-se para o segundo turno e a ser disputado pelos dois mais votados, mantidos os dois terços para o encargo. Com tanto regramento, o Espírito Santo ficará só nos discursos.

No momento, não há favoritos e os bookmakers, que operam as apostas fora dos Muros Leoninos construídos para proteger a Colina Vaticana por volta do ano 842 pelo papa Leão IV, aceitam qualquer aposta. O cardeal Tarcisio Bertone, que comanda a Cúria e ocupa o cargo de camerlengo durante a vacância do trono, acusou, num ato irrefletido bem ao seu feitio, a mídia de querer eleger o papa na base da pressão e revelações de fatos inverídicos.

Ora, em tempos remotos até o povo participava da escolha para, depois, imperadores influenciarem e, por fim, só cardeais. E não se deve olvidar o período de pornocracia, com a princesa toscana Marózia, cuja mãe era amante do papa João X e ela, aos 15 anos, virou concubina do pontífice Sérgio III: da relação amorosa nasceu um filho que Marózia elegeu papa, de nome João XI.

A mídia, na verdade, não pressiona pela eleição de um certo e determinado papa. Apenas limitou-se a lembrar o VatiLeaks e a relacionar os cardeais, convocados a votar (o voto é obrigatório), acusados de, tempos atrás, acobertarem casos de pedofilia. Um deles, o cardeal primaz da Escócia, Keith O’Brien, apresentou e foi aceita pelo papa a sua justificativa para não participar do conclave: ele é acusado de três assédios sexuais quando diretor espiritual do St. Andrew’s College. Um dos assediados, que era padre, largou a batina em protesto à nomeação de O’Brien a cardeal, por ato do papa João Paulo II. O escândalo de pedofilia veio à luz em 2002, quando o cardeal Bernard Law, arcebispo de Boston (EUA), se demitiu por dar cobertura a padres pedófilos.

Outro purpurado que ocupou as manchetes e foi alvo de manifestações para renunciar, em iniciativa da organização Catholics United e da revista semanal Família Cristã, foi Roger Mahony, arcebispo emérito de Los Angeles e atualmente na geladeira, sem funções eclesiásticas. Segundo o noticiário, Mahony, que já está no Vaticano e se diz pronto para votar, determinou que padres pedófilos, depois de conhecidos os escândalos, sejam submetidos a tratamento médico. Mas tratamento fora de Los Angeles e para evitar que os médicos, em face da obrigatoriedade da lei em Los Angeles, realizassem notificação para ciência das autoridades da repressão criminal.

Os escândalos ocorridos nos EUA, segundo vaticanistas, inviabilizam a eleição de qualquer dos 11 cardeais norte-americanos que participarão do conclave. Só serão eleitos, pelo jeito, se o Espírito Santo quiser.

 

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