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Após reconciliação palestina, Israel suspende negociações de paz

por Deutsche Welle publicado 25/04/2014 09h49
Israel diz que não vai dialogar com governo apoiado pelo Hamas, grupo tido como terrorista e que restabeleceu relações com moderado Fatah. Nos territórios palestinos, há misto de ceticismo e esperança
Said Khatib / AFP

O governo israelense decidiu nesta quinta-feira (24/04) suspender sua participação nas negociações de paz intermediadas pelos Estados Unidos. O motivo foi a reconciliação alcançada pela facção moderada palestina Fatah com o grupo radical Hamas, que é considerado terrorista por Israel e Washington e não reconhece a existência do Estado judeu.

Dominada pelo Fatah, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) – que governa a Cisjordânia e lidera as negociações com Israel pelo lado palestino – restabeleceu na quarta-feira, após sete anos, as relações com o Hamas, que está no poder na Faixa de Gaza.

Segundo o entendimento, um novo governo de transição conjunto sob o comando do atual presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, deve ser formado em até cinco semanas. E em seis meses haverá eleições presidenciais e legislativas.

Nesta quinta-feira, Israel disse que não haverá conversas até que uma nova autoridade seja formada nos territórios palestinos. E deixou claro que não negociará, sob nenhuma circunstância, com um governo que seja apoiado pelo Hamas.

"O gabinete de segurança decidiu de forma unânime que Israel não manterá negociações com um governo palestino apoiado pelo Hamas, uma organização terrorista que defende a destruição de Israel", disse o governo Benjamin Netanyahu em comunicado.

Em resposta à decisão israelense, o chefe das negociações do lado palestino, Saeb Erakat, disse que todas as opções estão sendo consideradas. Porém, afirmou que, para a ANP, a prioridade no momento é "reconciliação e unidade nacional".

Expectativa entre palestinos
O histórico acordo assinado na quarta-feira foi recebido com misto de expectativa e cautela pelos palestinos. Um dos líderes do Hamas, Ismail Haniyed, primeiro-ministro autodeclarado da Faixa de Gaza, afirmou que chegar a um acordo com o Fatah foi uma honra: "Estou feliz em declarar que o fim do período da divisão interna palestina."

Moradores de Gaza reuniram-se na frente da casa de Haniyeh assim que as informações sobre o acordo começaram a ser divulgadas. Até crianças do campo de refugiados de Al-Shati, próximo à residência do primeiro-ministro, cercaram caminhões de redes de TV para ouvir as notícias.

Outra multidão se juntou na Praça do Soldado Esquecido, no centro de Gaza, assim que as informações começaram a se espalhar. As pessoas entoavam gritos como: "A divisão acabou, meu povo está feliz" e "unidade, liberdade, dignidade e humanidade".

A palestina Samah Ahmad disse ainda estar um tanto quando cética sobre o acordo. "Só vou acreditar em reconciliação quando ela for certa. Ainda estamos em busca de liberdade, de humanidade. Queremos sentir que somos um povo só. Vou acreditar nisso quando eu realmente puder ver isso", afirmou Ahmad, usando um keffiyeh branco e preto na cabeça e uma camiseta com a foto de Che Guevara.

Ela não enxerga a reconciliação entre o Fatah e o Hamas como a bala de prata que salvaria a fragilizada economia da região. "Gaza precisa de tudo: sistema de saúde, movimentos de liberdade e abrir as fronteiras. Reconciliação social é mais importante do que reconciliação política, porque acreditamos que os políticos podem ter um bom relacionamento, mas a reconciliação deveria ser com as próprias pessoas", disse.

Já Rehab Kenan, que posou para a mídia local fazendo um sinal de paz, recebeu a notícia com otimismo. "Esperávamos há um bom tempo que isso acontecesse. Oito gerações aguardavam por isso. Agradecemos a nossos líderes pela felicidade que nos trouxeram. Esperamos que a reconciliação seja contínua. Parabéns a Gaza", disse Kenan, enrolada em uma bandeira palestina. "Tenho dois filhos, e essa reconciliação vai proporcionar trabalho e construção de um futuro a eles."

Futuro desafiador
Muitos moradores de Gaza, no entanto, não escondem sua insatisfação com a administração da região. O produtor Mansour Albudi, que exporta morangos para a Europa, afirma que sua paciência com o Hamas acabou. "Antes de 2007 a situação estava melhor para nós em todos os mercados. Quando eles chegaram, a situação ficou péssima, especialmente para os produtores. Eu odeio o Hamas!", desabafou.

Albudi, que vive no norte de Gaza, perto da Passagem de Erez, na fronteira com Israel, contou que antes de 2007 ele chegava a mandar 30 toneladas de morangos por ano para a Europa. Agora, não passa dos 200 quilos. "Se eu pudesse mudar uma só coisa, mudaria esse governo em Gaza. Eles só pensam em si mesmos", acusou.

Nas eleições marcadas para daqui a seis meses serão escolhidos o novo presidente, o Conselho Legislativo e os líderes da OLP. Um comitê especial deve se encontrar daqui a cinco semanas para discutir o que se espera da organização no início da vigência do acordo.

Muitas questões ainda permanecem sem respostas no novo acordo, como o destino das forças de segurança. O Hamas venceu as eleições de 2006, com votos suficientes para assumir o controle da ANP. Mas foi impedido pelo Fatah de assumir o controle das forças de segurança. Um ano depois, os combatentes do Hamas afastaram os do Fatah da Faixa de Gaza sob a justificativa de que um golpe estaria sendo preparado.

  • Autoria Kate Shuttleworth, de Gaza (msb)
  • Edição Rafael Plaisant

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