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Anna Hazare: a face divisória da nova Índia

por The Observer — publicado 24/08/2011 09h34, última modificação 25/08/2011 18h13
O ativista veterano, em greve de fome por causa da corrupção de seu país, tem milhares de seguidores – embora haja receosos. Por Jason Burke

Por Jason Burke *

Eram quase quatro horas. Estava chovendo e a poeira ocre se transformou em lama. As laminas de plástico que tinham sido esticadas em frente ao palco por onde desfilavam manifestantes no parque Ramlila, em Nova Delhi, não serviram de abrigo contra a forte chuva de monção. Sentado no palco, o pequeno homem de 74 anos, usando óculos e com trajes brancos, sorriso enigmático e distante, observava seus milhares de seguidores.

Se Anna Hazare, o ativista social veterano, se incomodou com a chuva a cair sobre a manifestação, ele não o demonstrou. Na maior parte do tempo, Hazare demonstra pouco e fala pouco, dizem seus companheiros. Sua única longa intervenção durante a última turbulenta semana na Índia pode ser vista num vídeo, gravado antes de sua prisão às 7h da manhã pela polícia de Delhi, na terça-feira 16. O vídeo, colocado no YouTube, mostra o momento no qual ele e cerca de mil de seus seguidores foram presos. No vídeo, Hazare fez uma "segunda chamada de luta pela liberdade". A primeira tinha sido contra os britânicos. Agora é hora de lutar contra a corrupção, disse ele.

Os presentes sob a forte chuva quente concordaram fervorosamente. "Sou Anna Hazare", disse Lalita Kapoor, uma estudante de 22 anos, repetindo o slogan de dezenas de milhares de camisetas, bandeiras, bonés e primeiras páginas dos jornais na semana passada. "Somos todos Anna Hazare."

Hazare sabe algo sobre chuvas. Foi através da gestão da água – de chuvas especificamente – na pequena aldeia no estado central da Índia ocidental da Maharashtra, onde viveu seu pai, que ele começou sua carreira como ativista social.

Seu verdadeiro nome é Kisan Baburao Hazare (Anna é um título honorífico local para um irmão mais velho). Hazare, que tem sete irmãos, teve uma infância dura. No início da adolescência, ele deixou Ralegan Siddhi, remota aldeia onde vivia sua família, e foi para Mumbai, a 322 quilômetros de distância, onde vendia flores. Em 1963, Hazare ingressou no exército e serviu por 15 anos.

Após ter presenciado as mortes de companheiros na guerra entre Índia e o Paquistão, em 1965, teve uma grave depressão que o levou a contemplar o suicídio. Hazare decidiu então que seu objetivo na vida era "servir seus semelhantes". Ele voltou a Ralegan Siddhi e começou a transformar a comunidade.

Aldeias na Índia de hoje, à  imagem de Ralegan Siddhi, sofrem complexos e profundos problemas sociais: alcoolismo, violência doméstica, analfabetismo, e desnutrição. A maioria está sem qualquer saneamento, ou fontes de alimentação confiáveis. Para muitos, a água continua sendo um problema sério. Num primeiro momento, Hazare, a trabalhar com o padre da aldeia, reuniu todos aqueles preocupados com consumo de álcool na comunidade. Qualquer pessoa a vender bebidas alcoólicas, como o hooch local, um destilado ilícito, ou cerveja, foi aconselhado a parar de vendê-las ou deixar a aldeia. Punições severas foram impostas.

"Há um poste telegráfico em frente ao templo. Quem estivesse bebendo ou estivesse bêbado, ou fazendo bebidas ou roubando, era amarrado ao poste e espancado ", disse Jay Singh Bhabuje Mapari, um habitante de 39 anos da aldeia que viajou com Hazare para Delhi na semana passada. "Eu me lembro de cenas assustadoras quando era criança. "

O regime, por mais duro que tenha sido, funcionou. "Ninguém bebe ou rouba agora", disse Mapari.

Depois do álcool, o tabaco também foi banido. "Não faz mais parte de nossa cultura ", disse Vijay Kasi Ram Hazare, o sobrinho de 26 anos do ativista social. "Eu nunca conheci isso, portanto não quero nem saber de álcool e tabaco."

Grande parte do estado de Mahrashtra é propenso à seca. Apenas um quinto de Ralegan Siddhi possuía terras cultiváveis ​​quando ele era criança, disse Vijay Hazare, mas agora em quase toda a terra crescem culturas valiosas. Mais uma vez, Hazare atingiu uma meta simples, mas o progresso foi radical. E ele agiu preenchendo o espaço deixado pelo Estado. Hazare organizou a construção de um sistema de pequenas barragens para armazenar a água das chuvas. Ele também incentivou os moradores da aldeia a plantar árvores para reter a água das chuvas e manter o solo firme, disse seu sobrinho que planta árvores.

O aumento da produtividade permitiu a Hazare enfrentar outros problemas como o analfabetismo e a discriminação com base na hierarquia milenar de castas sociais da Índia. Hazare soube usar o existente sistema de uma forma que aldeões analfabetos nunca poderiam fazê-lo. Por exemplo, ele distribuiu os subsídios, muitas vezes roubados por funcionários, para as comunidades. O fornecimento intermitente de eletricidade foi resolvido pela introdução da energia solar.

Suas campanhas contra a fraude e roubo o levaram para um nível mais elevado de ativismo. Em 1991, mesmo ano em que a liberalização desencadeava o crescimento econômico da Índia, Hazare surpreendeu funcionários e políticos do estado de Maharashtra ao utilizar uma nova tática: a greve de fome.

O “jejum até a morte" tem antecedentes que precedem Mohandas Gandhi. Mas foi o conhecido líder da independência da Índia quem mais a usou com efeito significativo em sua primeira batalha contra o imperialismo britânico na Índia, e contra a violência comunal na recém-livre Índia. Com sua nova autoridade moral, Hazare utilizou o jejum para contornar as instituições podres de poder e assim forçar a queda de funcionários e políticos corruptos. Por conta de sua campanha, Hazare ganhou inimigos poderosos e um novo perfil como uma das principais vozes morais do país.

Nos dois últimos anos houve uma extraordinária série de escândalos de corrupção na Índia. Entre eles houve a subcotação aparentemente deliberada de licenças de telecomunicações – que custou ao país 26 bilhões de libras esterlinas e fraudes que quase transformaram os Jogos da Commonwealth, em Nova Delhi, num fiasco. É a corrupção de baixo nível endêmico que está irritando a nova classe média urbana mais do que nunca. Eles podem ter um carro – mas eles têm de pagar propinas a funcionários para registrá-lo e para obter a licença. E quando estão ao volante de seus automóveis também têm de molhar a mão da polícia de trânsito. Para obter uma vaga na escola, "doações" para o diretor são obrigatórias. Quem faz negócios se depara com uma série de demandas. O mesmo acontece com alguém que vai a um tribunal, ou ao tirar um passaporte, ou ao comprar ou vender uma propriedade.

Assim, quando no mês de abril Hazare encabeçou um novo movimento para a legislação que criaria um novo e poderoso projeto de lei anticorrupção, era inevitável que ele iria atrair apoio. Entre o fim da primavera e início do verão, ajudado pela desajeitada reação do governo, o movimento atingiu o auge. A presença de Hazare na manifestação em Ramlila, na sexta-feira, sinalizou um novo patamar de intensidade.

Sinalizou também uma nova percepção do velho homem, que, com sua retórica e seu chapéu branco, e mais o enorme pôster de Gandhi atrás dele no palco dos protestos, assumiu para si mesmo o legado da luta pela independência e de seu mais famoso líder. Se, por um lado, Hazare é tido por numerosos compatriotas como um personagem atraente, vários espectadores também se inquietam com sua presença. Alguns já estão preocupados com seu desprezo populista por instituições como o Parlamento, que, independentemente das suas evidentes falhas, continuam a serem eleitos. Outros argumentam que a criação de um ombudsman faria pouco para combater a corrupção no atacado.  Os críticos alegam que mudanças têm de ser realizadas através de uma miríade de medidas menos espetaculares e de nível inferior – e, juntas, teriam efeitos cumulativos maiores.

E há aqueles preocupados com o autoritarismo aparente de Hazare. Para ele, funcionários corruptos deveriam ser enforcados, por exemplo. Hazare, no entanto, evitou fazer qualquer declaração política. Sua visão de uma Índia totalmente abstemia, de comunidades rurais vegetarianas é, apesar de suas raízes serem baseadas na visão do desenvolvimento rural, conforme Gandhi, aquela de um conservador que agrada a ala da direita da Índia. O mesmo acontece com sua fé.

Mas o ascetismo de Hazare – ele toma iogurte no café da manhã, chapatis (pão indiano) e uma porção de legumes no almoço, e apenas um copo de suco de limão no jantar – tem uma profunda ressonância numa época em que o materialismo desenfreado é a ética social dominante. Ele é também, como mostram as bandeiras em seus comícios, um patriota na nova era do nacionalismo indiano.

Moradores de Ralegan Siddhi falam em outras mudanças implementadas na pequena comunidade nos últimos anos. Juntamente com a onipresença do celular, chegaram a televisão por satélite e cyber cafés. A aldeia é próspera e muitos fazendeiros estão investindo seus excedentes de renda na área de transportes. Vijay trabalha num hotel em Pune, cidade situada cerca de 80 km de distância da aldeia. Os dias de seca e de dureza do trabalho nos campos estão passando. Novos desafios estão chegando com essa transição. Em pequena escala, portanto, a aldeia é um exemplo das tensões e da transformação surpreendente da própria Índia.

Na semana passada, as bandeiras, a referência à luta pela independência e os protestos na chuva, foram os componentes de uma grande questão: o que é essa nova Índia que está sendo criada com seu crescimento econômico anual de 8%? Hazare, parece claro, não tem a resposta. Mas ele está forçando os poderosos da Índia a pensarem sobre a questão.

A Ficha de Hazare

Nascido Kisan Baburao Hazare em 1937 na zona rural de Maharashtra, no leste da Índia. Ele foi um dos sete filhos e cresceu na pobreza numa pequena aldeia que deixou na adolescência para trabalhar como comerciante em Mumbai.

Melhor fase. A atual. Hazare diz que seu ‘’renascimento’’ pessoal ocorreu ao ler um livro de ideias de Swami Vivekananda. A obra lhe ensinou que ‘’servir os pobres significa servir Deus’’.

Desde que se aposentou do exército, ele tem usado a obra de Vivekananda como guia. Revigorou sua aldeia natal, em Maharashtra, e agora luta contra a corrupção nacional.

Pior Fase: Tempos em que era motorista da exército, aos 23 anos. Hazare lutou contra uma depressão, e recentemente disse a jornalistas que à época contemplou o suicídio.

Dois anos depois, em 1965, seu veículo foi atacado, durante a guerra entre a Índia e o Paquistão. Todos que estavam ao seu lado morreram. Sua sobrevivência o motivou a mudar de vida. Passou a dedicar-se aos outros.

Ele diz: ‘’O tipo de trabalho que faço me deixa feliz. Há pessoas que dormem em quartos com ar-condicionado, mas têm de tomar comprimidos para dormir’’.

Eles dizem: ‘’O caminho por ele escolhido é cheio de graves consequências para a nossa democracia parlamentar’’.

Mammohan Singh, primeiro-ministro da Índia.

*Leia mais em http://www.guardian.co.uk