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Amores perros

por Gianni Carta publicado 23/05/2008 15h24, última modificação 25/10/2011 13h40
Nova York é certamente uma das cidades com uma das maiores populações caninas do planeta

Nova York é certamente uma das cidades com uma das maiores populações caninas do planeta

No website da revista Urbanhound, dedicada a cães, alguém indaga: “Meu vizinho divide seu apartamento de quarto-e-sala, em Manhattan, com nove vira-latas, cinco gatos e um pombo machucado. Isso é legal?” Resposta da Urbanhound: “Liberdade! Em Nova York você pode ter a quantidade de gatos e cachorros que bem entender, isto, é evidente, se todos couberem no apartamento”.

Não é bem assim, e a própria revista aconselha outros leitores a verificar com cuidado o contrato de aluguel ou de aquisição de apartamentos se cães (e outros animais de estimação) são permitidos no edifício – e, se for esse o caso, o número de canis familiaris tolerados por vivenda. Claro, um pombo machucado certamente não incomodará ninguém, e gatos, para quem não é alérgico a eles, tudo bem. Mas nove vira-latas?

Nova York é certamente uma das cidades com uma das maiores populações caninas do planeta. Na suntuosa Fifth Avenue detectei madames com aqueles cachorrinhos similares a ratos instalados nas suas bolsas Louis Vuitton adentrando lojas como Saks e Tiffany. Vi passar, pomposo, um minúsculo silky terrier de galochas amarelas e camiseta da mesma cor. O rapaz logo atrás do terrier era seu dono, visto que era igualmente exuberante e usava as mesmas cores.

No Central Park, onde donos podem tirar as coleiras dos cachorros antes das 9 da manhã a após as 9 da noite, estavam praticamente todos soltos. Uma mulher de meia-idade indagou a um labrador cor-de-mel: “Você está com sede? Vamos tomar água?” 

Outra passou com uma miríade de cachorros, certamente uma dog walker profissional, pessoas pagas para levar cães para passear. Mulheres e homens, agachados, e com luvas e sacos de plástico, empenhavam-se na colheita de fezes de seus cães.

Curioso com essa avalanche canina, acessei, no hotel, o website da Urbanhound. Descobri um centro em Nova York chamado Jivamukti Yoga Center, onde a modelo Christy Turlington e seu cão, Pepe, um chihuahua, fizeram uma sessão de ioga para angariar fundos para uma instituição de caridade. Outro centro de ioga para cães e seus donos, East Village, oferece, dizem os experts, uma excelente classe de 30 minutos de Doga Yoga por 15 dólares.

A Hamptons Hound, loja para ricos donos de chihuahua e outras raças, vende de tudo: uma coleira de um designer suíço custa 286 dólares, uma tigela de prata para água vale 185 dólares; as camisetas são mais baratas, entre 22 e 28 dólares. Interessei-me bastante pelas coleiras ornadas de contas para as “cadelas e cachorros que querem acompanhar seus pais ao altar”. Uma afável vendedora, Justine, felicitou-me pelo iminente casamento, e me deu os preços: entre 75 e 280 dólares.

Alex Kuczynski, do The New York Times, e seu amigo Henry, um bassê, têm o perfil de freqüentadores da Hamptons Hound. O jornalista diz que uma pessoa vem ao seu apartamento regularmente para escovar os dentes e cortar as unhas de Henry. O bassê tem dois pulôveres de caxemira e botas de lã, para o inverno. Na Hamptons Hound, Kuczynski comprou Glucosamine (suplemento antiartrite) para Henry, e uma caixa de Main Beach Biscotti, por 14 dólares. Henry, escreve o jornalista, está fazendo dieta. 

Além de dog walkers e lojas mil, há uma série de outros serviços para cães: bed and breakfasts, táxis, clubes (como o PAWS, no Central Park), especialistas que vão alimentar, ou ministrar remédios para cães em suas casas, e pessoas que os levam para correr nos parques. “Correr mantém os cachorros em forma, e com maior expectativa de vida”, escreve um expert.

Vários donos de cães se consideram seus pais. Uma mulher escreveu na Urbanhound que um dobermann estava sendo agressivo com Sammy, seu pequeno cão. Ela deve separá-los, ou essa não seria a maneira de agir? E pondera: “A mamãe precisa entender que seu filho precisa lidar com seus problemas”. Outra “mãe” saiu de casa, e o ex-namorado se recusa a lhe dar custódia do cão. Urbanhound: “Já que era você a responsável pelo bem-estar do cão, e foi você quem pagou pela sua licença, seus direitos sobre ele são maiores do que os de seu ex-namorado”.

Outros “pais” de cachorros estão mais preocupados com processos jurídicos. Um labrador que estava com um dog walker engoliu uma bola de tênis e teve de ser operado, por 2,5 mil dólares, devido a problemas estomacais. Como cães são considerados propriedade privada, será difícil reaver a soma, pois não se pode processar alguém porque seu “filho” está sofrendo. Mais crítico foi o caso desta pessoa: “Meu cachorro morreu na calçada quando um ar-condicionado caiu do décimo andar em cima dele”. Ela só poderá receber o valor que pagou pelo seu cão.