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Entrevista

American way

por Gianni Carta publicado 04/05/2010 13h30, última modificação 25/10/2011 13h38
O debate televisivo é outro sinal da americanização da política britânica

O debate televisivo é outro sinal da americanização da política britânica 
O diretor e professor de jornalismo on-line na City University de Londres, Chris Brauer, acredita que estas podem ser as últimas eleições gerais dominadas pela velha mídia.

CartaCapital: Alguns observadores previam que esta eleição seria dominada pela nova mídia, mas a televisão e os jornais tiveram o impacto mais significativo no público...
Chris Brauer:
Foi uma previsão prematura. Mas a mídia on-line vai predominar na próxima eleição. No atual pleito, os debates na tevê surtiram o maior impacto. Em grande parte, isso deveu-se ao fato de esses terem sido os primeiros debates televisados entre líderes de partidos políticos antes de uma eleição geral. O Reino Unido está chegando incrivelmente atrasado a esse formato. No ano passado, houve debates televisados em eleições no Irã, no Afeganistão e na Mongólia. Ao mesmo tempo, os diários, que têm perdido leitores e anunciantes, também voltaram a influenciar um maior número de leitores.

CC: Concorda que televisão é ainda a única tecnologia para alcançar tantas pessoas num único dia?
CB:
No Reino Unido, o acesso à tevê e à internet é muito semelhante. Da população, 80% tem acesso à banda larga de alta velocidade.

CC: Então, por que blogs, o Twitter e as redes sociais não se tornaram uma plataforma política crucial, como na última eleição nos Estados Unidos?
CB:
O acesso on-line permanece a plataforma-chave para quem tem menos de 35 anos. Algumas estatísticas em relação ao número de tweets durante os debates são fenomenais. Mas sabemos que a maioria vem de uma limitada fatia altamente politizada da população. O efeito viral social ocorrido nos EUA foi aplicado aqui em diferentes áreas, algumas mais bem-sucedidos do que outras. Mas, claro, nenhuma provocou aqui um efeito semelhante ao fenômeno Obama. Fundamental é envolver o público. Para envolver o eleitorado, você precisa de uma marca. Obama é como um rock star.

CC: Estamos rumando para uma americanização do reinado, segundo a qual a personalidade do candidato vale ouro?
CB:
A americanização da política britânica começou com Tony Blair. O ex-premier introduziu os spin doctors (estrategistas marqueteiros que por vezes distorcem a notícia em favor de seus clientes). Alistair Campbell (jornalista) tornou-se a voz mais poderosa do governo anterior. Os debates de televisão são somente parte desse processo.

CC: David Cameron, o líder conservador, exigiu os debates de televisão. Ele não levou em conta os riscos de lidar ao vivo com Nick Clegg, orador habilidoso e carismático líder liberal-democrata?
CB
: Cameron julgava-se o melhor tribuno dos três líderes. O líder conservador havia ouvido Clegg somente no Parlamento, onde ele não havia se destacado pela sua oratória. Aguardávamos uma batalha entre Gordon Brown e Cameron, mas eis que Clegg entra em cena com um desempenho espetacular.

CC: Como vê o impacto de jornais conservadores?
CB:
Em pleitos anteriores, o candidato apoiado pelo Sun vencia. Mas agora isso é coisa do passado. A população mais velha, aquela que lê jornais (41% dos leitores do Daily Telegraph tem 65 anos ou mais), não será substituída por novos leitores. Mesmo neste pleito, qualquer dos três candidatos com maior destaque nos debates na tevê terá mais popularidade do que o candidato apoiado pelos jornais de maior tiragem.