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Imprensa britânica

Acerto de contas abafa o debate sobre segurança

por Editorial do Observer — publicado 15/10/2013 11h19, última modificação 15/10/2013 14h25
As revelações sobre Edward Snowden no Guardian provocaram rancor da direita, em vez de uma discussão racional
Reprodução / The Guardian
Edward Snowden

Edward Snowden está desde 23 de junho no aeroporto de Moscou

O comportamento de grande parte da imprensa britânica durante a última semana foi assustadoramente incoerente. Jornais que são contra o poder do Estado por princípio editorial definidor colocaram-se atrás do governo e do MI5 para atacar a publicação pelo Guardian dos vazamentos de Snowden e chegaram perto de pedir uma ação penal contra o jornal. O Daily Mail, que certa vez se opôs firmemente à erosão das liberdades sob o governo trabalhista, agora se encontra na curiosa posição de não apenas vilipendiar o jornalismo como apoiar o direito do Estado a praticar uma vigilância geral das comunicações de todo mundo.

Por um lado, o Mail e outros à direita do centro resistem apaixonadamente ao papel do Estado (mais recentemente na regulamentação dos jornais), mas por outro estão à vontade sobre a maciça extensão do poder do Estado sobre a vida dos indivíduos. Em circunstâncias normais, isto causaria a ira desses jornais. Mas estas não são circunstâncias normais, e por isso o Estado tem privilégio, neste caso, sobre o indivíduo. Engraçado, isso.

Em nenhuma etapa essas organizações noticiosas admitiram que as revelações de Snowden deveriam instigar um debate urgente sobre o equilíbrio entre liberdade e segurança, como fizeram nos EUA, onde o presidente Obama admitiu a necessidade de uma reformulação dos programas de vigilância da Agência de Segurança Nacional. E James Capper, diretor da Inteligência Nacional dos EUA, disse que "parte desse debate precisava acontecer".

Mas na semana passada havia pequeno interesse por abrigar um debate. Não havia tonalidade, nuance ou complexidade à vista. Em vez disso, alguns jornais perseguiam o que decididamente parecia ser um profundo ressentimento contra o Guardian, pelo papel desse jornal no escândalo de grampos telefônicos que levou ao inquérito Leveson. É pena que o jornalismo britânico seja incapaz de distinguir entre nossos próprios interesses e uma questão de princípios que afeta todos os nossos leitores. Usar as revelações de Snowden como desculpa para afiar antigos machados não serve muito bem aos britânicos ou à Grã-Bretanha.

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