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Palestina

Abbas é recebido como herói pelos palestinos

por Viviane Vaz, em Jerusalém — publicado 26/09/2011 16h32, última modificação 26/09/2011 16h32
À epera de um assento na ONU, Abbas diz: 'Há uma Primavera Árabe, mas aqui também chegou a Primavera Palestina'

Se o discurso de sexta-feira do presidente palestino Mahmoud Abbas não servir para garantir reconhecimento e um assento como membro permanente na Onu, pelo menos servirá para alavancar a popularidade do político na Cisjordânia e no mundo árabe. No último domingo 25, Abbas foi recebido como um herói por milhares de palestinos carregando cartazes com sua foto estampada e bandeiras da Palestina. “O povo quer declarar a independência”, bradavam os palestinos na chegada de Abbas à Muqata, sede do governo em Ramallah. O edifício abriga também o túmulo do líder palestino Yasser Arafat.

“Fui às Nações Unidas levando nossas esperanças, sonhos, ambições, dor e a visão de futuro e a necessidade de vocês de terem um Estado palestino”, disse Abbas à multidão a lotar o espaço em frente à Muqata. Abbas recordou trechos de seu discurso de sexta-feira em Nova Iorque, na sede da Onu, e destacou: “Há uma Primavera Árabe, mas aqui também chegou a Primavera Palestina”. O dirigente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) ressaltou ainda que prometeu à comunidade internacional que iriam alcançar seus direitos “por meios pacíficos, por meio de negociações”. “Mas não em qualquer negociação: queremos uma cessação completa dos assentamentos”, afirmou Abbas, no discurso transmitido ao vivo pela televisão pública palestina.

“Levantem suas cabeças: vocês são palestinos”, concluiu o representante da Autoridade Palestina (AP), arrancando aplausos da multidão. Segundo a pesquisa realizada pelo Centro Palestino para Pesquisa Política (PSR), realizada entre 15 e 17 de setembro na Cisjordânia e Faixa de Gaza, se as eleições para presidente fossem realizadas hoje, e houvesse somente dois candidatos, Abbas receberia 59% contra 34% do candidato do Hamas, Ismail Haniyeh. Um total de 60% dos palestinos participaria do pleito. Na Faixa de Gaza, Abbas receberia 51% e Haniyeh 42% na Cisjordânia. “Os resultados indicam um aumento significativo na popularidade de Abbas e declínio de Haniyeh comparando a situação com três meses atrás, quando Abbas receberia 54% e Haniyeh 38%”, diz o estudo feito com o apoio da Fundação Konrad Adenauer. No ano passado, duas pesquisas -uma feita pelo Pew Global Institute e outra pelo Instituto Internacional para Paz- mostravam que 52% dos palestinos tinham uma visão favorável de Abbas em 2010.

A nova onda de popularidade e holofotes sobre Abbas, que pertence ao partido Fatah, começou a incomodar o Hamas, que controla a Faixa de Gaza e não aceita a existência de Israel. De acordo com o Centro Palestino para Direitos Humanos, o serviço de investigação do Hamas (GIS, na sigla em inglês) interrompeu a exibição do discurso de Abbas na sexta-feira no restaurante “Gallery”, em Gaza, e deteve seu dono, Jamal Salim Abu al-Qumsan, de 43 anos. O jornalista Jifara al-Safadi, que gravou o incidente, também foi preso e teve seu material confiscado. Até ontem, os dois continuavam detidos.

De volta ao trabalho em Ramallah, Abbas terá agora que lidar com a disparidade política interna –o Hamas não aceita a existência de Israel e a solução de dois Estados que o Fatah se diz disposto a concordar. Além de aguardar a decisão do Conselho de Segurança da Onu, o líder palestino deve analisar também a proposta do Quarteto de Paz para o Oriente Médio (integrado por EUA, Rússia, Onu e União Europeia) para recompor as negociações de paz entre israelenses e palestinos. De acordo com a proposta, em um mês devem preparar uma reunião para programar a agenda e o método de negociação --que termine com um acordo entre israelenses e palestinos antes do fim de 2012. O ministro de Relações Exteriores da AP, Riad al Malki, declarou no sábado à emissora “Voz de Palestina” que a sugestão do Quarteto “não satisfaz as expectativas”, pois não menciona as fronteiras de 1967, nem o congelamento dos assentamentos judaicos nos territórios da Cisjordânia.

Tradução, emoção

Quem assistiu ao discurso emitido na sexta-feira em canais de TV à cabo americanos ou britânicos pode notar a voz embargada da intérprete da Onu, a traduzir do árabe ao inglês, quando Abbas defendia o direito dos palestinos. Ela não foi a única profissional da tradução a se comover com o texto. “Quando fiz a interpretação de Abbas do árabe para o inglês para jornalistas estrangeiros tentei passar a mesma emoção da voz dele. E acabei ficando emocionado também”, contou a CartaCapital o intérprete palestino de Ramallah, Jimmy Samy Albairy, 23 anos.

Para o tradutor e professor de idiomas, a retórica de Abbas conseguiu angariar a simpatia para a figura do presidente, mesmo daqueles que não estavam de acordo com a iniciativa. “O mais provável é que a proposta seja vetada e tenhamos que voltar às negociações (com Israel). De qualquer forma, foi um grande discurso, tocou lá no fundo e eu também senti orgulho do presidente”, disse SAmy Albairy.

Em Israel, o discurso de Abbas tocou seus líderes de forma distinta. O presidente Shimon Peres declarou nesta segunda-feira que “Abbas é o melhor líder com quem Israel pode trabalhar” e pediu “ao amigo presidente palestino” para “retornar à mesa de negociação” e aceitar a sugestão do Quarteto. O premier Benjamin Netanyahu, por outro lado, disse em entrevista à rede americana NBC que o discurso de Abbas lhe causou “decepção”. O cerne do conflito, emendou o premier, é que os palestinos continuam se recusando a aceitar a existência do Estado de Israel. Abbas também expressou em entrevista no sábado que Netanyahu "é o líder mais difícil de Israel". Era mais fácil trabalhar com os líderes Yitzhak Rabin, Shimon Peres, Ariel Sharon, Ehud Olmert e Tzipi Livni, acrescentou o lider palestino.

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