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A volta do filho pródigo

por Ricardo Carvalho — publicado 05/09/2011 13h40, última modificação 05/09/2011 19h02
Em Paris, DSK causa um furação midiático. Mesmo com rejeição por dois terços dos franceses ao seu retorno à política, socialistas ainda vêem cenário favorável para a eleição

Desta vez nenhum passageiro foi removido da primeira classe do voo da Air France entre o aeroporto internacional John F. Kennedy, em Nova York, e o Charles de Gaulle, em Paris. O avião decolou conforme o previsto, por volta das 19:30 de sábado, e Dominique Strauss-Kahn, ex-diretor geral do Fundo Monetário Internacional e, até pouco mais de quatro meses atrás, principal aposta do Partido Socialista (PS) para derrotar Nicolas Sarkozy e regressar ao poder após 24 anos, retornou à França.

No dia 23 de agosto, a pedido da Promotoria de Manhattan, a Suprema Corte Estadual de Nova York arquivou as acusações contra Strauss-Kahn, investigado por supostamente ter mantido relações sexuais não consensuais com a camareira do hotel Sofitel, a imigrante da Guiné Nafissatou Siallo, 32 anos. Sorridente e acenando às câmeras de televisão ao lado de sua mulher, a jornalista Anne Sinclair, DSK, como é conhecido no país, dirigiu-se diretamente a uma de suas residências na capital, no glamuroso bairro de Place de Vosges. Em nenhum momento ele falou com a imprensa ou fez qualquer tipo de declaração, mas alguns de seus interlocutores e aliados já assinalaram que o ex-futuro-candidato-favorito à presidência francesa não ficará em silêncio por muito tempo. No entretempo, o esforço para reerguer o partido nas vésperas das primárias e preencher o vácuo deixado pelo ex-diretor geral do FMI parece ter se intensificado no instante em que DSK recolocou os pés em Paris. Aparentemente, ele está na ambígua posição de ser uma figura política rejeitada pela população, mas considerada uma voz importante para traçar o discurso socialista sobre a crise financeira.

Mesmo a secretária do PS e pré-candidata à presidência, Martine Aubry, que durante todo o inferno astral vivido pelo partido se esquivou de criticar as atitudes do colega de legenda, mudou o tom e disse a uma rede televisiva “pensar o mesmo que muitas mulheres em relação às atitudes de Strauss-Kahn com as mulheres”. Falta mensurar até que ponto os resultados de uma recente pesquisa, que revelou que dois terços dos franceses são contrários ao regresso de DSK à política, influenciou as palavras de Martine.

De outras fileiras socialistas vieram declaração mais duras, talvez na tentativa de confirmar a expectativa da maioria dos franceses de que DSK não terá espaço no partido. Arnaud Montebourg, outro pré-candidato do PS, disse que o ex-diretor geral do FMI deveria se desculpar a todos os colegas de partido e eleitores como fez com membros do fundo em Washington. “Ele deveria fazer o mesmo gesto após o fardo que todos tivemos de carregar nesse episódio”.

O ex-primeiro-ministro socialista, Michel Rocard, foi além e declarou que Strauss-Kahn “obviamente tem alguma doença mental, com problemas para controlar seus impulsos. Ele está fora do jogo. Uma pena, tinha talento”.

O sepultamento da carreira política de DSK, pelo menos no curto prazo, parece ter sido digerida até por aliados próximos. François Pupponi, atual prefeito de um subúrbio parisiense onde Strauss-Kahn fora governante, afirmou que não havia intenções por parte do colega de concorrer às primárias de outubro. Jean-Marie Le Guen e Pierre Moscovici, apoiadores de DSK que, após o escândalo, juntaram-se à campanha do favorito nas primárias socialistas, François Holland, congratularam o retorno do ex-diretor do FMI à França. Ambos, entretanto, deram a entender que qualquer planejamento de reconstrução da sua imagem será a longo prazo. “Strauss-Kahn não voltará à política clássica por muitos meses, de qualquer forma”, disse Moscovici.

Mesmo em meio à turbulência midiática com a volta de Strauss-Kahn, com políticos à direita e à esquerda preenchendo praticamente cada minuto da programação televisiva do país, o partido socialista dá sinais de força no cenário eleitoral francês. Primeiro, como lembrou um editorial do The Guardian, porque existe uma desilusão geral com a condução do país por Nicolas Sarkozy. Há uma percepção difundida entre a população de que a desigualdade social aumentou nos últimos anos. Um estudo do instituto de pesquisas Insee revelou que, em 2009, oito milhões de franceses (13,5% do total) eram considerados pobres, com renda mensal menor a 954 euros por mês. Em relação ao ano anterior, houve um aumento de 0,5%.

Além do mais, o mesmo editorial destaca que, ao contrário do esperado, os principais postulantes à presidência mostraram união na última conferência do partido, realizado em La Rochelle na semana passada. Mesmo após dias de trocas de acusações, os dois principais concorrentes, François Hollande e Martine Aubry foram cordiais um com o outro e convergiram no discurso de que o PS é capaz de reduzir o desemprego, reconduzir o país ao crescimento sem desmantelar o Estado do Bem-Estar Social. Já a proposta de Nicolas Sarkozy de criar uma nova taxa temporária para fatia mais rica da população foi classificada pelos socialistas de uma tentativa do presidente de “roubar as roupas da esquerda”. Os pré-candidatos do PS dizem que a ideia não passa de um engodo para mascarar um sistema tributário injusto que oferece aos mais ricos diversas regalias. Os mais pobres, por sua vez, são penalizados com novos impostos em produtos do dia-a-dia.

As pesquisas de intenção de voto de julho mostram Sarkozy e Hollande empatados.

Apesar da aparente falta de pretensões políticas no curto prazo, mal Strauss-Kahn chegou ao país e já surgiram especulações sobre a sua participação em um futuro governo do PS mesmo não sendo o cabeça de chapa. O The New York Times ressaltou que ele poderia compor o gabinete presidencial em algum ministério, uma vez que DSK provavelmente fará duras críticas a Sarkozy no desenrolar da campanha para conferir aos socialistas credibilidade no campo econômico, considerado pelos eleitores o ponto fraco do partido. Jean-Marie Leguen, mesmo sem mencionar absolutamente nada sobre um futuro governo socialista, deu o tom das expectativas: “DSK é uma das poucas pessoas capazes de ajudar a Europa a escapar da crise na qual afunda, e nós precisaremos de homens e mulheres como ele para sair dessa crise”.

Mesmo vendo pelas costas a conclusão do escândalo sexual que soterrou as pretensões eleitorais de um quase certo futuro presidente da França, DSK ainda terá de lidar com algumas dores de cabeça. Primeiro, a camareira Nafissatou Siallo, diante de um desfecho desfavorável das investigações da promotoria de Manhattam, abriu um processo civil contra ele. Segundo, Strauss-Kahn enfrenta na França mais uma acusação de crime sexual, desta vez pela escritora Tristane Banon, numa entrevista ocorrida em 2003. O ex-dirigente do FMI precisará de tempo para recuperar-se de seus desvios mundanos e ser reincorporado ao seio do primeiro escalão do partido.

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