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A vitória do medo

por Gianni Carta publicado 19/01/2013 08h37, última modificação 20/01/2013 18h29
Os israelenses têm diversos motivos para temer o futuro e por isso se preparam para reeleger Netanyahu no dia 22

Nas eleições legislativas de terça-feira 22, há apenas uma certeza: Benjamin Netanyahu, o atual primeiro-ministro, será reeleito. Impossível prever por ora o tipo de ­coalizão que o premier de direita vai formar. Carlo Strenger, psicanalista clínico, filósofo e professor na Universidade de Tel-Aviv, diz não ter certeza se Netanyahu vai incluir em seu governo Naftali Bennett, o líder do Lar Judaico, um partido religioso ultranacionalista que não esconde as suas intenções de anexar a Cisjordânia a Israel, ou se ele vai tentar dividir o bloco de centro-esquerda, convidando um ou dois partidos moderados. De qualquer maneira, Strenger, que escreve um blog intitulado Strenger Than Fiction, sobre Israel e o Oriente Médio, para o diário de esquerda ­Haaretz, ­acredita, como escreveu recentemente, que “Netanyahu está levando Israel ­para o abismo”.

CartaCapital: Em recente artigo, o senhor indagou se, sob Netanyahu, Israel não poderia se tornar um regime de extrema-direita como os governos fascistas na Europa do século XX.
Carlo Strenger: Há uma série de razões pelas quais eu não acho que Israel seguirá esse caminho. Em primeiro lugar, as forças de centro-esquerda são ainda bastante fortes em Israel. Representam cerca de um terço do Knesset. E os liberais não estão em perigo por outra razão. A direita e o bloco religioso têm visões diferentes. Portanto, se obtiverem o controle do Knesset, não chegarão a ter uma agenda comum.

CC: Por que a esquerda está tão fragmentada?
CS: É preciso diferenciar entre a atual formação de centro-esquerda e a esquerda histórica. A esquerda histórica tem uma imagem negativa porque os israelenses dizem que em vez de paz somos alvos de mísseis e do terror. Os israelenses sentem que pagaram um preço muito pesado com o fracasso da segunda Cúpula para a Paz de Camp David em 2000, pela subsequente segunda Intifada e pela retirada de Israel da Faixa de Gaza. Quanto ao atual bloco de centro-esquerda, com sua agenda distante da realidade, ele não é diferente de outros mundo afora. Meu medo é de que Netanyahu divida o bloco de centro-esquerda ao incluir em sua coalizão uma ou duas legendas moderadas. Isso é realmente contra os interesses de Israel porque precisamos de uma oposição.

CC: Como garantir um futuro melhor para os árabes residentes em Israel?
CS: Todos os partidos de centro-esquerda assinaram uma declaração comum em que afirmam compartilhar o objetivo de estabelecer a igualdade entre os árabes israelenses e judeus israelenses. Devo dizer, porém, que os partidos árabes em Israel têm sido extremamente ineficazes em relação às necessidades concretas dos árabes israelenses. A longo prazo, será importante que os partidos árabes e judeus tenham uma agenda comum.

CC: Segundo pesquisas, dois terços do eleitorado são favoráveis à solução de dois Estados e à partição de Jerusalém. E 57% dos eleitores da agremiação de Netanyahu, Likud-Beiteinu, são a favor da fórmula de dois Estados. Isso significa que votam em legendas de direita por medo, não por ideologia. Estariam os israelenses atravessando uma crise existencial?
CS: Esse é o paradoxo da política israelense. A maioria dos israelenses acredita que não há outra solução, exceto a de dois Estados. Mas estão com medo. Não confiam nos palestinos. E essa enquete foi formulada de forma muito específica. Fizeram a pergunta supondo que os palestinos cumprirão as suas obrigações em termos de segurança e assumindo que as necessidades de segurança de Israel também estarão sob controle.

CC: A líder do Partido Trabalhista disse que não participará de uma coalizão com Netanyahu. Portanto, uma coalizão com o ultranacionalista Naftali Bennett significaria o fim da solução de dois Estados?
CS: Netanyahu acredita que o fracasso da solução de dois Estados é efeito colateral da não aceitação de Israel pelo mundo árabe. Por isso não quer correr riscos com a assinatura de um acordo de paz com os palestinos. Essa visão pessimista tem a ver com a instabilidade no Oriente Médio e, assim, Netanyahu continua ganhando tempo. Essa visão do premier é muito prejudicial para este país.

CC: Por que Naftali Bennett é tão popular nas pesquisas de intenção de voto?
CS: Ele é muito carismático. As pessoas de direita, mas que não são necessariamente fundamentalistas na sua abordagem religiosa, estão dizendo “ok, agora temos alguém para votar”. Mas elas não devem se iludir, Bennett é um extremista e quer que Israel controle 60% da Cisjordânia.

CC: O senhor sustenta que as divisões entre as diferentes comunidades em Israel não são, necessariamente, baseadas em linhas étnicas. Mas não foi a recente disputa entre o ex-ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman, líder do Yisrael Beiteinu (partido direitista e secular), e o Shas (agremiação ultraortodoxa) também sobre etnia e com tons racistas?
CS: A questão étnica é muito forte em Israel. Escrevi que as rixas não ocorrem “apenas” por causa das diferenças étnicas. Temos de ter cuidado com o que chamamos de racismo. Sim, em alguns casos há tons racistas assim como nos Estados Unidos, na Europa e em todo lugar. O que as pessoas tendem a esquecer é que ­Israel é uma democracia muito jovem. Este país tem de lidar com as relações entre grupos étnicos, religiosos e seculares. O problema é que Israel não tem espaço e tempo para realizar esse debate, porque as pessoas têm de lidar com os problemas existenciais sobre o futuro do país.

CC: Recentemente, Netanyahu disse que a ameaça iraniana é tão perigosa como o foi a Alemanha nazista. Ele está usando o Irã como um bode expiatório ou realmente o Irã representa uma ameaça existencial para Israel?
CS: A situação do Irã representa uma ameaça para Israel. Aliás, os países árabes do Oriente Médio têm mais medo de um Irã nuclear do que Israel. Diante de um Irã nuclear haverá uma corrida armamentista na região. A Arábia Saudita vai querer ter armas nucleares, assim como o Egito. Mas Netanyahu martela sobre o perigo iraniano para desviar a atenção da questão palestina. Esta tem sido a sua estratégia nos últimos quatro anos.

CC: Qual é o impacto da Primavera Árabe sobre as eleições?
CS: Uma razão que os israelenses pensam que não há potencial para um processo de paz é porque o Oriente Médio é tão instável que não querem correr riscos.

CC: Como o senhor, um acadêmico liberal, se sente sobre o atual cenário político e como ele é interpretado no exterior?
CS: Israel trata os perigos que tem de enfrentar de forma errônea. Mas os europeus costumam falar sobre Israel como se estivéssemos localizados no meio da Europa Ocidental. Os problemas abordados pelos partidos de direita não são inventados. Aqui não há encontros sociais nos quais não venha à tona a seguinte questão: este país vai existir daqui a 30 anos?

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