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Magid Shihade

A velha guarda continuará no poder?

por Paula Thomaz — publicado 10/10/2011 10h20, última modificação 10/10/2011 20h01
Para o especialista, povos do mundo árabe 'não aceitarão velhos governos com roupagem nova, mas sim a verdadeira mudança pedida nas ruas'

Marcado por uma série de manifestações no mundo árabe, o ano de 2011 se tornou um verdadeiro caldeirão de jovens sedentos por mudanças. Vivendo sob ditaduras, algumas delas quase que cinquentenárias, a geração das redes sociais usou seu poder de mobilização e utilizou a internet não apenas para rever velhos amigos ou fazer novos, mas para fazer revolução.  O alto índice de desemprego, principalmente entre esses jovens, a corrupção de dirigentes que enriquecem enquanto seu povo padece na pobreza, despertou o mundo árabe a uma nova perspectiva para o futuro.

Desde janeiro, com o primeiro levante, na Tunísia, o grito dos indignados correu os quatro cantos mundo árabe. Líbia, Egito, Argélia, Jordânia, Marrocos, Iêmen, Barhein e Síria aos poucos foram aderindo à primavera árabe. O cenário de revolta em todos esses países é semelhante e agora se esperam os resultados das revoluções que serão peculiares para cada caso. A Tunísia se prepara para eleições no próximo dia 23. A resposta dos eleitores, que se registraram para participar da votação, indicou um início de processo estável, ainda que tenha havido alguns protestos contra o governo interino composto por homens do ex-ditador Zine El Abidine Ben Ali, que renunciou em janeiro.

Enquanto isso, na Líbia e no Iêmen, a população conta com o apoio de ex-aliados dos respectivos governos que trocaram de lado no turbilhão dos acontecimentos: Mustafa Abdul Jalil, ex-ministro da Justiça de Muammar Kaddafi, atual líder do Conselho Nacional de Transição (CNT); e Ali Mohsen, ex-chefe do exército, agora chefe da primeira divisão armada que tem travado batalhas com a guarda republicana.

Que os dois líderes à frente da transição de governo tanto no Iêmen quanto na Líbia são ex-aliados de ditadores não é segredo para ninguém, mas ainda é cedo para avaliar se eles são oportunistas. Segundo Magid Shihade, professor de Estudos Internacionais da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, e autor do livro Not Just a Soccer Game: Colonialism and Conflict among Palestinians in Israel(sem previsão de lançamento no Brasil), existem muitas pessoas desonestas que se aproveitam da onda de sentimento do povo, “especialmente quando aparecem em vantagem”, como no caso de alguns países árabes. Mas não é fácil lidar com o povo, já que “tais figuras ou novos líderes terão de atender as demandas reais da população na etapa final da mudança”.

Na Líbia, mesmo sem a deposição de Kaddafi, que segue foragido, os rebeldes já se sentem representados no poder. O CNT, liderado por Abdul Jalil, tenta agora conciliar os anseios do povo em diálogo num país marcado pelos sectarismos e de rivalidades tribais e divisões étnicas. No Ocidente o Conselho já tem reconhecimento como governo legítimo de vários países.

Até o momento Jalil é o mais respeitado dentro do CNT, que conta com integrantes nacionalistas árabes, islâmicos, secularistas, socialistas e empresários.E até com ex-jihadistas da Al-Qaeda. Um gabinete provisório foi montado. O Conselho promete governar o país por um período de menos oito meses, e já comanda áreas que não estão sob o controle de Trípoli. O Conselho é, ainda, responsável pelo fornecimento de alimentos e serviços básicos nessas regiões enquanto as eleições são preparadas.  Em entrevista publicada em agosto no italiano La Repubblica, o líder do CNT afirmou: “Faremos eleições legislativas e presidenciais. Queremos um Governo democrático e uma Constituição justa. E, acima de tudo, não queremos continuar a ser isolados do mundo como temos estado até agora”. Ele também prometeu que “a ‘nova Líbia’ terá de ser um país diferente do passado, fundado nos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade”.

No Iêmen, o ditador Ali Abdullah Saleh, com medo de que os ventos da primavera árabe culminassem com o estouro de uma revolução em seu país, anunciou em fevereiro que não concorreria à reeleição em 2013, mas negou-se a deixar o país antes do fim de seu mandato. O que de nada adiantou. Ferido numa tentativa de assassinato em junho, ele foi se recuperar na Arábia Saudita, onde passou os últimos três meses. Recentemente retornou ao país, falando em diálogo e paz. A população visualizava nessa ausência esperança da criação de um plano de mudança, mas suasesperanças foram por água abaixo. E a oportunidade de transição pacífica se distancia cada vez mais do país.

No mais recente episódio de violência, forças leais a Saleh e beduínos seguem em combate em Taiz, cidade ao sul do país. Na última quarta-feira 5, o saldo de mortos havia chegado a oito.

De um lado a guarda republicana liderada por Ahmed Saleh, filho do ditador no poder há 33 anos. E de outro, a primeira divisão armada, liderada pelo general Ali Mohsen al-Ahmar que já foi um forte aliado do presidente e se uniu aos manifestantes em março, incumbindo suas tropas de proteger o lado dos rebeldes em Saná. Na ocasião, ele afirmou, na rede de tevê Al Jazira que a crise estava ficando complicada e empurrando o país na direção da violência. "De acordo com o que sinto, e de acordo com o que muitos de meus companheiros e soldados sentem, anuncio meio apoio e nosso apoio pacífico à revolução dos jovens. Vamos cumprir nossos deveres de manter a segurança e a estabilidade", afirmou.

Para Shihade, o professor de EstudosInternacionais, é possível que as pessoas mudem, sim. E no caso de Jalil e Mohsen, “nós enxergamos melhor o que eles fazem enquanto estiverem no governo, para então julgar seu desempenho frente às demandas do povo, especialmente em relação aos temas centrais como justiça econômica, liberdade e soberania do povo e do Estado”.

O especialista explica que todos os novos regimes e revoluções costumam incluir figuras de seus regimes anteriores, mas que o mais importante é observar as questões estruturais. “No mundo árabe, em geral, há insatisfação com a política dos últimos 40 anos de falta de transparência, de falta de justiça econômica, a falta de capacidade de resposta aos povos, desejos básicos e aspirações, dos sentimentos de repressão de regimes locais, e de oposição à agressão israelense e norte-americana. A nova etapa da política tem de responder a tudo isso”, afirma.

Os países em transição dificilmente continuarão com políticas do passado e isso vai dificultar o controle dos Estados Unidos sobre esses países. “Afinal, o enfraquecimento do poder global dos EUA foi um fator que levou à queda ou às revoluções contra os seus principais aliados na região, como Mubarak e Ben Ali. A questão principal é permitir ao povo de cada país fazer suas mudanças sem intervenções externas.”

Independentemente de ter origem nos velhos regimes, os novos governos terão de refletir os sentimentos da população. Se um líder do regime anterior participa do novo governo ele terá de reagir às novas realidades, caso contrário ele “provavelmente será deixado de lado por grupos políticos que estão moldando os acontecimentos atuais e a próxima fase na história da região.”

Ainda assim, não há nenhuma garantia de que surgirá um novo governo sem as marcas do antigo. “Temos que esperar e ver. A única garantia que temos é o povo está farto da velha política, e não aceitará o velho governo com roupagem nova. O povo quer a verdadeira mudança pedida nas ruas.”

Ex-aliados dos ditadores unidos agora aos insurgentes, Jalil, na Líbia, e Mohsen, no Iêmen, ainda não são apontados como traidores por nenhum dos lados. Para o professor Shihade, é surpreendente ver figuras do velho regime fazendo parte do novo governo, mas “é provável que isso não aconteça”.

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