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A Turquia distribui as cartas

por Redação Carta Capital — publicado 10/10/2012 15h23, última modificação 10/10/2012 15h23
Sozinha, Ankara não pode precipitar a onda de eventos trágicos que insiste em manter-se à espreita no Oriente Médio

Por Márcio Sampaio de Castro

Nos últimos dias, o exército turco tem promovido uma farta barragem de artilharia sobre o norte da Síria. Segundo a versão oficial distribuída por Ankara, o objetivo é retaliar as alegadas provocações promovidas pelo país vizinho convulsionado por uma guerra civil. Vale lembrar que no jargão militar a adoção de uma barragem visa, por meio de intensos bombardeios, desestruturar toda a organização militar inimiga. Em resposta aos insistentes e aparentemente desvairados ataques isolados promovidos pelo país vizinho com pequenas peças de artilharia, origem das provocações, o parlamento turco autorizou seu exército a invadir preventivamente o território sírio por um período superior a um ano no momento em que considere conveniente fazê-lo. Trata-se, sem dúvida, de uma declaração de guerra, ainda que a outra parte interessada não tenha sido formalmente informada a respeito.

Sobre essa espiral de violência, que desde há muito tempo já não guarda relação alguma com as manifestações populares pró-democracia deflagradas em diversos países do Oriente Médio ao longo dos últimos dois anos, vale a pena destacar uma série de elementos que tornam a situação alarmante por ser mais um significativo indício da ruptura da ordem internacional vigente estabelecida ao longo do último século.

A projeção de interesses estrangeiros em países soberanos, prática tão antiga quanto a existência das nações ao redor do globo, sempre foi um segredo guardado a sete chaves. Mesmo nos anos da Guerra Fria, a exceção do caso vietnamita, havia um receio considerável em relação a intervenções em áreas de influência alheias, respeitando-se, no limite, a integridade territorial e o caráter nacional de cada Estado envolvido nas diversas contendas do período. Ainda que o saldo resultante das ações perpetradas nos bastidores fosse o mesmo: morte e destruição.

A crise Síria seguiu inicialmente à risca o script de eventos anteriores, inaugurados com a simbólica queda do Muro de Berlim, como a dissolução da Iugoslávia, a invasão do Iraque e a derrubada de Kadafi na Líbia: primeiro uma enxurrada de denúncias sobre massacres promovidos pelo governo central, seguida de pedidos da “comunidade internacional” por resoluções da ONU que implantem zonas de exclusão aérea e presença militar estrangeira no país conflagrado. No caso sírio, com a resistência russa e chinesa quanto à aprovação de resoluções desse tipo, inovou-se com a criação do grupo Amigos da Síria.

Entre os “amigos” do povo sírio figura a Turquia, que curiosamente abandonou o seu papel de liderança moderada no mundo islâmico, após o malogro das negociações em 2010 sobre o urânio enriquecido iraniano - que envolveram o seu primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan, o presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad e o então presidente brasileiro Lula. Com um novo modelo de projeção regional em vigor por parte de Ankara, tornou-se de domínio público que também a partir da Turquia partem hordas de combatentes islâmicos, muitos deles ligados à Al-Qaeda, que penetram no país vizinho para participar ativamente das ações armadas da rebelião contra o regime do ditador Bashar Al-Assad.

Igualmente entre os “amigos” que clamam por democracia no país árabe aparecem os regimes fechados do Conselho de Cooperação do Golfo, a saber: Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã. Nenhum deles prima por praticar os valores consagrados das democracias representativas ocidentais. Por fim, a União Europeia e os Estados Unidos capitaneiam o movimento que, como também é de domínio público, alimenta a rebelião com armas, informações e o apoio logístico a partir do santuário turco. No início de agosto, a agência de notícia Reuters publicou matéria informando que o presidente Barak Obama assinou no começo do ano uma autorização para que a Agência Central de Inteligência (CIA) colabore com a rebelião síria. Em um movimento que cautelosamente procura manter sob controle a insurgência, auxiliando-a, mas sem permitir que armamento pesado chegue às suas mãos.

O fato é que esses ataques com morteiros contra o território turco vêm bem a calhar para os “amigos do povo sírio” em um momento em que, provavelmente com auxílio estrangeiro, o regime de Assad vinha impondo sucessivas derrotas aos rebeldes.  A manutenção do ditador em sua cadeira interessa a russos, chineses e iranianos, pois representa a manutenção de um tênue equilíbrio geoestratégico na região. A sua derrubada igualmente interessa a muitos membros e não membros do Grupo de Amigos da Síria. Através da Síria, o Irã é acusado de alimentar o Hezbollah, inimigo mortal de Israel. Um regime pró-Ocidente em Damasco representaria o fim da influência iraniana na região. Isto também interessa às monarquias sunitas do Golfo Pérsico, afinal a expansão do ramo xiita da confissão islâmica representado por Teerã não faz parte de seus planos. E por fim, sem a ameaça do Hezbollah e de uma Síria não-alinhada, um eventual ataque ao Irã para destruir o seu programa nuclear teria um reduzido potencial de incendiar o Oriente Médio com uma onda de retaliações.

Como em um jogo de cartas, a distribuição agora está nas mãos da Turquia, mas Ankara sabe que sozinha não pode precipitar a onda de eventos trágicos que teimosamente insiste em manter-se à espreita no Oriente Médio, aguardando aquele que primeiro vai acender o fósforo no quarto escuro tomado pelo gás.