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The Observer

A retórica do racismo da UEFA

por The Observer — publicado 22/04/2013 16h44, última modificação 22/04/2013 17h03
Os órgãos a dirigir o futebol precisam equiparar palavras a ações para que o jogo se livre de preconceito e abusos raciais
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Jogadores do Tottenham, da Inglaterra, em jogo da Liga Europa. O racismo é um problema grave no futebol europeu. Foto: Fabrice Coffrini/AFP

Por Daniel Taylor

Depois de algum tempo você fica tão condicionado às punições brandas, à indiferença à mudança e à sensação dominante de que toda a organização está cronicamente fora de alcance. Portanto, você pode ficar chocado ao saber o seguinte: pessoas importantes na UEFA parecem ter finalmente percebido que está na hora de parar de sentar sobre as próprias mãos.

A declaração do secretário-geral do órgão governante, Gianni Infantino, sobre uma nova lista de medidas disciplinares por ofensas de racismo certamente rompeu a norma, prometendo o afastamento por dez jogos para jogadores e um sistema pelo qual os clubes cujos torcedores são ofensores contumazes terão de jogar em estádios vazios.

Sendo a UEFA, a primeira reação é se perguntar se eles realmente pretendem fazer isso e têm coragem para aplicá-lo. Afinal, existe uma diferença entre implementar novas regras e as impor, e por enquanto os tomadores de decisões do órgão que rege o futebol europeu podem ter de perdoar uma parte importante de seu público por não lhes dar automaticamente o benefício da dúvida.

A UEFA já multou mais times por iniciar um jogo com alguns segundos de atraso do que por torcedores que fazem ruídos de macaco e ostentam suásticas. Contra esse pano de fundo, não é de surpreender que o grande anúncio ainda não provocou exatamente cumprimentos entusiásticos.

Ao mesmo tempo, não adianta reverter ao modo padrão em que, por ser a UEFA, deve ser automaticamente alvo de zombaria. Sim, a UEFA parece ter parado no tempo, vale a pena manter um pouco de ceticismo e ainda há muitas áreas cinzentas, mas pelo menos ela reconheceu que o atual sistema é inadequado – e algo precisa ser feito. É pelo menos um começo. Enquanto isso, a Associação de Futebol (FA na sigla em inglês) da Inglaterra dá os últimos retoques em sua própria revisão de procedimentos disciplinares sobre o mesmo assunto.

David Bernstein, o presidente da FA, diz que as conclusões serão anunciadas este mês, quando poderemos esperar mais conversas sobre tolerância zero, repressão e – por favor – alguma nova maneira de evitar que se acumule pó nos arquivos (a FA não terminou a investigação sobre o jogo do West Ham em Spurs em novembro, quando os torcedores visitantes foram ouvidos entoando frases sobre Hitler e fazendo um chiado para imitar o ruído das câmaras de gás nazistas).

A FA, como os seus colegas da UEFA, parece estar consciente de suas deficiências, pelo menos até certo ponto. Mas o primeiro lugar por onde deveriam começar é certamente pela organização que todo mundo associa automaticamente a essa luta – e até agora não houve qualquer indício de que eles pretendam fazê-lo. Uma visita à sede da Kick It Out lhe dirá tudo sobre as atitudes das pessoas que dirigem o esporte.

O grupo antirracismo mais visível do futebol pode ser encontrado em um escritório no quarto andar sobre uma pizzaria em Clerkenwell, em Londres. É uma operação de cinco pessoas, com verbas de menos de 300 mil libras por ano. A Primeira Liga, com 5,5 bilhões em receitas da tevê nos próximos três anos, contribui com uma quantia anual de pouco menos de 100 mil libras. A FA e a Associação de Jogadores de Futebol Profissionais dão a mesma quantia. E vamos nos arrastando.

Ninguém parece achar estranho que a Liga de Futebol não contribua com um centavo, apesar de a Kick It Out trabalhar com todos os 72 clubes. Ou que a contribuição da Primeira Liga represente aproximadamente 0,000018 de seus direitos de transmissão.

Todo mundo vê claramente o seguinte: a Kick It Out precisa ser reforçada para se tornar a organização que deveria ser. Mas há mais pessoas no andar de baixo colocando tomate e mussarela nas redondas.

Pelo menos a UEFA está indicando que alguma coisa em sua mecânica tem de mudar. Mais importante, há evidências de que eles pretendem fazer o que dizem. O Dynamo Kyiv recebeu ordens para disputar dois jogos com portões fechados, e os juízes saberão com certeza que têm autoridade para expulsar times se ouvirem agressões racistas.

Isso inclui algumas dificuldades logísticas, mas certamente supera a resposta de Michel Platini quando foi perguntado, durante a Euro copa 2012, sobre a possibilidade de Mario Balotelli sair do campo em protesto. “Ele receberia um cartão amarelo”, disse Platini casualmente.

Do que o debate não precisou foi da contribuição do xeque Abdullah Al-Thani, da família real do Catar e dono do Málaga, e sua avaliação da última contenda de seu time contra o Borussia Dortmund. A reação inicial foi esperar que alguém tivesse invadido sua conta no Twitter. Em vez disso, ele estava falando sério, afinal, e queria que o mundo soubesse que o Málaga não está mais na Liga dos Campeões por causa de “uma UEFA corrupta, baseada no racismo”. Curiosamente, ele não mencionou o gol impedido que ajudou seu time a assumir a liderança por 2 a 1. Ou que a bandeira também deveria ter sido levantada quando Zlatan Ibrahimovic marcou para o Paris Saint-Germain, de propriedade do Catar, contra o Barcelona na semana anterior.

As novas propostas definidas por Infantino não explicaram se havia algo nas letras miúdas para a realeza midiática que não parece perceber que uma falsa alegação de racismo pode ser tão prejudicial quanto uma ofensa verdadeira. Mas esperamos que haja.

O mesmo vale para qualquer pessoa do futebol, como Charles Green do Rangers, que acha aceitável se referir a um associado como seu “amiguinho paqui” (forma racista de se referir a paquistaneses) em uma entrevista para jornal. Green, que hoje enfrenta uma acusação da Associação Escocesa de Futebol, parece estar preso em uma cápsula do tempo.

Enquanto isso, Kelvin Reynolds, 20, de Caherdavin, deverá começar as 240 horas de serviço comunitário depois de admitir ter lançado uma banana contra o beque esquerdo do Manchester City, Gaël Clichy, quando o Limerick jogou com eles em um amistoso em agosto passado. Reynolds, um torcedor do Manchester United, já tem 65 condenações e afirmou no tribunal não compreender o significado de uma banana no futebol. São histórias como essa que fazem você esperar que a UEFA e a FA sejam tão boas quanto sua palavra.

Times fora da Primeira Liga devem chacoalhar os baldes de coleta

Revela algo sobre o futebol moderno o fato de o Manchester United poder anunciar que Aon pagou 15 milhões de libras por direitos de batizar seu campo de treinamento – Carrington, como é conhecido e continuará sendo – na mesma semana em que, 25 quilômetros adiante na mesma estrada, o Bury fala em sair do negócio se não puder levantar 1 milhão de libras rapidamente.

Não é culpa do Manchester que um time hoje relegado à Liga Dois esteja à beira do naufrágio financeiro, mas a lacuna entre ricos e pobres está aumentando, e não ajuda que o dinheiro seja distribuído desproporcionalmente pelas ligas.

A Primeira Liga pretende dar pagamentos paraquedas aos clubes relegados de 23 milhões de libras no próximo ano, um aumento de 42% no número atual de 16,2 milhões de libras. Se eles não voltarem atrás, esses clubes receberiam 18 milhões no ano que vem, 9 milhões no terceiro ano e depois 6,1 milhões.

Ao mesmo tempo, o pagamento de “solidariedade” de 2013-14 aos times da Liga Um aumentarão 6,6%, de 338 mil libras para 360 mil. Para a Liga Dois, o aumento é de 5,4%, de 228 mil para 240 mil libras.

“Suicídio financeiro” é como o chamou Preston North End em uma declaração que vazou de uma recente reunião da Liga de Futebol. “Que ninguém duvide de que a Primeira Liga não dá a menor importância para a Liga de Futebol. Os clubes da Liga Um e da Liga Dois não têm a menor chance de sobreviver, quanto mais competir sem um patrocinador.”

Mas há mais coisas que isso – a má administração financeira e a palhaçada geral das diretorias explicam por que muitos clubes de ligas inferiores estão lutando – mas Preston está certo ao falar sobre “uma brecha entre os ricos e os pobres no futebol”.

Mais que isso, ameaça transformar a primeira divisão em uma loja fechada onde os ricos ficam mais ricos e todos os outros chacoalham seus baldes de coleta.

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