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A primeira mulher à frente da prefeitura de Paris

por Deutsche Welle publicado 01/04/2014 10h48
Contrariando a tendência conservadora que resultou em grande avanço da extrema direita nas eleições regionais, parisienses elegem Anne Hidalgo, uma socialista nascida na Espanha
Lionel Bonavesture / AFP
Anne Hidalgo

A socialista Anne Hidalgo

A socialista Anne Hidalgo foi escolhida para ser a primeira mulher a ocupar o cargo de prefeita da capital francesa, em uma campanha marcada por controvérsias em relação à sua origem modesta e a uma suposta, segundo críticos, ausência de raízes parisienses.

Na França, as eleições do último domingo 31 foram marcadas pelos avanços da centro-direita e da extrema direita, que saiu vitoriosa em várias cidades pelo país e pôs em xeque a reeleição do presidente François Hollande.

Mas, apesar das tentativas dos adversários de arranhar sua imagem, os eleitores da capital contrariaram a tendência nacional e elegeram prefeita a filha de imigrantes espanhóis, de 54 anos.

Esperava-se que Hidalgo tivesse votação apertada contra sua concorrente, a ex-ministra do Meio Ambiente do governo Nicolás Sarkozy, Nathalie Kosciusko-Morizet. Entretanto, o segundo turno das eleições na capital foi encerrado com quase 55% dos votos favoráveis à socialista.

Aparentemente, sua postura e a seriedade de suas promessas agradaram aos residentes de Paris, em meio às dificuldades econômicas que o país atravessa. Após consolidada a votação, Hidalgo declarou: "Foi uma vitória da autenticidade, uma vitória da esquerda leal aos seus princípios e à eficiência para implementá-los."

Origem espanhola
Anne Hidalgo nasceu perto da cidade de Cádiz, na região da Andaluzia, em 1959. Quando ainda era bebê, sua família se mudou para a França, onde ela cresceu em um bairro operário no subúrbio de Lyon.

Durante a infância, comunicava-se em espanhol com os pais e em francês com a irmã. Aos 14 anos, adotou a nacionalidade francesa, trocando seu nome original, Ana, por Anne. Ela costuma citar uma frase do escritor Sacha Guitry: "Ser parisiense não significa nascer em Paris, mas renascer lá."

Hidalgo entrou para o Partido Socialista francês aos 30 anos, quando a sigla estava sob a direção de Lionel Jospin, também conhecido pelo estilo discreto e pela reputação de integridade. Ela é conhecida por ser uma feminista tradicional, além de ter fama de ser trabalhadora e confiável.

Durante 13 anos, ela foi uma discreta vice do atual prefeito, Bertrand Delanoë. Eleito em 2001, Delanoë, um dos primeiros políticos franceses a assumir publicamente sua homossexualidade, a nomeou como vice-prefeita. Desde então, Hidalgo se encarregou, em particular, de assuntos referentes à igualdade de gêneros.

Após a eleição de Hollande, em 2012, ela recebeu a oferta de um cargo no Ministério do Trabalho, mas preferiu permanecer na prefeitura, aguardando uma oportunidade para suceder Delanoë.

As políticas inovadoras de seu antecessor se tornaram um trunfo para Hidalgo. Foi Delanoë, por exemplo, que implementou o popular programa de bicicletas públicas, cujo modelo foi exportado para diversas cidades ao redor do mundo.

Ele também foi o responsável pela criação das praias artificiais ao longo do rio Sena, pela adoção de novos bondes na cidade, além de instituir a entrada gratuita nas exposições permanentes dos museus municipais.

"A estrela e a concierge"
Sua adversária nas eleições, Nathalie Kosciusko-Morizet, declarou durante a campanha que o pleito girava em torno da disputa entre "uma estrela e uma concierge", devido à origem ibérica de Hidalgo. O termo se refere aos imigrantes, muitas vezes da Espanha ou de Portugal, que trabalham como zeladores nos edifícios de Paris.

Hidalgo rebateu, acusando Kosciusko-Morizet de ser parte de uma "casta" privilegiada, distante do mundo real, rótulo que acabou marcando a candidata de centro-direita.

Kosciusko-Morizet foi alvo de críticas generalizadas após descrever o metrô de Paris como um "lugar charmoso", causando revolta entre aqueles que utilizam diariamente o transporte público de Paris.

Durante a campanha, a prefeita eleita prometeu investimentos em habitações, transportes e em espaços verdes, como forma de reverter o êxodo das classes média e baixa para os subúrbios. Constavam também em sua plataforma eleitoral a construção de 10 mil moradias sociais e a abertura de 5 mil novas vagas nos jardins de infância.

A crise imobiliária deve ser um dos principais desafios da nova prefeita. Os preços do setor aumentaram mais do que o dobro nos últimos dez anos e ainda continuam altos, apesar da crise que o país atravessa.

Sua administração também deverá ser marcada por políticas ambientais, como resultado de um acordo firmado com o Partido Verde, que, em contrapartida ao apoio eleitoral, deverá dobrar sua representação no conselho que acompanha o trabalho da prefeita, além de ocupar um quinto dos postos do gabinete na prefeitura.

  • Edição Rafael Plaisant