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A Primavera hesita

por Gianni Carta publicado 26/11/2011 10h57, última modificação 26/11/2011 11h06
Egito e Síria vivem dias de tensão extrema enquanto o Ocidente e Israel atribuem ao Irã o papel de vilão
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Egito e Síria vivem dias de tensão extrema enquanto o Ocidente e Israel atribuem ao Irã o papel de vilão. Foto: khaled Desouki/AFP

Deflagrada em janeiro, a Primavera Árabe chacoalhou o mundo e seus próximos dias parecem ser definitivos para a estabilidade global. As eleições legislativas marcadas parasegunda-feira 28 no Egito são capitais. Com 85 milhões de habitantes, o país é líder porque é o mais populoso e influente no mundo árabe.

Em decorrência dos choques entre a polícia e manifestantes, o pleito parecia comprometido. Mas, na quinta-feira 24, o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), no poder, chegou a um acordo com os opositores para a formação de um governo de “salvação nacional”. Kamal el-Ganzuri, ex-premier do ditador Hosni Mubarak, deposto em fevereiro, foi encarregado de formar um novo governo.

Resta saber se o povo aceitará a permanência do marechal Hussein Tantawi na chefia do CSFA. Na terça, Tantawi havia feito concessões aos manifestantes, nas ruas desde a sexta-feira. Prometeu um pleito presidencial já em julho de 2012, e não mais em 2013. Também propôs, em discurso televisionado, um referendo sobre a continuação do CSFA no poder.

Paraos manifestantes, os generais a liderar o CSFA são uma extensão do velho regime de Mubarak, dispostos a manter seu poder mesmo após a eventual eleição de um presidente civil. Há, inclusive, quem diga que Tantawi é um Mubarak fardado. Sua presença explica a barbárie a que se entregaram as “forças de segurança”, quando dezenas de pessoas morreram em sete dias de manifestações e milhares ficaram feridas. A repressão não poupou jornalistas, blogueiros e trabalhadores em greve. Segundoa Anistia Internacional, 12 mil civis foram processados em tribunais federais. Pelo menos 13 foram condenados à morte.

O escrutínio do dia 28 será no mínimo tenso, devido também às diferentes tendências dos manifestantes seculares da legenda Irmandade Muçulmana, que se diz moderada, e dos salafitas, radicais islâmicos. O descontentamento com uma provável vitória da Irmandade Muçulmana poderia manter a junta militar no poder. Cenário, é óbvio, que implicaria o dramático retrocesso da Primavera.

Enquanto isso, na quinta-feira 24, aLiga Árabe concedeu um ultimato de 24 horas para a Síria permitir o envio de observadores chamados a monitorar o levante no país. A Liga também pediu ao secretário-geral da Onu, Ban Ki-moon, para que “tome as medidas necessárias”. Caso o ditador Bashar al-Assad -responda de forma negativa, sanções econômicas seriam impostas. Por sua vez, a França sugeriu “zonas humanitárias de proteção” no país, onde, segundo a ONU, 3,5 mil pessoas morreram desde o começo dos protestos, em março.

Para Jon Leyne, correspondente da BBC na Síria, a França (e certamente outros aliados) estaria considerando uma intervenção militar internacional no -país. O que não surpreenderia, em vista das posições belicistas de Nicolas Sarkozy às vésperas das eleições francesas em 2012. Segundo Magid Shihade, professor de Relações Internacionais da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, uma eventual intervenção estrangeira na Síria seria tão errada quanto aquela na Líbia. “Levantes, para darem certo e politizarem as -pessoas, têm de ser -realizados pelo próprio -povo”, avalia Shihade a -CartaCapital.

Nesse contexto turvo, o Irã, em grande parte porque apoia o governo sírio, aparece comoo vilão da história no mundo árabe e no Ocidente. Na quinta-feira, em Praga, o vice-premier israelense, Moshe Ya’alon, declarou: “O Irã é o principal instigador de instabilidade na região”. De fato, Assad, integrante da minoria alauíta, variante dos xiitas iranianos, é apoiado por Teerã, para quem a Síria “representa estabilidade”, como diz o cientista político iraniano Hesam Houryaband. Assad é inimigo de Israele dá apoio ao Hezbollah, movimento xiita com atuação política e militar com sede no Líbano. Houryaband concorda com o vice-premier israelense: “Os dias de Assad estão contados. Mas o regime sucessor poderá não ser melhor, comoestamos vendo em outros países árabes”.

Comose sabe, as pressões sobre o Irã partidas do Ocidente (e de Israel) também se devem ao fato de o país desenvolver um programa nuclear. Teerã, isso é transparente aos olhos de numerosos observadores, não está mais próxima da produção de uma bomba atômica do que em 2003. O novo relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), publicado dia 8, afirma, contudo, “sérias preocupações com as possíveis dimensões militares do programa nuclear do Irã”. Mas é possível confiar na AIEA?

Para Houryaband, “o discurso do presidente Mahmoud Ahmadinejad de destruir Israelnão reflete a política exterior do Irã, e muito menos a posição do seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei”. O Irã quer armas nucleares para proteger seu regime. A razão? Ninguém atacará a Coreia do Norte e o Paquistão, ambos com programas nucleares avançados. E Israel-, vale dizer, também é potência atômica, embora jamais tenha confirmado ou desmentido dispor de arsenal nuclear.

Estados Unidos, Reino Unido e outros países ocidentais, incluindo o Canadá, não confiam. Anunciaram, nesta semana, novas e duras sanções econômicas contra o Irã, que afetam a indústria petrolífera e o banco central iraniano. Impassível, o presidente Ahmadinejad disse, em discurso transmitido ao vivo pela tevê estatal, que seu país não recuará em seu programa nuclear.

As novas sanções, vale recordar, chegam na esteira de uma ameaça de ataque unilateral de Israel contra o Irã por conta do relatório da AIEA sobre o programa nuclear do país. E se num primeiro momento o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu parecia não ter conseguido o apoio da chamada comunidade internacional (leia Conselho de Segurança da ONU), agora ficou claro que sua estratégia funcionou até certo ponto. A China, um dos cinco integrantes permanentes do Conselho de Segurança da ONU, vetará sanções contra Teerã. Moscou, outro integrante do Conselho, fará o mesmo. Promete ir além o presidente russo Dmitri Medvedev, que simplesmente avisa defender o Irã em um eventual ataque. Ventos de Guerra Fria? 

Mesmo assim, Netanyahu está em alta. “A retórica de Netanyahu contra o Irã é sempre a mesma. Às vezes dá certo, comoaconteceu agora”, confirma Houryaband.  E tem outro fator a favorecer desta vez o premier israelense: “Barack Obama prometeu que lutaria contra a proliferação nuclear ao ser eleito e, portanto, às vésperas de um pleito presidencial, ele precisa ganhar a aprovação dos hawks (linhas-duras) e, claro, de seus eleitores conservadores”.

Em recente entrevista a CartaCapital, Mokhtar ben Barka, professor de ciências políticas da Universidade de Valenciennes, na França, lembrou que o lobby judeu também é fundamental nas decisões de Obama no Oriente Médio. “Um presidente norte-americano, seja ele -democra-ta, seja republicano, é eleito para defender interesses norte-americanos. Ponto final.” Ainda segundo Ben Barka, um dos principais parâmetros da política norte-americana é a importância do Estado de Israel. “Ninguém, ninguém, pode antagonizar os israelenses e judeus norte-americanos. E é bom lembrar que numerosos judeus norte-americanos financiaram a campanha de Obama.” Ben Barka sublinha que os primeiros 21 bancos norte-americanos “são presididos por judeus”. Em suma, Obama não seria muito diferente de George W. Bush. Conclui Ben Barka: “Quem pensou que o presidente norte-americano seria pró-árabe viveu uma ilusão”.

Netanyahu, alcunhado de “imperador global” numa entrevista a CartaCapital por Ahmad Moussalli, professor de ciências políticas da Universidade Americana de Beirute, vem martelando em entrevistas que o Oriente Médio vai de mal a pior. Parao premier, os extremistas foram os vencedores da chamada Primavera Árabe. Em 23 de outubro, no primeiro pleito democrático realizado na Tunísia em cinco décadas, venceu o -Ennahda, principal partido islâmico. A lei islâmica, sharia, foi decretada na Líbia pelo chamado Conselho de Transição Nacional (CNT). E no Egito, o mais provável é que ganhe em uma eleição marcada por desnecessárias e complicadas leis eleitorais a Irmandade Muçulmana.

Na verdade, o quadro não é tão negro quanto o pinta Netanyahu. Porém, o copo está pela metade cheio ou pela metade vazio? Ben Barka, da Universidade de Valenciennes, acredita que esses partidos islâmicos ditos moderados podem mudar o discurso uma vez eleitos. Por sua vez, Shishade, da Universidade de Birzeit, aponta: “Partidos islâmicos, comooutras legendas, devem poder participar de eleições e do processo político. Isso no mundo árabe e no ocidental. Qualquer partido que respeite a diversidade e não seja racista pode adentrar o tablado político”.

Na Tunísia, o Ennahda, por exemplo, fez uma coalizão com o Congresso Para a República (CPR), agremiação de centro-esquerda, e o Ettakatol, de esquerda. O programa do Ennahda encoraja uma forma do Islã bastante flexível, que, óbvio, pode ter diferentes interpretações. Claro, contudo, é isto: o programa não menciona a lei islâmica.

No Egito, a Irmandade Muçulmana tornou-se muito mais moderada que, por exemplo, os salafitas. Criada em 1928, foi perseguida por Mubarak. No passado lutou contra a ocupação britânica (o que é compreensível) e tentou assassinar o então presidente Gamal Abdel Nasser, em 1954. Mas, ao longo dos anos, tornou-se uma legenda nos moldes do AKP, no poder na Turquia. Contrária à violência, mobilizou milhões de seguidores através de ONGs e sindicatos. Segundo numerosos egípcios, a Irmandade Muçulmana poderia trazer estabilidade ao país.

Está claro, de todo modo, que os militares não pensam da mesma forma. Wash-ington tampouco. O apoio de Tio Sam é, diga-se, fundamental para o -CSFA. -Washingtonenvia anualmente 1,3 bilhão de dólares em ajuda econômica ao Egito e tais remessas continuarão caso o “secretário de Estado se certificar de que o governo egípcio não está sob o domínio de uma organização terrorista”.

Por essas e outras, os militares, comoé de praxe, falam na ameaça de “forças invisíveis”. A estratégia do CSFA, no mínimo perigosa, é dar maior espaço político para salafitas e outros grupos islâmicos extremistas. Ajuda o fato de vários manifestantes secularistas (numerosos deles jovens que iniciaram através de redes sociais os protestos contra Mubarak) não terem uma agenda clara. Uma vitória da Irmandade Muçulmana poderia deflagrar uma guerra religiosa.

Quanto à Líbia, seu caso é mais complexo. Embora a sharia tenha sido decretada pelo CNT, o novo premier Abdurrahim el-Keib formou um governo de secularistas. O grande perdedor chama-se Abdul Hakim Bilhaj, herói dos rebeldes. Bilhaj, diga-se, manteve elos com a Al-Qaeda e esteve preso na Líbia e em Guantánamo. O presidente Mustafa Abdul Jalil, o mesmo a pregar a inserção da sharia na nova Constituição, quer, claro, agradar ao Tio Sam. O futuro dos novos regimes árabes, cada um com suas -particularidades, é uma incógnita.

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