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Internacional

Oriente Médio

A primavera árabe está sendo sufocada pelas armas

por The Observer — publicado 30/07/2013 09h12, última modificação 26/06/2015 09h13
Oriente Médio: não há uma condenação clara da comunidade internacional às reformas políticas produzidas sob a mira das armas
Salah Habibi / AFP
Mohamed Brahmi

Multidão participa do funeral do líder opositor Mohamed Brahmi, no sábado 27. Brahmi foi morto em Ariana, subúrbio da capital Túnis

Por Nabila Ramdani

Os assassinatos grotescos de egípcios comuns por seus próprios militares dizem tudo sobre a falta de avanço da Primavera Árabe. Apenas um ano depois das eleições democráticas que deveriam anunciar uma era de liberdade e estabilidade no terceiro país mais populoso da África, testemunhamos nada menos que uma chacina rotineira nas ruas.

Os mortos e feridos por armas automáticas no Cairo tentavam demonstrar seu apoio a Mohamed Morsi, o presidente eleito deposto pelo exército. Homens armados – e inclinados a usar as armas contra civis desarmados – hoje controlam uma cidade que já foi um foco de esperança e otimismo.

Assim como as imagens de uma Praça Tahrir lotada e jubilosa passaram a simbolizar as glórias passageiras da Primavera Árabe, líderes mundiais como Barack Obama prometeram de modo incessante conter os ditadores "que matam seu próprio povo". Lembra-se de como David Cameron enviou prontamente jatos da RAF para ajudar a bombardear Kaddafi na Líbia? A "proteção de vidas civis" sempre foi a primeira justificativa para o uso dessa força letal, assim como foi para o Ocidente afinal se declarar favorável às revoluções em todo o Oriente Médio e norte da África.

Hoje esses mesmos líderes ocidentais permanecem em silêncio sobre os excessos de um exército que sempre foi a principal base de poder do déspota egípcio Hosni Mubarak. Não importa como se analise, a supressão pelos militares do governo da Irmandade Muçulmana de Morsi foi um golpe de Estado clássico. Os que tentam justificar esse triunfo do poder militar são inevitavelmente aqueles que acreditam que a força marcial é a posição normal desejada de qualquer país árabe.

O exército egípcio negará o uso de munição para conter os protestos (estão sugerindo que os manifestantes atiraram em si mesmos?), enquanto políticos como o secretário de Relações Exteriores dos EUA, William Hague, saem com platitudes sobre se opor ao "uso da força".

Mas não há uma condenação clara da comunidade internacional às mudanças políticas produzidas pela força das armas.

Isto ocorre enquanto as manifestações proliferam na Tunísia, depois de vários assassinatos políticos. Fala-se até em um país que já foi conhecido por sua Revolução de Jasmim, quase sem sangue, que hoje desce à barbárie. A morte do líder de oposição secular Mohamed Brahmi, na quinta-feira em Túnis, se segue ao assassinato de seu colega Chokri Belaid no início do ano. Pelo menos uma pessoa foi morta em protestos contra o governo, e uma bomba explodiu em um carro de polícia pouco depois.

A Líbia é o cenário de assassinatos diários, e o governo não é capaz de controlar os bandos armados que disputam poder e influência. Abdelsalam al-Mismari, um importante advogado envolvido na derrubada de Kaddafi, e duas autoridades de segurança foram mortos na sexta-feira em Benghazi, o "berço" da revolução líbia. Mismari havia se tornado um crítico declarado dos atiradores, juntamente com milhares de outros que não veem esperança de democracia enquanto eles efetivamente controlarem as ruas.

Muitos dos que participaram das primeiras reuniões pró-democracia na Síria em 2011 estão entre as mais de 100 mil baixas fatais da guerra civil no país. Outras centenas de milhares foram feridos, presos ou obrigados a fugir. De modo previsível, é o exército sírio bem equipado e altamente motivado, mais que qualquer forma de democracia, que dá ao presidente Bashar al- Assad sua melhor chance de prolongar seu governo.

Essa realidade selvagem faz as aspirações iniciais daqueles que começaram a Primavera Árabe parecerem bastante tênues. Ideais como a igualdade entre classes e sexos, instituições estatais eficientes e justas, a redução da pobreza, a administração da justiça e educação para todos dão em nada quando uma nação não consegue proteger seus cidadãos de seus próprios soldados ou das milícias armadas que assumiram seu lugar.

Em termos de mudança econômica e social, e contra o pano de fundo da violência, há poucas evidências de uma mudança para melhor na vida de milhões de árabes desde as insurreições de 2011. Pelo contrário, as lutas internas entre miríades de grupos de oposição, incluindo secularistas e islâmicos, retardaram as reformas, enquanto problemas sociais endêmicos como os sistemas de transporte perigosos e o analfabetismo generalizado foram ignorados.

A pobreza aumentou de maneira significativa, com 40% da população egípcia ganhando menos que o equivalente a 2 libras esterlinas por dia, o limite de pobreza oficial da ONU. O custo de vida sobe em espiral, juntamente com o desemprego em todos os outros países depois da Primavera Árabe. O número de jovens desempregados se multiplica, particularmente, criando uma vasta classe de pessoas tão revoltadas e ressentidas quanto enérgicas e cheias de recursos.

Foram esses jovens que criaram a Primavera Árabe, usando novas tecnologias de comunicações para manifestar suas queixas. Um dos motivos pelos quais eles tiveram tanto sucesso inicialmente na Tunísia e no Egito foi que seus conterrâneos uniformizados lhes deram ampla liberdade para se manifestar. A decepção popular na forma de demonstrações organizadas foi considerada uma alternativa aceitável a formas de protesto mais radicais, incluindo o terrorismo.

A Primavera Árabe não foi de modo algum um fracasso total, porque permitiu a essas demonstrações florescer em um movimento democrático que colocou os problemas do mundo árabe no cenário global, mas seu progresso hoje está sendo sufocado pelos que só acreditam no governo por ordens diretas.

Uma consequência das revoluções de 2011 foi a ascensão do islamismo como força política organizada. Movimentos como a Irmandade Muçulmana puderam usar vastas redes populares, geralmente baseadas em centros comunitários locais e mesquitas, para mobilizar o apoio eleitoral. Na maioria dos casos, outros partidos não podem sequer competir, mas isso não é motivo para que grupos antidemocráticos como os militares assassinem e prendam seguidores da Irmandade Muçulmana.

Ninguém pretendeu que a Primavera Árabe ofereceria uma solução rápida para os maciços problemas inerentes às sociedades árabes, mas se a força militar continuar sendo o árbitro definitivo de qual governo tem "permissão" para governar, as matanças seguirão incontidas.