Você está aqui: Página Inicial / Internacional / A praga dos bancos

Internacional

Europa

A praga dos bancos

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 24/11/2010 11h00, última modificação 26/11/2010 17h51
Como Portugal, a Irlanda pode perder soberania econômica e sofrer uma versão moderna da Grande Fome causada por um fungo nas batatas nos anos 1840.
A praga dos bancos

Como Portugal, a Irlanda pode perder soberania econômica e sofrer uma versão moderna da Grande Fome causada por um fungo nas batatas nos anos 1840. Por Antonio Luiz. Foto:George Gobet/AFP

Como Portugal, a Irlanda pode perder soberania econômica e sofrer uma versão moderna da Grande Fome causada por um fungo nas batatas nos anos 1840

Antes de entrar na reunião dos ministros das Finanças europeus em Bruxelas, em 16 de novembro, o português Fernando Teixeira dos Santos disse aos jornalistas: “Portugal é diferente da Irlanda”. E sua colega espanhola, Elena Salgado, ressaltou “a Espanha é diferente de Portugal e da Irlanda”.
De fato, as situações das economias fragilizadas da periferia europeia são diferentes. Mas os analistas do mercado estão pouco atentos às dissemelhanças entre os processos que causaram as respectivas dificuldades, como também pouco se importavam com as diferenças entre Indonésia e Coreia do Sul, Brasil e Rússia, ou México e Argentina: querem apenas saber quanto a volatilidade pode lhes render ou custar a curto prazo. E a receita prescrita a todo o paciente, seja qual for seu histórico ou sua doença, é a mesma, sangria. Também conhecida como ajuste fiscal e “austeridade”.
Não que sangrias os sosseguem: os fazem ansiar por mais, como vampiros. A Irlanda, severamente atingida pela crise financeira já em 2008, quando foi obrigada a resgatar os bancos superdimensionados por uma década de euro e desregulamentação que os incentivou a jogar com a crise imobiliária, começou logo a cortar gastos públicos, mas nem por isso recebeu compaixão. Os juros cobrados para renovação de sua dívida, semelhantes aos da Espanha em outubro de 2008, passaram a praticamente igualar Portugal desde abril de 2010 e tornaram-se distintamente piores a partir de meados de outubro. Estão hoje em 8% anuais, o que mais que dobraria o valor do débito em dez anos.
No fim de outubro, quando o economista irlandês Kevin O’Rourke postou em seu blog um pequeno artigo intitulado “O que os mercados querem?”, dezenas de leitores tentaram responder.
Resumo de uma das respostas, sob pseudônimo: “Os mercados querem dinheiro para cocaína e prostitutas. Sério. A maioria das pessoas não percebe que ‘os mercados’ são na realidade recém-formados em administração de 22 a 27 anos, que inventam furiosamente estratégias de compra e venda em planilhas Excel, se reportam a chefes cinco anos mais velhos e, geralmente, têm a mentalidade e inteligência de ginasianos. Um plano orçamentário de quatro anos não vai deixá-los satisfeitos. Daqui a quatro anos estarão fora do negócio ou promovidos a uma posição na qual a Irlanda não lhes importará mais. Em vez de um orçamento apropriado, o que o país pode fazer é subornar as agências de classificação de risco. Pão e circo para as massas, cocaína e prostitutas para o mercado. Por que não explorar o fato de que o sistema é caótico e aético para fazer algum bem ao país em vez de levá-lo à falência num esforço para comprar BMWs novos para solteiros de 25 anos?”
O Nobel de Economia Paul Krugman aprovou: “É o que eu chamo de uma proposta de política – e melhor do que a maior parte do que passa por sabedoria nestes dias”. Com efeito, o suborno funciona melhor. Em 2007, o Goldman Sachs aceitou uma proposta do fundo de hedge Paulson & Co. e para que ambos pudessem lucrar, empurrou a outros clientes – inclusive grandes bancos europeus, como o RBS, ABN Amro e IKB, que tiveram de ser resgatados – papéis destinados à quebra, convencendo-os de que os títulos eram de boa qualidade. As mesmas agências de classificação de risco que em 2006 davam nota AAA – a mais alta possível – a títulos do mercado subprime que não conseguiam realmente entender (93% dos quais tiveram de ser classificados como “lixo” até o início de 2010) também rebaixam dívidas soberanas com base em analogias apressadas e frágeis evidências.
Não é por terem cometido erros de política fiscal (do ponto de vista neoliberal, bem entendido) que Irlanda e Portugal estão à beira de um colapso financeiro e a Espanha pode segui-los a médio prazo. Ao contrário da Grécia, não tinham altos déficits públicos: Irlanda e Espanha apresentavam superávits e Portugal um déficit abaixo do teto de 3% da União Europeia (violou-o por vezes, mas o mesmo fizeram França e Alemanha). Antes da crise, seus riscos eram vistos como menores que o da Itália e pouco maiores do que o da Alemanha.
O problema não foi causado pelo setor público, mas pelo privado. Essas economias foram inicialmente beneficiadas pela adesão ao euro. Com salários e custo de vida inferiores à média europeia, as facilidades criadas pela moeda única atraíram investimentos industriais e em turismo e estimularam exportações e construção civil. Mas com o passar dos anos essa vantagem foi minada pela incorporação à União Europeia de economias da Europa Oriental com salários ainda mais baixos e pelo forte crescimento da produtividade da Alemanha, que neutralizou sua desvantagem inicial.
Devido à moeda única, o desgaste gradual da competitividade não pôde ser compensado por desvalorização cambial. Com a crise de 2008, a reversão de expectativas, a interrupção de investimentos, esses países viram-se ante a súbita necessidade de socorrer simultaneamente bancos quebrados, empresas em apuros e trabalhadores desempregados enquanto a arrecadação despencava. Ficou impossível evitar o crescimento explosivo do déficit.
O número mais assustador vem da Irlanda. O déficit público de 2010, projetado em já preocupantes 11% do PIB em dezembro de 2009, agora é calculado em 32%, e há quem diga que ainda está subestimado. Desse déficit, 20% do PIB é resgate de bancos (e socialização de seus prejuízos à custa do povo) que, incentivados a crescer e se internacionalizar nos anos de prosperidade, foram atingidos em cheio pela crise do mercado hipotecário dos EUA. A dívida, que era 25% do PIB, saltará para 105% até o fim do ano. Mesmo assim, há indícios preocupantes de corrida aos bancos.
O ajuste fiscal foi em 2010 de 3 bilhões de euros e deve chegar a 6 bilhões em 2011, perto de 5% do PIB. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica e Social, o desemprego pode chegar a 7%. Duzentos mil irlandeses (5% da atual população) terão de emigrar até 2015. Faz pensar na Grande Fome que, nos anos 1840, forçou milhões a sair do país. No século XIX, a Irlanda foi vítima da monocultura da batata, cujo súbito colapso foi provocado por um fungo. No século XXI, é vítima da monocultura do setor financeiro e da praga das análises irresponsáveis.
Mas também da praga da ortodoxia. A Islândia igualmente caiu no conto do vigário da desregulamentação financeira e sofreu uma crise igualmente brusca, mas não está presa à camisa de força do câmbio fixo e recusou assumir a dívida de seus bancos (ainda maior em relação ao tamanho de seu PIB) e elegeu um governo de esquerda. Tem sofrido menos em termos de queda do PIB e aumento do desemprego que a Irlanda – embora deixe furiosos os correntistas estrangeiros de seus bancos falidos e os governos do Reino Unido e Holanda, que optaram por reembolsar parte deles.
O caso da Espanha é menos internacionalizado. Está mais ligado ao efeito da crise de seu próprio setor imobiliário sobre os bancos locais. Sendo menores em relação ao tamanho da economia, o problema fiscal imediato é menos grave. O déficit público ficou em 11,2% do PIB, em 2009, e 9,3%, em 2010, mas não ameaça disparar para fora de controle e o salto da dívida foi menos espetacular – de 36% para 64% do PIB. O país continua, porém, com problemas de competitividade e suas leis de insolvências protegem os bancos à custa dos devedores, o que torna mais difícil a recuperação. Se não encontrarem comprador, os bancos podem retomar imóveis hipotecados por 50% do valor. O restante da dívida não se extingue e continua a incorrer em juros de até 18% anuais, resultando em famílias não só despejadas, como endividadas para o resto da vida e incapazes de consumir.
Portugal não teve problemas bancários ou imobiliários na mesma escala, mas o país já estava em déficit (2,8% em 2007) e sua dívida pública era mais alta (63% do PIB em 2007). Com a queda da arrecadação e o aumento dos gastos sociais, o déficit subiu para 9,3% do PIB e a dívida para 83%, até agora. Não são números tão impressionantes, mas ficam insustentáveis se os mercados exigem juros de mais de 7% ao ano para rolar a dívida, como agora. Algo menos que da Irlanda, mas Portugal deve precisar de socorro mais cedo, pela programação de vencimento de suas dívidas. Terá de fazer novas emissões no início de 2011, enquanto a Irlanda pode aguentar até meados do ano.
É o tema do corrente ato do drama europeu, do qual a “tragédia grega” foi só um prólogo. O governo português não tem ou não ousa outra solução para a crise, mas por compreensíveis razões de política interna não quer ir sozinho para o buraco, ou seja, entregar sua soberania à tutela do FMI e da União Europeia. Quer um socorro imediato e simultâneo aos dois países e apresentar o problema como a crise europeia que realmente é, mas a Irlanda reluta em admitir o fracasso de quinze anos de política neoliberal e elevar os impostos baixos que atraíram bancos e transnacionais. Na reunião dos ministros, a UE pressionou a Irlanda a ceder, pois o prolongamento da agonia cria volatilidade para o euro e prejudica todo o continente. Em especial a Espanha, cujas dimensões tornariam um eventual resgate muito mais oneroso, tensionando relações já difíceis até a ruptura.

registrado em: