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A pacífica transição da era nuclear para a solar

por Envolverde — publicado 23/07/2014 02h55
São necessários avanços conceituais enormes para mudar os velhos modelos
Safin Hamed / AFP
Refinaria Kawergosk

Homem armado faz a escolta de uma peça da refinaria Kawergosk, próxima a Erbil, cidade do Iraque hoje controlada por curdos. O petróleo é parte indissociável da geopolítica, mas até quando?

Por Hazel Henderson

A proposta de paz que o presidente japonês da organização budista Soka Gakkai Internacional (SGI), Daisaku Ikeda, realizará este ano levou minha atenção das notícias do dia para preocupações de longo prazo por uma sociedade humana mais pacífica, equitativa e sustentável que assegure nosso futuro comum.

Agora, essas inquietações mais amplas são compartilhadas por milhões de seres humanos que transcenderam os objetivos puramente pessoais, locais e nacionalistas e se converteram em protótipos de cidadãos globais.

Os tropeços de nossas instituições atuais geram crises diárias e conduzem, como sempre, a novos avanços na medida em que os humanos buscam soluções novas. O estresse sempre foi uma ferramenta de evolução, como registraram os 3,8 bilhões de anos de formas de vida em nosso planeta.

Todas as crises atuais são consequência da miopia de nossas antigas inovações tecnológicas e sociais que abordavam os problemas de curto prazo sem prever seus efeitos de longo prazo para todo o sistema.

Dessa forma me interessei na queima dos combustíveis fósseis e nas escavações da terra para buscar nossa energia, o que me levou a aderir à Sociedade Mundial do Futuro nos anos 1960.

Na ocasião liderava a gestão para limpar o ar contaminado da cidade de Nova York, já que vivia perto de uma usina de energia que queimava carvão e lançava fumaça e fuligem no parque onde eu e outras mães vigiávamos nossos filhos pequenos.

Façamos um salto até 2014. Continuo sendo uma futurista de carteirinha e estou no Comitê de Planejamento do Projeto do Milênio, que faz o acompanhamento dos 15 desafios globais de nossa família humana.

Nosso último Informe sobre o Estado do Futuro 2014 indica nossos avanços e tropeços na abordagem desses desafios, que inclui o desenvolvimento sustentável e a mudança climática, a água, a população e os recursos, a democratização, a formulação de políticas de longo prazo, e a globalização da tecnologia da informação.

A lista continua com brecha entre ricos e pobres, a saúde, a capacidade de tomar decisões, a resolução de conflitos, a melhoria da situação das mulheres, o crime organizado transnacional, a energia, a ciência e a tecnologia, e a ética mundial.

Neste Projeto do Milênio participaram pessoas da academia, do governo, da sociedade civil e do setor privado de 50 países.

Ao mesmo tempo, Daisaku Ikeda, líder de 12 milhões de membros da SGI e também meu estimado coautor de Cidadania Planetária, esboça sua proposta anual de paz para 2014, como vem fazendo desde 1983. Ikeda, nascido em 1928, é um dos cidadãos de maior distinção no mundo.

Sua proposta de paz para 2014, A Criação de Valor Para a Mudança Global: A Construção de Sociedades Resistentes e Sustentáveis, envolve questões da Organização das Nações Unidas (ONU).

Assim, transcende os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) para incluir a agenda dos 191 países durante a Cúpula da Terra, conhecida como Rio+20, realizada em 2012 no Brasil e na qual foram traçados os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Os ODS defendem a transição da energia fóssil e nuclear para economias a caminho de serem mais descentralizadas, limpas, verdes e ricas em conhecimentos.

Cheguei a conclusões semelhantes no livro Mapping the Global Transition to the Global Age (Mapa da Transição Global Para a Era Global), de 2014. As tecnologias atuais fazem com que seja factível acabar com os usos humanos dos combustíveis fósseis, do urânio e das usinas e armas de nucleares, com assinalam muitos informes do Green Transition Scoreboard 2014.

A vontade política em muitos países continua refém de interesses especiais, grupos de pressão e do dinheiro desses setores e seus perversos subsídios. Movimentos civis de todo o mundo pressionam os fundos de pensões e as fundações universitárias para que “desinvistam” nos setores fossilizados e mudem para investimentos mais limpos, ecológicos e sustentáveis.

Experientes especialistas financeiros, com Jeremy Grantham e Robert A. G. Monks, engrossaram o coro desses críticos, junto aos gestores de ativos que oferecem carteiras “sem fósseis”, que frequentemente superam o rendimento dos ativos mais sujos.

Enquanto os Estados Unidos e a Europa fecham suas usinas de energia nuclear devido às alternativas de energia solar e eólica mais econômicas, ainda se prevê a construção de muitas na Ásia, inclusive na China, que é a líder mundial em energia solar.

São necessários avanços conceituais enormes para mudar os velhos modelos e a cegueira induzida pela teoria. Um deles é a proposta da Via Solar Para o Irã, que a Fundação Planck desenvolve com rapidez para que Teerã acabe com a discussão política sobre seu direito de desenvolver energia nuclear com fins civis.

Essa proposta deixaria de lado as sanções, as preocupações de Israel por outro Estado com armas nucleares no Oriente Médio e “eletrificaria” a próxima conferência da ONU sobre o Tratado de Não Proliferação Nuclear.

O plano da Fundação Planck implica uma mudança de paradigma. O Irã poderia acelerar sua transição dos combustíveis nucleares e fósseis de forma imediata, com a compra de pacotes de ações de empresas de energia solar da China, para depois adquirir tanta quantidade de seus painéis solares quanto lhe fosse possível.

Esta é uma alternativa muito mais barata do que a construção de reatores nucleares ou usinas de energia à base de combustíveis fósseis.

As abundantes reservas de petróleo iraniano ficaram debaixo da terra como um valioso insumo industrial em lugar de queimá-las, um plano que eu propus no programa de televisão Today Show, da rede norte americana NBC. Em 1965!

O plano Via Solar Para o Irã exigiria a ampliação dos serviços ferroviários na rota da seda para a China, a fertilização de terras desérticas com flora de água salgada, como ocorre com seu plano DesertCorp, de expandir a agricultura com base na água do mar em regiões desérticas.

Os tropeços de hoje estão gerando novos planos sistêmicos e avanços propostos há anos por cidadãos futuristas e planetários. Esses planos para nosso futuro em comum e as economias verdes estão cobertos pela Ethical Markets Media nos Estados Unidos e no Brasil, mas não aparecem com frequência nos principais meios de comunicação.

Envolverde/IPS