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Mundo Árabe

A mais cínica das guerras

por Gianni Carta publicado 24/02/2013 09h53, última modificação 06/06/2015 17h37
Enquanto Assad massacra seu povo, integristas financiados pelo Golfo com o aval dos EUA formam jihadistas

De Sousse, Tunísia

Foi na tevê síria que Kamel ben Halima e Mokhtar Hedhili viram os dois filhos pela primeira vez em 29 de março de 2012, 40 dias depois de terem deixado Sousse, cidade mediterrânea 143 quilômetros ao sudeste da capital, Túnis. Wissem ben Halima e Oussama Hedhili, de 20 e 23 anos, estavam entre os 19 tunisianos dos 26 árabes de outras nacionalidades – líbios, palestinos e jordanianos – detidos em Damasco pelo exército do ditador Bashar al-Assad. À época, Bashar al-Jaâfari, embaixador da Síria na ONU, informou o Conselho de Segurança que vários dos presos, todos a integrar o Exército Livre da Síria (ELS), haviam admitido passar para a Al-Qaeda. Outros 12 rebeldes haviam sido mortos pelas forças de Assad, segundo o embaixador.

“Foi horrível”, diz Mokhtar Hedhili, homem robusto de bigode branco que, aos 53 anos, se diz aposentado. “Oussama pronunciou algumas palavras memorizadas. Lavaram seu cérebro.” Garante o pai: “Meu filho não tinha intenção de lutar pelo ELS, nem para nenhum movimento radical islamita”. Oussama estudava informática na Universidade de Sousse, queria passar um tempo na Líbia, “onde tinha um contrato em uma empresa petrolífera”. Assim como Kamel ben Halima, comerciante de 48 anos, defende o filho: “Wissem me disse que tinha arrumado um emprego na Líbia. Achei que ele queria ganhar a vida sem a ajuda do pai. Meu filho era incapaz de degolar uma galinha”.

 

 

Wissem, Oussama e o terceiro jovem de Sousse também detido na capital síria, cujo pai está demasiado deprimido para falar com a imprensa, não se conheciam. Os perfis do trio são semelhantes. Tímidos, apolíticos, fazem musculação e são muçulmanos praticantes – “mas moderados”. Segundo os pais dos detidos, existe uma rede na Tunísia e em outros países a recrutar jovens para lutar em áreas de conflito como, por exemplo, Mali, Argélia, Síria. No entanto, esses homens prometem emprego e não lhes dizem que, na verdade, vão integrar forças de luta armada. A trajetória é sempre a mesma. Os jovens são levados para a Líbia, onde descobrem que são vítimas. Sem mais opções, veem-se forçados a aceitar treinamento para lutar.

Trata-se, alegam Ben Halima e Hedhili, de um elaborado tráfico humano. Os jovens mal treinados são transportados clandestinamente pela Turquia à Síria. De fato, um fotógrafo tunisiano testemunhou ao website francês Mediapart que há uma conhecida agência de viagens a recrutar esses jovens em Túnis. E emenda: “Vi um tunisiano que acabava de chegar ao terreno de batalha tentando manipular uma metralhadora soviética antiaérea”. Para o fotógrafo, os insurgentes sírios enviam esses tunisianos à morte, e seus cadáveres são queimados para Assad não ter provas de que há mercenários no ELS. Há também recrutas oriundos da Arábia Saudita e de outros países do Golfo Pérsico, mas esses são “bem tratados” pelos insurgentes, porque seus países financiam a luta contra os alauítas, braço do Islã xiita, no poder.

Integristas hoje incorporam o ELS. Alguns dos rebeldes negam, mas outros dizem que movimentos como o Jabhat al-Nusra, ligado à Al-Qaeda do Iraque – e financiado pela Arábia Saudita –, é bem-vindo, porque suas tropas são mais experientes e mais bem armadas do que as do ELS. Além de estarem sempre nas linhas de frente, há entre esses combatentes numerosos homens-bomba, os primeiros nessa guerra civil de dois anos que já deixou 70 mil mortos, segundo a ONU.

Basta fazer uma busca no YouTube para ver as bandeiras negras do Al-Nusra ovacionadas pelos rebeldes em Alepo,  cidade conquistada pelos insurgentes na Síria. Os barbudos do Al-Nusra, diga-se, conquistam bases militares e neste mês de fevereiro capturaram Al-Shaddada, a nordeste, que tem a maior produção de petróleo da nação. E há outros grupos integristas interessados em implementar, por meio da Guerra Santa (Jihad) a sharia (o código de leis islâmicas) na Síria. O Exército Sahaba do Levante e a Brigada Tawhid e Jihad são exemplos. E vale citar ainda os oportunistas, que deixam crescer as barbas e envergam túnicas para receber ajuda financeira da Arábia Saudita e do Catar, aquele país que pretende melhorar sua imagem comprando times de futebol na Europa.

 

 

Indago Ben Halima, agora em um restaurante de Sousse, se ele não considera a hipótese de o filho ter ido lutar pelo Exército Sírio Livre. “Não, ele é um jovem tímido. Sim, é forte, mas não é de briga.” Ben Halima dá mais um gole de Coca-Cola e acrescenta: “Mas é verdade que eu não lhe fazia muitas perguntas, talvez esse tenha sido meu erro”. Diz que sua mulher está muito mal, ela nem sequer sai de casa. Outro dia ele sonhou que o filho estava livre e estavam abraçados. Acordou, o sonho parecia tão real que Ben Halima deu uma cabeçada na parede. A filha mais velha (ele tem quatro filhas, além do filho detido) conversou com ele até a madrugada.

Ben Halima tentou de tudo para libertar seu filho. Foi ao Ministério do Exterior, mas lhe disseram que não poderiam fazer nada porque romperam com o regime de Assad. Escreveu uma carta de perdão para Assad pedindo-lhe para soltar seu filho. Assad, ou outra pessoa, respondeu que “quando a situação se acalmar, talvez o envie de volta”.

Ben Halima teme um telefonema anônimo. Uma voz anuncia: “Seu filho morreu como um mártir”. Foi o que aconteceu com a mãe de Mauroy, um tunisiano de 25 anos, morto na Síria. A tevê France 24 mostrou imagens da mãe, de véu, que não pensa como Ben Halima. Ela disse: “Estou contente, tenho orgulho de meu filho. Os homens que o levaram prometeram o Paraíso para toda a família. Se tivesse outro filho o mandaria para a Síria”.

A France 24 mostra em seguida um imã, da Universidade de Túnis. Ele diz: “Um inimigo que combate com armas e a violência, que viola mulheres, mata crianças, esses homens têm de ser combatidos com armas. E toda a nação islâmica tem de se reunir como um só homem para combatê-los”. Em outro programa, Mokhtar Mars, professor com a barba de simpatizantes islamitas, recebeu um telefonema anônimo sobre a morte de seu irmão, o mártir Houssein, de 34 anos. Diz Mokhtar: “A Jihad é mais evidente contra norte-americanos no Afeganistão ou no Iraque, mas na Síria estamos enviando muçulmanos para matar muçulmanos”.

Como disse recentemente a CartaCapital Malek Chebel, o historiador de Islã mais lido em língua francesa: “Um muçulmano não pode matar um muçulmano”. Na Síria, Assad diz que combate um exército de mercenários estrangeiros. Por sua vez, os muçulmanos sunitas lutam contra Assad, porque ele pertence a uma minoria, a alauíta, e, portanto, a uma seita. Assad começou a matança, e, como seu país era despolitizado os integristas começaram a se infiltrar na oposição. Enquanto isso, as monarquias do Golfo financiam os integristas com o apoio frequente de Washington. Quanto mais durar essa guerra maiores as chances de a sharia ter vez na Síria.

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