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Itália

'A máfia ganhou força ao se aliar à política'

por Gabriel Bonis publicado 29/11/2011 15h52, última modificação 29/11/2011 15h52
Em visita ao Brasil, Alessandra Dino, especialista em máfias, afirma a CartaCapital que mafiosos estão no poder e as mulher ocupam papel de destaque nas organizações criminosas
Salvatore Riina

Salvatore Riina, capo da Cosa Nostra, está preso há quase 20 anos. Foto: Giulio Broglio/AP

O traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, tem garantido por lei o direito de cadastrar até cinco mulheres em sua lista de visitas íntimas. Receber o número máximo de companheiras depende, porém, das regras do presídio no qual o detento está encarcerado, neste caso, a Penitenciária Federal de Mossoró (RN). A quantidade de encontros, contudo, não é a principal discussão, pois suspeita-se que o benefício seja utilizado pelo detento para manter o comando de sua facção criminosa no Rio de Janeiro, mais de dois mil quilômetros distante da carceragem.

Na Itália, o artigo 41 bis da lei penitenciária eliminou o poder de alguns dos mais conhecidos e importantes mafiosos, entre eles Salvatore Riina, capo da Cosa Nostra [organização criminosa italiana que atua na Sicília], detido há quase 20 anos. Com direito a apenas três visitas gravadas e supervisionadas por mês e nenhum contato físico, os mafiosos estão isolados das ruas que um dia comandaram. “Antes, ser preso para um mafioso era quase um elemento de honra, porque continuavam chefes. Hoje a comunicação é interrompida, criando problemas na gestão criminal”, explica Alessandra Dino, especialista em máfia e professora da Universidade de Palermo, em entrevista exclusiva a CartaCapital em um hotel de São Paulo, onde realizou palestras sobre o tema.

Walter Maierovitch, jurista e colunista de CartaCapital, e também um dos responsáveis pela presença de Dino no País, defende que o Brasil siga o mesmo caminho da Itália para anular os chefões do crime organizado. “A Corte Europeia de Direitos Humanos de Estrasburgo afirma ser justificável diminuir os direitos de um indivíduo que atenta contra o Estado, até que ele corte seus vínculos com o crime.”

No Brasil, Dino, autora de Novas Tendências da Criminalidade Transnacional – em parceria com Maierovitch - (Unesp, 318 págs., R$ 45,00) e La Mafia Devota: Chiesa, Religione, Cosa Nostra (Editori Laterza, 304 págs, 16 euros), falou sobre a importância da mulher na máfia, a infiltração dos mafiosos na máquina política e como as organizações criminosas italianas cuidam da sua publicidade e gostam de mostrar força “dinamitando” juízes que lutam para encarcerar seus líderes.

Veja a íntegra da conversa abaixo:


CartaCapital
: Qual o papel da mulher na máfia? Ela vem subindo na hierarquia das organizações ou sempre ocupou papeis de destaque?

Alessandra Dino: Ela sempre foi fundamental na organização, mas por muito tempo foi um papel subestimado. Isto é, as mulheres eram presentes com um papel importante na organização criminosa, mas não eram visíveis porque convinha aos mafiosos. Desta forma, eles confiavam às suas mulheres os papeis mais importantes, como a assistência aos fugitivos, a transferência de mensagens ou recebimento do pizzo (imposto, taxa, propina) sem estar sob o controle da magistratura. Por que isso tudo aconteceu? Fizemos um estudo analisando as sentenças relativas às mulheres de máfia e observamos que mesmo nos casos em que as mulheres eram culpadas de alguns crimes, estes crimes eram rebaixados a crime de cumplicidade que, de acordo com o artigo 384 do código de direito penal italiano, não é punível. Essas mulheres, portanto, entravam nas estatísticas judiciárias e saiam por se pensar que eram obrigadas a apoiar a organização criminosa. Essa tendência em relação às condenações inverteu-se quando a atitude da própria magistratura mudou, graças também aos estudos realizados sobre a mulher na máfia que mostraram o importante papel feminino. Em 1989, havia apenas uma mulher denunciada pelo artigo 416 bis. Em 1995, passam para 87, e os números continuam subindo.
CC: Mas elas ocupam funções de primeiro plano?

AD: Elas sempre tiveram papel importante em dois níveis: em relação à estrutura familiar, pois mantêm unida essa estrutura e ensinam os filhos a cultura mafiosa. E também atuam nos tráficos das organizações. Dificilmente ocupam posições de primeiro plano, mas se observarmos a sociedade em conjunto, a organização criminosa não é diferente. Na sociedade as mulheres também não ocupam papéis de poder visíveis muito difundidos, mas aconteceu na Cosa Nostra. Quando os irmãos Vito e Leonardo Vitale foram presos, a sua irmã Giusi Vitale se tornou o “capo mandamento”, uma função importantíssima dentro da organização. Naturalmente, como a Cosa Nostra não é algo que esta totalmente fora da sociedade, conforme os papeis femininos mudam na sociedade mais ampla, muda também o papel da mulher na organização criminosa. Portanto, hoje temos mais mulheres inseridas, sobretudo nos negócios econômicos da máfia. As mulheres são captadas por suas competências profissionais. Há um último elemento que não se modificou ao menos em relação à Cosa Nostra: não é possível a filiação formal, ou seja, não existem mulheres formalmente filiadas dentro das organizações. Isso existe na Ndrangheta [organização criminosa italiana que atua na Calábria], não uma filiação formal, mas uma espécie de cargo honorário dado a estas mulheres, as “irmãs do silêncio”. Na região da Lombardia vive uma mulher chamada Maria Morello, que se ocupa das atividades financeiras de uma família da Ndrangheta calabresa. Ela chegou a se tornar “santista”, um nível muito elevado na organização, no qual a Ndrangheta se une à maçonaria.

CC: Como a mídia reflete a mulher na máfia?

AD: Os meios de comunicação de massa muitas vezes apresentam uma imagem da máfia siciliana estereotipada e irreal, mais ligada ao que os mafiosos contam de si mesmos e ao que o público espera. Existe uma grande diferença entre a máfia norte-americana, isto é, siculo americana, e a máfia siciliana como vimos nos estudos do papel das mulheres nas máfias italianas. A Ndrangheta é diferente da Cosa Nostra, da Camorra [organização criminosa italiana com atuação em Campania, cuja capital é Nápoles], da Sacra Corona Unita [máfia que atua em Puglia]. Na Cosa Nostra, em particular, o papel feminino é pouco visível, porque a organização não ostenta o seu poder e riqueza como a Camorra, mas tende a manter o poder invisível. Esta é a manifestação do verdadeiro poder, o que não se vê e não deve aparecer, mas age. Portanto, dificilmente se faz emergir o papel feminino, mesmo porque há esta ideia, sobretudo em nível das classes sociais menos favorecidas, da organização feita apenas de homens. Logo, eles fazem questão de não trazer à tona a imagem forte da figura feminina. É como se fosse um jogo entre o ser e o parecer. O papel feminino não deve nunca aparecer porque a mulher é associada à submissão, mas vimos quanto é importante o seu papel, inclusive para a existência da organização criminal. Nos períodos de dificuldade, a Cosa Nostra recorre às mulheres, por exemplo. Em 1995, registrou-se o pico dos colaboradores de Justiça, tratou-se de uma verdadeira emergência de mafiosos arrependidos. Por isso, a Cosa Nostra confiou às mulheres sua estratégia de comunicação.

CC: Como isso refletiu no poder feminino dentro da organização? 

AD: De um momento para outro, as mulheres antes invisíveis passaram a escrever e a telefonar para as agencias de noticias, jornais e televisões. Faziam declarações contra os colaboradores da Justiça, apontando-os como infames e desconhecidos por elas. Assumiram visibilidade, demonstraram conhecer e estar dentro da organização. Além disso, mesmo do ponto de vista judiciário, é errado pensar que as mulheres não tenham estado dentro da organização criminosa. Encontramos uma sentença de 1904, na qual se fala de um clã calabrês, de uma mulher interna à organização. E no processo relativo às máfias de Madonie, cadeia montanhosa da Sicilia, entre os acusados há sete mulheres. As mulheres são importantíssimas no momento da colaboração, na decisão dos homens em colaborar com a Justiça, no bem e no mal. Há muitos casos de mulheres que impediram seus familiares de ajudar a Justiça e vice-versa.

CC: As mulheres também ajudam os mafiosos a sair da organização criminosa?

AD: A saída para um mafioso do mundo de Cosa Nostra é uma fase delicada, porque significa perder poder, dinheiro e respeito. Significa aprender do zero a construir uma nova identidade e para muitos colaboradores da Justiça a presença da família, de uma mulher ao seu lado é fundamental. Giuseppe Marchese, que não tem família, mulher ou ninguém para acompanhá-lo, lamenta-se da grande dificuldade de fazer tudo sozinho. Por outro lado, Vincenzo Buffo desistiu de colaborar com a Justiça e voltou a ser um mafioso por pressão da mulher. Encontrei algumas das mulheres de colaboradores da Justiça, um passo de grande dificuldade também para elas que enfrentam a pressão da família e maridos. Quando eles não colaboram com a Justiça, dificilmente essas mulheres recebem apoio do Estado para recomeçar uma vida normal. Na Calábria, ocorreu algo triste nos últimos meses. Três mulheres decidiram ajudar a Justiça e entraram para o serviço de proteção, mas abandonaram o serviço sob a pressão da família e se suicidaram bebendo ácido. É muito estranho o modo como decidiram morrer, pois o ácido tem um significado muito preciso na simbologia mafiosa. Com ele, matam-se os infames sem deixar rastros. Uma das mulheres deixou uma carta em que diz: “É como se houvesse um roteiro, um papel que devo representar. Portanto, volto para casa e faço o que me pediram para fazer”. Isto mostra o quão difícil é para as mulheres, quando talvez nem sejam ligadas ao tráfico, mas carregam o peso da família, dos filhos, da reinserção social. Mostra como falta a assistência do Estado italiano, porque a lei dos colaboradores de Justiça mudou de modo restritivo em 2001. Desde então, o número de colaboradores tem diminuído e os fundos destinados a estes são sempre menores, portanto a assistência fica cada vez mais difícil.

CC: De que forma as leis italianas impedem que os mafiosos presos mantenham o controle sobre a organização?

AD: O artigo 41 bis da legislação penitenciária italiana representa para a máfia um grande problema. Verificamos por meio de interceptações telefônicas da casa de Giuseppe Guttadauro, capo de Brancaccio, um dos mandamentos mais fortes da cidade de Palermo, e médico de um dos hospitais mais importantes de Palermo. De acordo com os grampos, ele recebia mafiosos em sua casa pela manhã, à tarde políticos, com os quais falava da necessidade de se fazer algo contra o 41 bis, instrumento que isolava os chefes mafiosos da comunicação com o mundo exterior. Na Cosa Nostra, um chefão não pode ser substituído enquanto vivo, a não ser que renuncie. Portanto, Salvatore Riina, embora esteja na cadeia, permanece o capo. O fato de estar preso e incomunicável representa um grande dano para sua organização criminosa, porque o regime 41 bis impede os encontros íntimos e limita os demais a três vezes por mês, mas sempre sob vigilância. A possibilidade de trocar mensagens e levar ao externo as ordens do chefão são muito reduzidas, praticamente impossíveis. Antes, ser preso para os mafiosos era quase um elemento de honra, porque de lá continuavam chefes e mandando mensagens. O regime de detenção especial interrompe, porém, a comunicação com o mundo externo e cria uma fratura. Os que estão de fora não possuem mais uma referência e não podem eleger outro chefe, dificultando a gestão da organização criminal.

CC: O que diz a Corte Europeia de Direitos Humanos de Estrasburgo sobre o isolamento destes presos?

AD: Este é um tema muito particular. O próprio Guttadauro, Bagarella e outros associados à organização criminosa que estão detidos escreveram uma carta à Corte Européia de Direitos Humanos de Estrasburgo para dizer que suas condições de vida são desumanas e chamaram a Corte a opinar sobre o regime 41 bis. O interessante é que também na Itália eles escreveram também ao Partido Radical, tradicionalmente garantista, para denunciar as mesmas supostas condições desumanas em que vivem. Isto tudo é uma estratégia. Nas interceptações mencionadas acima, ele diz querer chamar um jornalista e um político, que não devem saber de nada (diz os nomes: Giuliano Ferrara e Rocco Buttiglione) para visitarem a prisão na Sicília e escreverem um artigo sobre o que veriam. Este é um argumento de força para a máfia tentar eliminar o 41 bis. Outra estratégia foi usada em 2000, durante o Jubileu da Igrejas. Os presos escreveram ao papa João Paulo II pedindo uma intervenção dele a fim de tornar mais humanas as condições de detenção do 41 bis. Mas isto se bloqueia porque os próprios percebem quais poderiam ser as consequências de uma ação capaz de modificar o 41 bis. A Corte de Estrasburgo convidou a Itália a tornar mais humanas as condições em seus presídios, que sofrem de superlotação e estruturas antigas, por exemplo, mas não creio que tenham se pronunciado especificamente sobre o 41 bis.

CC: Apesar de o Estado italiano promover uma luta contra a máfia por décadas, ela ainda é responsável por 7% do PIB do país, segundo estudos. As ações da magistratura resultaram em desgaste nestas organizações criminosas, ou elas encontraram formas alternativas de sobreviver?

AD: Houve sucessos da magistratura na luta contra a máfia, seja com prisões, sequestro de bens, ou captura de fugitivos. É injusto não reconhecer os sucessos da luta contra a máfia. A máfia violenta, ligada a chefões como Toto Riina e Bernardo Provenzano, tornou-se menos forte. Essas organizações, que têm como características particulares o controle territorial e a forte relação com a política, se transformaram e diversificaram suas atividades, inserindo-se cada vez mais no mundo das profissões. A máfia está mais fraca porque não precisa usar a violência para atingir seus objetivos, mas por outro lado tornou-se mais forte aos estreitar a aliança com a criminalidade econômica e com os poderosos. Neste cenário, onde se ampliou a chamada área cinza, há cumplicidade entre os colarinhos brancos e membros da organização criminosa. O controle da organização se estendeu a outros setores, como a administração pública, as concorrências públicas, ao ciclo da energia renovável, a gestão do lixo. E foi se diversificando cada vez mais. Se de um lado a máfia precisa usar menos violência, por meio da corrupção e da relação com os poderosos consegue um faturamento elevado que incide fortemente no PIB do país.

CC: Alguns juízes que enfrentaram a máfia acabaram sendo “dinamitados”. Esse é um método mais fácil de furar o forte esquema de segurança destas autoridades, ou é apenas uma forma de mostrar o poder da máfia?

AD: Não é um método usual utilizar explosivos e fazer um juiz voar pelos ares, não está no DNA e no modo de agir da máfia. Quando isto aconteceu, sobretudo em 1992 no caso de Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, a suspeita – que vai além de uma suspeita – é que por trás destes homicídios haja outros indivíduos fora da máfia. Vimos que o tipo de explosivo usado nos dois homicídios é de uso de alguns exércitos estrangeiros, algo de difícil acesso. O fato de a máfia ter utilizado este tipo de explosivo, junto a uma série de outros indícios, nos faz entender que por trás destes homicídios não há somente a Cosa Nostra. No caso especifico do homicídio de Giovanni Falcone, colaboradores da Justiça contaram que havia outro plano para matá-lo em Roma. Tinham inclusive começado a segui-lo, mas houve uma ordem para parar. Disseram que seria melhor mudar o modo de eliminá-lo, era preciso algo espetacular para mostrar a potência e os interesses em jogo. O uso destas técnicas demonstra o nível elevado do choque com o sistema politico e é um sinal de que a Cosa Nostra conta com aparatos desviados do Estado e outros indivíduos fora da organização criminosa.

CC: Como a máfia se insere na estrutura política? Isso ainda é comum nos dias de hoje?

AD: Absolutamente. É uma das características e um dos elementos de força da organização criminosa. Primeiro seu enraizamento no território, sua capacidade de controla-lo e depois a troca de favores com o mundo da política. Temos, no caso de Palermo entre os anos 50 até os anos 70 um acordo político entre Ciancimino, Riina e Provenzano, que tinham nas mãos as concorrências, aquisições e o controle de toda a cidade. A infiltração da máfia na política é um fato normal e não se resume apenas a Giulio Andreotti, sete vezes primeiro-ministro da Itália e que manteve contatos repetidos com a Cosa Nostra.

CC: Falamos em como a mídia apresenta a máfia. A máfia se preocupa com sua imagem?

AD: Para o mafioso sua imagem pública é importantíssima. Por muito tempo esse papel central foi ignorado. O fato de a máfia ser secreta não significa que ela não quer sua própria promoção. Pelo contrario.  A máfia deve estar presente em todo o território, todos devem saber que ela é forte, e, portanto, seu poder é determinante. Isso não é de hoje. A máfia sempre trabalhou sua imagem pública. Sempre quis construir uma imagem de justiceira, que ajuda os mais frágeis da sociedade. Fez e faz isso para ter credibilidade perante o povo.

CC: E assim criou-se um modo de agir...

AD: A máfia tornou-se um instrumento de poder para entrar no mercado do crime. E, vale repetir, sempre trabalhou sua imagem. Por exemplo, quando entrou em cartaz o filme O Poderoso Chefão os mafiosos, incluindo os norte-americanos, ficaram muito felizes com sua própria imagem no filme. Sim, porque o filme mostra uma máfia que defende valores da família, do respeito, enfim valores que não defende a sociedade corrompida norte-americana. Filmes e livros que tecem essa imagem apologética da máfia tornaram-se um instrumento importantíssimo para a máfia. É como se todos os mafiosos devessem assistir a esses filmes para aprenderem a se comportar. Ou seja, esses filmes e livros tornaram-se fundamentais para a construção da própria identidade.

CC: Como a globalização afetou a máfia?

AD: Na verdade, essa noção de autopromoção sempre existiu porque a máfia nasceu com uma vocação internacional. Tem sido assim com a máfia siciliana, a máfia norte-americana, etc. Isso porque foi graças à máfia, à Cosa Nostra, que foi possível o ingresso de imigrantes sicilianos no mundo de trabalho norte-americano. Com a globalização e o uso de instrumentos informáticos a dimensão internacional tornou-se ainda mais importante. Dito de outra forma, as máfias sabem que para permanecer no mercado do crime devem diversificar-se, devem ampliar-se, devem forjar maiores redes de contatos mundo afora. A globalização, em outras palavras, mudou a estrutura da organização criminosa. Antes a máfia era uma organização hierarquizada, com suas regras. Hoje, existe um sistema mais horizontal. Dentro desses sistemas criminosos não há sempre uma organização mais forte. Por exemplo, se a Camorra tiver aderentes no Brasil para o trafico de drogas então entram em ação pessoas com maiores contatos aqui. Além de ter uma estrutura mais flexível, os nomes nas organizações criminosas com as quais a máfia lida mudam dependendo das conveniências da máfia e das organizações. E mesmo dentro de organizações como a Cosa Nostra mudou a maneira de gerir os diferentes negócios criminosos. Se antes havia um capo, aquele que administrava tudo, hoje há uma diversificação e até uma terceirização para lidar com diferentes organizações em diferentes áreas.

CC: Para fazer negócios na Itália, o empresário precisa do aval da máfia?

AD: Não é bem assim. Há casos e casos. É sempre muito difícil explicar como funcionam essas coisas, sobretudo do ponto de vista de empresários. Há as vítimas, os coniventes, aqueles que têm elos com a máfia. Estes últimos vivem numa área cinza. Fazem sociedades com a máfia, e assim ajudam os mafiosos a reciclarem seu dinheiro. E temos de levar em consideração que há meios para se evitar a máfia. Por exemplo, a Confindustria, associação de industriais, tomou a defesa dos empreendedores. Isso levou vários deles a denunciar os mafiosos.

*Colaborou Gianni Carta

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