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Gianni Carta

A lógica sectária na Síria

por Gianni Carta publicado 07/08/2012 07h13, última modificação 06/06/2015 18h19
Deserção do premier revela como ex-aliados sunitas de Assad aderem à oposição num conflito global
Hijab_Siria

Riad Hijab ocupava a pasta do ministério da Agricultura antes de ser nomeado primeiro-ministro, em junho de 2012. Foto: ©AFP/Arquivo / Louai Beshara

 

A deserção do primeiro-ministro sírio Riad Hijab no domingo é bastante significativa porque, como todos os que o precederam, sua confissão é sunita. Dezenas de militares, integrantes dos serviços de inteligência, diplomatas e políticos a desertar são sunitas.

A cúpula do presidente Bashar al-Assad está prestes a implodir. É questão de semanas, meses.

Em troca de cargos e regalias, quatro décadas atrás a elite sunita aceitou integrar um governo dominado pelo pai de Assad, Hafez. A família dirigente é alauíta xiita, confissão a representar apenas 10% da população do país.

Até o início da guerra civil, 17 meses atrás, essas divisões religiosas não pareciam ser um problema na Síria. No entanto, pouco a pouco, a guerra civil revelou-se sectária – e não diferente daquela entre sérvios ortodoxos e bósnios muçulmanos, no inicio da década de 1990.

Ocorre que sunitas privilegiados da elite, como o premier Hijab, se deram conta do seguinte: as armas pesadas de Assad miram sunitas como eles. Segundo o porta-voz de Hijab, o ex-premier tomou sua decisão pelos “crimes de guerra e pelo genocídio” cometido pelo regime de Assad.

Hijab, vale recapitular, foi nomeado apenas dois meses atrás. Ao assumir o cargo de premier, ele não havia percebido a chacina de sunitas por parte do regime de Assad?

Na verdade, Hijab realizou que Assad tem seus dias contados, e, por isso, desertou, ou, como diz o governo sírio, foi destituído.

Assad, seus seguidores, bem como Hijab e desertores, e não deixemos de lado facções dos sunitas rebeldes, são todos uns cínicos aos quais interessa apenas o poder. Para piorar o quadro geopolítico global, estão no epicentro de uma região onde potências lutam pelas suas esferas de influência.

Não surpreende o fato de Hijab ter buscado refúgio na Jordânia para, em seguida, rumar para Catar, destino preferido de vários desertores sunitas. Catar, uma minúscula monarquia em fina sintonia com a poderosa Arábia Saudita, berço do wahhabismo e inseparável parceira de Washington, promove e financia movimentos fundamentalistas em todo o mundo árabe, inclusive na Síria.

A Arábia Saudita, Catar e a Turquia, com a benção dos Estados Unidos e da União Europeia, querem o controle da Síria sob uma liderança sunita.

Por sua vez, Irã e Iraque, onde predominam xiitas, preferem manter Assad no poder. Da mesma forma, a Rússia e a China veem a Síria como sua última esfera de influência no Levante.

Certo é que a Arábia Saudita não quer uma saída pacífica para a crise. E nem o regime de Assad. Como vimos, Kofi Annan, mediador da Onu e da Liga Árabe, abandonou sua missão diplomática de paz.

Enquanto isso, o genocídio, ou tentativa de limpeza étnica, à imagem da Bósnia, continua. Mas desta feita o cenário é pior: poderá se transformar num conflito global.