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Londres

A Justiça seletiva da rainha

por Gianni Carta publicado 26/09/2008 23h06, última modificação 25/10/2011 13h40
Três anos após a morte do eletricista, nada foi concluído

 Três anos após a morte do eletricista, nada foi concluído
O novo inquérito sobre o caso do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto em julho de 2005, por dois agentes da Scotland Yard, em um vagão de metrô em Londres, revela a lerdeza e a ineficácia do sistema judiciário britânico. Três vagarosos anos após o eletricista mineiro de 27 anos ter sido baleado à queima-roupa no rosto, ao ser confundido com um terrorista, o inquérito, desta feita público, visa simplesmente concluir o seguinte: A morte foi “legal” ou “ilegal”? 

O júri popular, formado por seis mulheres e cinco homens, não poderá culpar sequer uma alma envolvida na trágica operação da Polícia Metropolitana naquele fatídico 22 de julho. Mas o esperado veredicto negativo para sir Ian Blair, comissário da Scotland Yard de 55 anos, certamente fará cabeças rolarem. Cerca de 75 testemunhas, das quais 49 oficiais de polícia, serão ouvidas. O veredicto sai nos próximos três meses. 

O quadro poderá piorar a imagem da já combalida Scotland Yard se o caso for levado à Corte Européia de Direitos Humanos. Essa era a intenção da advogada da família de Jean Charles, Harriet Wistrich, em novembro passado. Na época, CartaCapital procurou Wistrich após a publicação do relatório da Comissão Independente e de Queixas Contra a Polícia (IPCC), concluído dois anos depois da morte de Jean Charles. 

Segundo a IPCC, a execução do brasileiro revelou uma operação recheada de falhas “bastante graves” que “poderiam e deveriam ser evitadas”. Estabeleceu-se então que a operação Kratos (“atirar para matar” suspeitos), adotada na seqüência dos dois atentados naquele mês de julho, deveria ser submetida a um debate público. 

No atual inquérito, os dois policiais que cravaram sete balas na cabeça de Jean Charles, C2 e C12, serão questionados na Corte. A família do imigrante morto poderá vê-los durante o julgamento pela primeira vez. 

Os eventos ocorridos nos 33 minutos entre o momento em que Jean Charles deixou seu apartamento e chegou ao vagão de trem serão examinados. O magistrado sir Michael Wright explicou aos integrantes do júri que em 22 de julho de 2005, um dia após um segundo atentado em Londres, Jean Charles, confundido com o terrorista etíope Osman, tomou dois ônibus até Stockwell. A caterva de erros teve início no momento em que ele saiu de casa. 

Frank, o agente que reportou seus movimentos, estava, aparentemente, urinando numa garrafa – e não pôde identificar o suspeito. Outro agente, na estação de ônibus, James, anunciou: o suspeito seria “possivelmente idêntico a Osman”. Detalhe: o brasileiro era branco, Osman é negro. 

Para Cressida Dick, comandante da operação, promovida a vice-comissária da polícia londrina por Blair, Jean Charles era Osman. Nos ônibus, estava outro agente, Ivor. Este não obteve autorização para prender o alvo, visto que uma equipe especial de atiradores estava a caminho para fazê-lo. Um certo Ralph avisou os agentes a caminho para não deixar o brasileiro entrar no metrô. “Ele é certamente nosso homem”, disse. 

Ivor seguiu Jean Charles até o vagão, onde chegaria a equipe especial. Quando os cinco policiais entraram no vagão, ele teria se levantado, mas Ivor forçou-o a sentar-se, e C2 e C12 dispararam. Motivo: Jean Charles poderia detonar a bomba. 

Estranhamente, as eficazes câmeras que imortalizam cada passo dos súditos – e não súditos – no reinado britânico falharam nos ônibus e na estação de Stockwell, naquele dia 22 de julho. As câmeras do vagão onde o brasileiro foi executado também não funcionaram, visto que tinham sido removidas para que experts examinassem os atentados do dia, que deixaram 52 mortos. 

Sir Ian, formado em Oxford e tido como um liberal, apesar da acusação de racismo contra ele feita por Tarique Ghaffur, o ex-terceiro oficial de alto escalão da Scotland Yard, tentou barrar a investigação da IPCC, no ano passado. Naquela investigação ficou claro que a polícia fabricou várias versões para tentar encobrir seus erros: o brasileiro vestia um casaco pesado num dia de verão, levantando, assim, a suspeita de que escondia uma bomba. Na verdade, vestia uma jaqueta leve de denin. 

Jean Charles teria pulado a catraca do metrô e corrido para dentro do vagão. Mentira: documentário da tevê ITV News revelou que o brasileiro não pulou a catraca. Após passá-la, pegou um exemplar gratuito do diário Metro e caminhou rumo ao vagão. O caso continua.