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Xenofobia

A islamofobia europeia se acentua

por Gianni Carta publicado 28/09/2010 16h32, última modificação 13/10/2011 11h16
Como explicar o novo surto de extremismo na Europa? Pela economia, em primeiro lugar. Mas há também uma profunda crise de identidade

Como explicar o novo surto de extremismo na Europa? Pela economia, em primeiro lugar. Mas há também uma profunda crise de identidade

assustada, uma senhora de pele branca vê um grupo de mães com burcas passá-la na fila para receber benefícios da Previdência. Eis a propaganda televisiva da legenda holandesa de extrema-direita que nas legislativas de domingo 19 recolheu 6% dos votos. Os Democratas da Suécia, ou SD (sim, esse é o nome da agremiação islamofóbica), chegaram, fato histórico na liberal e solidária Suécia, ao Parlamento, o Riksdag. Segundo o líder do SD, Jimmie Akesson, a população muçulmana constitui a maior ameaça estrangeira contra a Suécia desde a Segunda Guerra Mundial.

Nada, infelizmente, de novo. Em junho, o extremista Partido da Liberdade foi o terceiro mais votado na Holanda. Na Itália, a xenófoba Liga do Norte integra a aliança no governo. E agremiações extremistas têm cadeiras nos parlamentos na Áustria, Dinamarca, Letônia e Eslováquia.

Como explicar esse novo surto de extremismo nas urnas do Velho Continente? A primeira culpada, como sempre, é a economia, que castiga a Europa desde o início da crise bancária em 2008. Em tempos de vacas magras, e de subsequentes níveis elevados de desemprego, imigrantes não são bem-vindos – são devidamente reciclados em bodes expiatórios. No entanto, na Alemanha, onde é best seller uma obra islamofóbica escrita por um ex-integrante do diretório do Bundesbank, a economia retomou. Na Suécia, a previsão para 2010 é de um crescimento do PIB mais veloz do que em qualquer outro país da OCDE.

Dizem que esse novo vagalhão de extremismo tem raízes também numa profunda crise de identidade. Se nas décadas passadas o alvo da insatisfação geral dos europeus eram os refugiados políticos, desta feita os desestabilizadores da suposta harmonia europeia seriam os muçulmanos. Thilo Sarrazin, expulso do Bundesbank por ter escrito o best seller islamofóbico, expressaria o pensamento de muitos europeus? O fato de o livro ser muito vendido não pode ser desprezado.

Segundo o alemão Sarrazin, imigrantes muçulmanos “não querem ou são incapazes de integrar a sociedade ocidental”. Muçulmanos não querem aprender alemão, abusam da Previdência, fazem parte da fatia da população que mais comete crimes. E a religião muçulmana expõe claros elos entre violência, ditadura e terrorismo. O ex-social-democrata Sarrazin parece ter se inspirado em manifestos de legendas da extrema-direita europeia.

Há quem diga, porém, que nem todo voto num partido extremista revela mais um eleitor xenófobo. Caso contrário, seriam extremistas todos os eleitores de Jean-Marie Le Pen, o líder do Frente Nacional que chegou ao segundo turno das presidenciais em 2002? Vários eleitores, teriam, corre essa linha de reflexão, manifestado seu protesto contra as legendas que não lidam com questões como a imigração votando no FN.

Da mesma forma, Sanna Rayman, do diário conservador Svenska Dagbladet, nos diz que na Suécia vários cidadãos não veem os Democratas da Suécia como aqueles com as chaves para lidar com a imigração. No entanto, esses extremistas focaram sua campanha no tema. E, por tabela, outras legendas terão de colocar o assunto no tablado político.

Se o voto útil só pode ser usado em última instância (votar no conservador Chirac para bater Le Pen, em 2002), apoiar a extrema-direita é no mínimo desaconselhável. Por outro lado, agremiações têm de lidar com temas relacionados aos imigrantes. Mas como? Não há, infelizmente, solução veloz.

De saída, é importante promover debates sobre os direitos dos imigrantes. Dois artigos da Convenção Europeia de Direitos Humanos defendem o respeito da vida privada, da identidade pessoal e da liberdade de uma pessoa em manifestar sua religião. Mas a burca e o niqab foram banidos na França. Eis um argumento usado para eliminar a burca: mulheres são pressionadas a usá-la. Mas há quem opte pela burca por livre e espontânea vontade. E seria interessante investigar se as mulheres pressionadas a usar a burca agora se sentem liberadas. Ou estariam alienadas?

Colocar fim na cacofonia de políticas de imigração nos 27 países da União Europeia é outra questão premente. Esta seria, entre outras, uma forma de evitar que políticos conservadores como Nicolas Sarkozy adotassem políticas extremistas. Com a expulsão dos roma, Sarkozy colocou sua nação, com o apoio do reacionário governo italiano, contra a União Europeia, Washington, a ONU e o Vaticano.

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