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A invasão dos bárbaros

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 01/09/2010 10h23, última modificação 01/09/2010 12h12
Tomado por radicais, o Partido Republicano corre risco de perder uma vitória que parecia certa
A invasão dos bárbaros

Tomado por radicais, o Partido Republicano corre risco de perder uma vitória que parecia certa. O candidato republicano ao governo Colorado, Dan Maes, está preocupado com incentivo ao uso de bicicletas, proposto pela ONU. Por Antonio Luiz M.C. Costa. Foto: AP

Tomado por radicais, o Partido Republicano corre risco de perder uma vitória que parecia certa

Dan maes acredita que o incentivo ao uso de bicicletas é parte de um plano das Nações Unidas para dominar os Estados Unidos. Fosse pensionista de uma casa de repouso, não seria notícia. Mas trata-se do candidato republicano a governador do Colorado, um dos estados mais importantes da região das Montanhas Rochosas, com um PIB maior que o da Colômbia.

“Tudo isso está muito bem disfarçado, mas será revelado. É mais do que parece superficialmente e pode ameaçar nossas liberdades individuais. São estratégias muito específicas que nos são ditadas por esse programa da ONU que prefeitos apoiaram. Se você fizer sua lição de casa e sua pesquisa, descobrirá que a Iclei é parte de uma estratégia maior para controlar as cidades dos EUA sob um tratado da ONU. Um dos maiores fãs desse programa é o prefeito Hickenlooper.”

Refere-se ao prefeito democrata de Denver, seu adversário na eleição para governador. John Hickenlooper implantou postos de aluguel de bicicletas da prefeitura, com patrocínio de doadores privados. E o município é parte de um programa aconselhado pela Iclei – Governos Locais pela Sustentabilidade, uma organização internacional de estados e municípios apoiada pela ONU.

No mesmo estado, a candidatura republicana ao senado é de Ken Buck, ex-promotor que invadiu um escritório de assessoria tributária para tentar provar que imigrantes ilegais estavam inscritos na previdência social – ação julgada como violação de privacidade inconstitucional pelo tribunal superior do estado, depois de um processo que custou 150 mil dólares à sua comarca.

No Kentucky, a candidatura é de Rand Paul, que em nome do libertarianismo quer abolir o Departamento Federal de Educação, chamou Obama de “antiamericano” por querer punir a British Petroleum pelo vazamento no Golfo do México e critica as leis que proíbem empresas privadas de discriminar clientes por raça ou religião. Ao mesmo tempo se opõe ao aborto, ao casamento homossexual e à cidadania para filhos de imigrantes nascidos nos EUA. É filho de Ron Paul, que teve menos de 2% dos delegados republicanos na disputa da candidatura presidencial de 2008, mas hoje é astro do Tea Party e em abril empatou com Obama em uma pesquisa.

Em Connecticut, é de Linda McMahon, que culpa o Fed (o Banco Central dos EUA) pela crise financeira e propõe sua abolição. Tornou-se conhecida como apresentadora na World Wrestling Entertainment e tornou-se sua presidenta em 1993, quando o marido, acusado de usar e distribuir esteroides aos lutadores, teve de deixar o cargo. Desempenhava papéis no palco-ringue, apoiando algum lutador, “bom” ou “mau”, contra outro apoiado por outro membro da família, simulando pontapés nos genitais do marido para maior efeito dramático. Um grupo de mães criou uma organização apenas para combater a candidatura financiada por 50 milhões de dólares da WWE, fruto de uma programação que combina violência, pornografia e humilhação de mulheres.

Nos EUA, existe há algum tempo uma direita fundamentalista evangélica, miliciana e racista, enraizada nos grotões do Sul e do Oeste, que vê a ONU como agência do Anticristo, conspiração fascista, islâmica, comunista, ou tudo isso junto. Crê que, em parceria com os “liberais” e Wall Street, agentes de uma Nova Ordem Mundial que se preparam para tomar o poder e instaurar um regime totalitário mundial realizam operações secretas no país a bordo de helicópteros negros e cunharam uma nova moeda chamada “amero” para substituir o dólar. Também há uma direita libertarian – em tese pelo Estado mínimo ou, no limite, pelo anarcocapitalismo – de caráter mais urbano, moderno e intelectual, ou pelo menos mais nerd, que, com o pretexto de ampliar a “liberdade” do proprietário individual perante o Estado, prega sistematicamente a redução de impostos e a abolição de todos os tipos de serviços públicos estatais, além da proteção à propriedade privada – ou nem isso.

Até os anos 80, a direita evangélica era politicamente irrelevante e o libertarianismo apenas uma variante extremista do neoliberalismo cultuada por pequenos círculos de admiradores de teóricos excêntricos. Foi a partir de Ronald Reagan que os republicanos descobriram na adulação da direita evangélica e do discurso libertarian uma útil ferramenta eleitoral, capaz de mobilizar um eleitorado minoritário, mas motivado a votar. Um trunfo decisivo quando cada vez mais cidadãos deixam de ir às urnas, ou de se registrar como eleitores.

Na oposição durante os anos 90, os republicanos se aferraram ainda mais a esses segmentos e se tornaram cada vez mais dependentes dele. Cada vez mais influentes no que passa por corrente principal da política estadunidense, os grupos radicais cresceram, se articularam e desenvolveram suas dimensões paralelas na internet, ideal para aproximar excêntricos e construir universos imaginários cada vez mais distantes da realidade.

Quando os republicanos voltaram ao poder federal com Bush júnior, esses grupos ganharam importância, mas se subordinavam ao projeto neoconservador – reacionário e truculento, porém ainda inserido no debate político tradicional. Quando este derreteu com o fiasco no Iraque, sobrou pouco para apelar ao eleitorado republicano. John McCain, moderado em relação a Bush, achou necessário se apoiar no discurso da extrema-direita e arranjar-lhe uma musa, Sarah Palin, para injetar entusiasmo em sua campanha.

A vitória de Obama alijou da garupa do poder a extrema-direita, que racionalizou (por assim dizer) a frustração e o rancor racista pintando esse democrata centrista e conciliador como um radical e pretendendo cassar-lhe até mesmo a condição de cidadão dos EUA. Ao mesmo tempo, as tímidas medidas do novo governo ante a crise permitiram aos grandes bancos de Wall Street evitar a falência e voltarem a distribuir bilhões a seus executivos, mas pouco amenizaram o desemprego, que ameaça com mais intensidade os cidadãos menos educados. Cresceu o apelo das teorias conspiratórias e a sensação de que as ações do governo só prejudicam o cidadão comum.

Desse agregado de ansiedades e inquietações surgiu, com o incentivo das lideranças republicanas e o patrocínio de setores empresariais que se imaginam prejudicados pela política democrata, o chamado Tea Party. Como o monstro de Frankenstein, é um remendo de teorias conspiratórias e ideias excêntricas, nem sempre congruentes. Obama pode ser pintado como imigrante queniano, radical islâmico, marxista e nazista no mesmo ato. Nos mesmos palanques em que se prega que o Estado diminua e deixe de atuar em educação, saúde, previdência e regulamentação de bancos para não interferir na liberdade dos cidadãos, exige-se também – contra toda a lógica libertarian – que o governo proíba o aborto e o casamento homossexual, expulse os imigrantes e aja com mais rigor contra o tráfico de drogas.

E também esse monstro se volta contra o criador. Sem ver eco para sua exaltação nos políticos republicanos tradicionais, movimentos surgidos do Tea Party entraram de sola nas primárias republicanas para impor seus candidatos. Republicanos há alguns meses eufóricos com a perspectiva de retomar o controle do Congresso agora se assustam: mesmo que seu partido recupere a maioria, não farão mais parte dela. Vários analistas acreditam que o novo perfil radicalizado do partido, embora possa fazer sucesso em certos rincões, pode espantar os eleitores independentes dos grandes estados e cidades e roubar do partido uma vitória nacional que parecia quase certa – até porque os democratas, empurrados à direita pelo mesmo movimento, estão preterindo a esquerda liberal e escolhendo candidatos pró-establishment nas primárias

O próprio McCain corre o risco de perder o assento no Senado, que detém desde 1986, para um filhote do Tea Party na primária de 24 de agosto. O radialista conservador e ex-deputado J.D. Hayworth defende o fim da cidadania para filhos de imigrantes nascidos nos EUA e acusa o rival de ter colaborado com os democratas durante o governo Bush para formular a reforma migratória hoje defendida por Obama. Embora McCain agite a bandeira da xenofobia, apele para o apoio de Sarah Palin e gaste na campanha seis vezes mais que o rival, a diferença na pesquisa é de apenas 7 pontos porcentuais.

Os imigrantes tornaram-se o alvo favorito do Tea Party, que capitaliza o confuso ressentimento de incultos anglo-saxões protestantes com o fim de sua hegemonia no país e o gradual enfraquecimento da hegemonia econômica e militar dos próprios EUA no mundo. Querem “de volta” o país que imaginam traído, entregue aos “outros” e submetido a terríveis poderes “estrangeiros”.

Nada mais simbólico que a ira conservadora contra o centro islâmico (Cordoba House) que foi proposto a duas quadras das desaparecidas Torres Gêmeas, principalmente depois que Obama defendeu o direito dos muçulmanos a construí-lo. Alguém pensou em proibir a construção de igrejas em Oklahoma City depois que o miliciano Timothy McVeigh cometeu um atentado terrorista que matou 168 pessoas, em protesto contra a ação do FBI contra uma seita cristã?

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