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Crise financeira

A humilhação francesa se transformará em raiva?

por The Observer — publicado 20/01/2012 15h40, última modificação 06/06/2015 18h57
O rebaixamento da nota da França é uma advertência. A crise grega entra em uma fase crítica e a Europa poderá descobrir que a paciência de Sarkozy está por se esgotar
Nicolas Sarkozy

O presidente francês tentou passar a imagem de que era bem sucedido ao tentar contornar a crise. O rebaixamento da dívida o frustrou. Foto: AFP

Por Heather Stewart

Nicolas Sarkozy passou o fim de semana passado cuidando de seu orgulho ferido depois que a Standard & Poor's retirou da França sua nota AAA em um anúncio no final da noite de sexta-feira. Mas durante toda esta semana a Grécia mais uma vez esteve no centro da tempestade da zona do euro, enquanto inspetores da chamada "troica" -- a Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu -- chegam para decidir se Atenas ainda merece o resgate de 130 bilhões de euros que foi prometido em outubro passado.

E depois do rebaixamento em massa, que salientou o fato de que os investidores acreditam que os governos dos 17 membros da moeda única estarão em dificuldades se a crise se deteriorar, os parceiros da Grécia talvez não estejam mais no clima para com ela se comprometer.

Desde o alto drama político da cúpula de Bruxelas em dezembro, quando David Cameron usou o veto britânico e impediu um novo tratado da zona do euro, tivemos algumas semanas de calma assombrosa. Sob a liderança de Mario Draghi, o BCE disponibilizou meio trilhão de euros em empréstimos baratos para os bancos desprovidos de caixa, em uma aposta para desbloquear os mercados de crédito congelados e evitar o colapso do setor financeiro. Ao mesmo tempo, o BCE entrou nos mercados de títulos para comprar bilhões de euros de dívida italiana e espanhola, para ajudar a reduzir seus custos financeiros.

Juntamente com uma aposta concertada do novo governo "tecnocrata" de Roma para convencer os mercados e seus parceiros da zona do euro de que fala sério sobre reduzir a dívida italiana, a abordagem do BCE parecia ter pago dividendos. Os primeiros poucos eventos no calendário lotado de leilões de dívida este ano, em que os governos precisam levantar bilhões de euros nos próximos meses, se passaram tranquilamente, com custos de empréstimos mais baixos.

Mas esse breve hiato chegou a um fim dramático na sexta-feira. Primeiro, as negociações em Atenas destinadas a convencer os credores da Grécia a aceitar voluntariamente um desconto no que lhes é devido estagnaram, em meio a rumores de que os fundos hedge -- que se garantiram contra o risco de colapso com swaps de moratória de crédito, e portanto receberão um pagamento em qualquer caso -- estão se recusando a aderir.

Enquanto os mercados ainda digeriam a notícia do impasse em Atenas, começaram a surgir rumores de que a Standard & Poor's estava decidida a reduzir as notas de uma série de países da zona do euro, incluindo a França. A S&P havia avisado no final de 2011, ao se aproximar a fatídica cúpula de Bruxelas, que estava examinando a classificação da maioria dos países da zona do euro porque se preocupava com sua exposição à crise da dívida soberana e não estava convencida pela reação dos políticos.

Então, depois que os mercados europeus haviam fechado, a S&P confirmou que realmente retirava da França sua cobiçada nota AAA e rebaixava outros oito países, desde o já socorrido Portugal até a ilha de Malta. Em toda a zona do euro, somente Alemanha, Holanda, Finlândia e Luxemburgo hoje mantêm a nota máxima da S&P.

Os rebaixamentos foram um pesado golpe para o orgulho dos líderes políticos, principalmente Sarkozy, que esperava mostrar a seu eleitorado que ele os havia isolado da crise, antes das eleições francesas no final deste ano. Mas também tornaram mais difícil construir um corta-fogo financeiro ao redor da Grécia.

O Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, na sigla em inglês) de 440 bilhões, o fundo de socorro da moeda única, só é tão forte quanto os governos que o compõem, e sua própria nota AAA hoje parece seriamente ameaçada. Isso tornará muito mais difícil para os governos europeus convencer investidores estrangeiros, como a China e o Brasil, a colocar seu dinheiro em risco ao subscrever o EFSF, como se pretendia.

"Isto dificultará ainda mais a tarefa de alavancar o EFSF, na medida em que ainda era possível", diz Sony Kapoor, do grupo de pensadores Re-Define, de Bruxelas.

A baronesa Vadera, ex-assessora do G20 que hoje é consultora sobre a crise da zona do euro, disse recentemente: "Sempre foi um absurdo os líderes sugerirem que o EFSF poderia se alavancar quatro a cinco vezes, por isso estamos exatamente no mesmo lugar há muito tempo: para a Itália e a Espanha, o BCE, com uma pequena ajuda do FMI, continua sendo seu único apoio para liquidez".

Os bancos da Europa, que estão fortemente expostos aos títulos da zona do euro, têm probabilidade, por sua vez, de enfrentar uma nova onda de rebaixamentos em consequência das ações da S&P. O rendimento dos títulos -- na verdade, a taxa de juros cobrada dos governos nacionais quando eles pedem emprestado -- poderá não aumentar em consequência das reduções das notas, enquanto investidores se livram das dívidas dos países afetados, especialmente aqueles que foram rebaixados para a posição de lixo (embora, como indica Kapoor, "os investidores não podem fugir em massa do maior mercado de dívida soberana do mundo, a área do euro").

Mas também existe um risco de que, ao trazer o impacto da crise na faixa mediterrânea da zona do euro até a porta do Palácio do Eliseu, o rebaixamento possa endurecer a atitude do governo francês no que poderiam ser algumas semanas críticas. "Sarkozy está em um ano eleitoral. Ele precisa decidir para que lado vai saltar", diz Simon Derrick, do Bank of New York Mellon. "Ele precisa ser visto fazendo alguma coisa para restaurar a nota AAA, e a última coisa que quer fazer é dar mais dinheiro à Grécia."

As negociações com os detentores de títulos da Grécia deveriam continuar # durante o fim de semana. Atenas advertiu repetidamente que o tempo está se esgotando e que um acordo com seus credores é uma parte essencial para receber a segunda fatia do dinheiro de resgate necessário para evitar a moratória dentro de algumas semanas.

Mas depois que as negociações estagnaram na sexta-feira o Instituto de Finanças Internacionais -- o órgão obscuro de Washington que está negociando em nome dos bancos -- disse em uma declaração que está na hora de "uma pausa para reflexão sobre os benefícios de uma abordagem voluntária". Rumores vêm girando há vários dias de que o primeiro-ministro grego, Lucas Papademos, exasperado pela abordagem dos investidores, está considerando aprovar uma lei para obrigá-los a aceitar um prejuízo.

Derrick diz que o colapso das negociações implica que um grande número de investidores está se recusando a jogar. "Sugere que há uma retenção realmente significativa." E Vadera acredita que sempre foi um engano insistir que qualquer desconto deveria ser voluntário: "Para tornar a dívida da Grécia sustentável, é preciso uma profundidade de desconto que nunca foi realmente possível em uma base voluntária. É isso que a negociação está finalmente enfrentando".

Nick Dearden, da Campanha Jubilação da Dívida, que foi fundada para combater dívidas insustentáveis nos países mais pobres do mundo, disse que o comportamento teimoso dos fundos hedge e outros chamados investidores "abutres" -- alguns dos quais compraram dívida grega muito depois que ficou claro que o país estava em dificuldades -- estão exacerbando o sofrimento. "A economia grega foi destruída, e é chocante ver os abutres mergulhando para recolher o que restou. É imperativo para o mundo inteiro que a Grécia e outros países endividados peçam e recebam amplo cancelamento da dívida, combinado com regulamentações estritas sobre as atividades dos abutres."

Os fundos abutres são investidores especializados em comprar títulos de governos em dificuldades por um valor muito abaixo do nominal, e então processá-los para obter o pagamento do valor integral da dívida. Muitas vezes eles são os últimos detentores de títulos que concordam com propostas de reestruturação, mesmo quando um acordo já foi aceito por outros credores; Dearden sugere que essa é a abordagem atualmente adotada por alguns dos investidores na Grécia.

O tempo está se esgotando para Atenas. Poucos analistas acreditam hoje que uma redução de 50% do valor de seus títulos, discutida nas negociações, seja suficiente, mesmo que se chegue a um acordo -- e também houve relatos de que o FMI acredita que a Grécia vai precisar de um socorro ainda maior que os 130 bilhões de euros prometidos.

A menos que o dinheiro seja liberado, o governo grego deixou claro que está correndo para "o risco imediato de uma moratória desordenada" ainda em março, quando deve repagar 14,5 bilhões de euros em títulos.

No auge da crise sobre o ameaçado referendo grego, quando George Papandreou foi forçado a deixar o poder, Sarkozy disse que havia sido um erro admitir a Grécia na zona do euro. Sua atitude, e a de governos de todo o resto da zona, agora será crítica para determinar se a Grécia se tornará o primeiro membro a abandonar a moeda única.

Os rebaixamentos

A agência de classificação de dívida Standard & Poor's rebaixou nove países da zona do euro. Todos, exceto a Eslováquia, também foram colocados em uma perspectiva negativa, o que significa que poderá haver novos rebaixamentos.

FRANÇA. Caiu um ponto, AAA para AA+

ÁUSTRIA. Caiu um ponto, AAA para AA+

MALTA. Caiu um ponto, A para A-

ESLOVÊNIA. Caiu um ponto, AA- para A+

ESLOVÁQUIA. Caiu um ponto, A+ para A

CHIPRE. Caiu dois pontos, BBB para BB+

ITÁLIA. Caiu dois pontos, A para BBB+

PORTUGAL. Caiu dois pontos, BBB- para BB

ESPANHA. Caiu dois pontos, AA- para A

 

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