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Internacional

Entrevista

A hipocrisia de Obama e os dois pesos no Oriente Médio

por Gianni Carta publicado 10/05/2011 16h13, última modificação 25/10/2011 11h49
Magid Shihade, professor de Estudos Internacionais da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, analisa as repercussões da morte de Osama bin Laden
A hipocrisia de Obama e os dois pesos no Oriente Médio

Magid Shihade, professor de Estudos Internacionais da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, analisa as repercussões da morte de Osama bin Laden. Foto: Gianni Carta

Magid Shihade, professor de Estudos Internacionais da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, e autor de Not a Soccer Game: Colonialism and Conflict Among Palestinians in Israel (Não é um jogo de futebol: Colonialismo e conflito entre palestinos em Israel, em tradução livre), analisa as repercussões da morte de Osama Bin Laden no Oriente Médio.

CartaCapital: Que impacto a morte de Bin Laden pode ter na “Primavera Árabe”?
Magid Shihade:
Muitos argumentaram que a razão desse ato americano ou as notícias tiveram como objetivo desviar a atenção da Revolução Árabe, numa tentativa de reiniciar o discurso sobre a “guerra contra o terror”. Em outras palavras, esse ato americano é visto por numerosos críticos como uma forma de ofuscar a Revolução Árabe que começou a eclipsar as notícias sobre o “terror”, e parecia ter trazido um fim à política, pós 11 de Setembro, dos EUA na região.

CC: Qual é a imagem de Obama no Oriente Médio, após a morte de Bin Laden?
MS:
Para muitos sua imagem deteriorou-se tempos atrás pelo fato de ele ter seguido seus antecessores na política de apoio a Israel. Ele mostrou hipocrisia, padrões duplos na reação às diferentes revoluções na região. A intervenção na Líbia é vista como contrarrevolucionária, ao contrário do que parece. Por outro lado, a não intervenção no Bahrein mostra os padrões duplos e o egoísmo que permeiam a política dos Estados Unidos. Autorizar a matança de Bin Laden e declarar que apesar disso “a guerra contra o terror” continua, deixa claro para muitas pessoas que Obama, assim como o seu predecessor, pretende permanecer envolvido na região sem modificar o curso.

CC: Como avalia a operação que matou Bin Laden?
MS:
O sinal verde do presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, para a operação que terminou com a matança de Osama bin Laden causou reações diferentes. Uma reação foi aquela de apoio e de satisfação com o resultado. Celebrações nos Estados Unidos foram seguidas por declarações de suporte na Europa e no mundo afora. Outra reação foi aquela de dúvida e de condenação. Condenou-se o modo como Bin Laden foi tratado, e questionou-se o fato de o seu corpo ter sido lançado no Mar Árabe. Outros duvidaram da história inteira. Houve quem duvidasse da morte de Bin Laden. Os motivos que levantaram dúvidas foram vários. Por que seu corpo não foi mostrado a peritos? Por que jogar seu corpo ao mar? Por que bombardear e queimar o lugar onde ele foi encontrado?

CC: Enquanto Ismail Haniyeh, líder do Hamas, condenou a operação dos EUA que matou Bin Laden, a Autoridade Palestina disse que foi positiva para a paz. Como devemos interpretar essas visões opostas num momento em que o Hamas e o Fatah se reconciliaram?
MS:
Definitivamente, Haniyeh está jogando com os sentimentos de setores religiosos na região. Enquanto isso, o Fatah quer agradar ao Ocidente, visto que a Autoridade Palestina depende do financiamento ocidental.

CC: O premier israelense, Benjamin Netanyahu, não aceita o Hamas num eventual governo palestino. Como será a relação entre Israel e a Palestina?
MS:
Israel continuará usando todos os tipos de subterfúgios para prevenir qualquer possível unidade palestina. E, mais importante ainda, usará diferentes desculpas para que sua colonização contínua da Palestina não seja bloqueada. Nos últimos anos, o Hamas foi a desculpa dada por Israel para não aceitar o plano de implementação internacional de passos para a paz. Antes disso, o entrave era Arafat. Se o Hamas não existisse na Palestina, Israel o teria criado, ou teria ajudado a criá-lo, coisa que em parte fez.

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