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Internacional

Entrevista com o fundador do WikiLeaks

A guerra de Assange

por Gianni Carta publicado 02/02/2013 07h46, última modificação 02/02/2013 14h59
Apontado como “terrorista” e “estuprador”, o revolucionário da internet sustenta a necessidade de redefinir a relação de forças entre esta e o Estado

De Londres

Julian assange esclarece o motivo de nossa entrevista: discutir seu livro Cypherpunks: Liberdade e o futuro da internet, a ser lançado pela Boitempo no início de fevereiro, no Brasil. É o que leio no enésimo e-mail do editor-chefe do WikiLeaks, retransmitido pela sua assessora de imprensa em São Paulo para o meu celular. Parece um contrato: Assange sublinha a importância de o repórter (ele cita meu nome e sobrenome) e da revista CartaCapital terem entendido as condições da entrevista.

Na verdade, ao receber mais esse e-mail já estou com Olivia Rutherford, a fotógrafa, em um café a escassos passos da Embaixada do Equador no elegante bairro de Knightsbridge, onde Assange pediu asilo sete meses atrás. Se colocar os pés fora da representação equatoriana, o australiano de 41 anos será imediatamente preso e extraditado à Suécia, onde é acusado de ter abusado sexualmente de duas moças. Assange nega. As relações, diz, foram consensuais. Ele chegou até a propor, através da diplomacia equatoriana, que os procuradores suecos fossem interrogá-lo na embaixada. Mas, por “circunstâncias” não especificadas por uma magistrada de Estocolmo, o julgamento – no qual, diga-se, Assange não foi indiciado – deve ocorrer em solo sueco.

O temor bastante compreensível do fundador do WikiLeaks seria uma segunda extradição, esta da Suécia para os Estados Unidos, onde querem julgá-lo por espionagem, e, no caso, ele poderia ser condenado à pena de morte. O crime de Assange foi ter divulgado documentos militares e diplomáticos através de sua plataforma digital WikiLeaks em parceria com diários de renome como o The New York Times. Vidas e mais vidas teriam sido colocadas em risco, alegam, embora sem provas, os detratores de Assange. Em abril, meses antes de publicar os comprometedores documentos secretos em meados e no fim de 2010, o WikiLeaks havia adquirido a fama ao divulgar um vídeo no mínimo constrangedor para os EUA. Nele vemos soldados norte-americanos em ação no Iraque atirando de um helicóptero sobre 12 civis desarmados.

Olivia quis chegar cedo ao encontro com Assange para tratar os detalhes de como usaríamos o limitado tempo concedido. A fotógrafa londrina insistia que, além das fotos durante a conversa, pretendia usar um tripé para fazer retratos com um pano de fundo. “Você quer que ele pose?”, indaguei entre goles de espresso. “Temos de tentar”, retrucou, enquanto, através da parede de vidro do café, observava pessoas entrar e sair da mítica Harrods. Não havia mais tempo para uma rápida sondagem, mas que diriam sobre Assange aquelas pessoas? Certamente, se leitoras da mídia britânica e mesmo internacional, diriam para Olivia esquecer a possibilidade de conseguir uma pose daquele sombrio hacker “estuprador” de suecas.

De fato, até diários de centro-esquerda como o britânico The Guardian têm publicado relatos negativos de Assange. Foi o caso da repórter desse importante jornal que, ao entrevistar o “fugitivo”, admite, não sem razão, ser o livro “convincente” e “assustador”. No entanto, a repórter questiona os “dramas” dos últimos dois anos e meio – certamente uma alusão às suecas –, seu “estado de espírito” (ele é paranoico?) e “credenciais” para julgar abusos de poder. Outra colega me avisou que “seus músculos faciais” são imóveis, de poker face. Outro alertou não ser fácil entrevistá-lo, aparentemente pelo fato de ser ele “desconfiado”.

Cauteloso Assange é e tem de sê-lo. Seu filho foi ameaçado de morte. Ele é tido como um “terrorista” a dirigir uma organização “terrorista” em meio a uma “ciberguerra”, segundo senadores americanos que já aventaram o plano de matá-lo pelo emprego até de aviões não tripulados. O soldado Bradley Manning, acusado de ter cedido informações ao WikiLeaks, teria sido torturado e poderá ser condenado à prisão perpétua. Vigiado, entre outros, por FBI e CIA, o WikiLeaks já foi infiltrado. Os três coautores do livro – Jacob Appelbaum, Andy Müller-Maguhn e Jérémie Zimmermann – foram detidos, interrogados e ameaçados.

Por essas e outras, Assange insiste para que se fale do seu livro, não de sua vida. Além da caterva de e-mails, antes da entrevista pediu cópias dos passaportes, detalhou os minutos para entrarmos, entrevistá-lo e sair da embaixada. À porta da embaixada, o policial não quis ver nossos passaportes. Mesma reação teve o seu colega no saguão diante da porta da embaixada. “Mostrem os passaportes para os diplomatas equatorianos, nosso trabalho é só prender o homem caso ele saia.”

Foi o que fizemos a benefício do único diplomata a nos receber dentro da embaixada. Chega Ethan, um rapaz cordial da equipe de Assange. Impressiona o fato de a embaixada, a despeito do endereço e do luxo do prédio do lado exterior, ser tão espartana no interior e não maior do que um apartamento médio. Somos conduzidos para uma sala, a única, com uma grande mesa. Olivia não perde tempo. Começa a armar seu tripé, pano de fundo etc. Logo, entra outro integrante da equipe com um contrato sobre as fotos, que só poderão ser usadas na edição de CartaCapital.

Antes de sair da sala, Ethan, com ar solene, indaga: “Ficou claro que estamos aqui para falar do livro?” Mais claro impossível. O livro elucida até o mais ferrenho dos tecnofóbicos. Na introdução, Assange resume: “À medida que os Estados se fundem com a internet e o futuro da nossa civilização se transforma no futuro da internet, devemos redefinir as relações de força”. A questão-mor parece ser: queremos uma internet com poderes para emancipar a humanidade, ou assistir à sua transformação em uma “distopia de vigilância pós-moderna”? Isso, aliás, “já pode estar acontecendo”. Trata-se de uma guerra. E Assange e seus amigos combatentes sabem do que falam porque, como escreve, “nós nos vimos cara a cara com o inimigo”. O inimigo é o Estado com seus serviços secretos e as corporações coniventes que atuam como um exército para oprimir os mais fracos. Mas os cypherpunks, defensores da criptografia e de uma rede alternativa, podem criar mudanças sociais e políticas. E o leitor do livro, continua Assange, tem de entender o que está acontecendo para poder agir.

Na apresentação da versão em português, a brasileira Natalia Viana, jornalista e editora da Pública, organização de jornalismo investigativo sem fins lucrativos e parceira do WikiLeaks, faz um tour de force sobre a plataforma digital, inclusive com os relatos da embaixada norte-americana na Tunísia a descrever o quanto era corrupto o governo de Ben Ali. Esses documentos, diga-se, “foram um incentivo para a revolta tunisiana” e, por tabela, para a futura Primavera Árabe. Viana também detalha a influência do WikiLeaks no Brasil.

E eis Julian, enverga uma camisa da Seleção Brasileira, com o número 7 e o nome Julian nas costas. Apesar dos cabelos brancos, encanecidos, dizem, na contenda pela custódia do filho, o rosto é jovem. Aperto de mãos, digo meu nome. Não é o nome do passaporte, diz. É o diminutivo, aquele é o oficial. “Mas você pode dar um Google no meu nome”, digo. Assange solta uma gargalhada. Ele, é claro, detesta o Google, que trabalha, como ele diz no livro, com os serviços secretos e, por tabela, armazena informações privadas em permanência.

No primeiro contato, logo fica transparente que o homem é descontraído e bem-humorado. Faz perguntas, ri com frequência, é irônico e por vezes deixa de ser o entrevistado para ser o entrevistador. “Como é viver na França, melhor que aqui?” Ao abordar temas no livro, ele reflete antes de falar e, com frequência, a pausa é longa e tem-se a impressão de que ele terminou. Mas quando faço outra pergunta, Assange, que parece mergulhado em um transe, a ignora e continua a dar a resposta anterior.

Não ajuda o fato de Ethan, o rapaz cordial, estar empoleirado em um sofá de onde faz a contagem regressiva como um papagaio. “Faltam 15... 10... 5 minutos.” Indago a Assange se ele não está cansado de falar com jornalistas, por conta do livro. “Estive preso por mais de dois anos... (pausa)... portanto, não estou acostumado a lidar com as pessoas.” Mas ele gosta de conversar? “Gosto, mas é estranho.” Na introdução, argumento, você diz que o livro não é um manifesto, é um alerta. Mas o livro é um manifesto de formato mais arrojado.

Por que, então, não chamá-lo de manifesto se Assange até pergunta “o que pode ser feito?” – e oferece opções no capítulo final? “Eu não queria arruinar o mercado para o próximo livro”, retruca, em tom jocoso, Assange. Risos. Com ar sério, ele retoma a palavra: “Este livro é uma coletânea de anotações de um grupo a atuar nas linhas de frente. Foi escrito no meio de uma guerra e, portanto, não houve tempo para termos uma necessária e propícia reflexão”. Pausa. “Este livro dá o vislumbre de algo muito importante: outro livro, talvez um manifesto adequado.”

Argumentos estampados por manifestos são enfadonhos e talvez o deste livro seja o formato certo para atrair leitores. Assange concorda. Foram horas e horas de entrevistas gravadas e no final a equipe aplaudiu. “Não atribuo os aplausos ao fato de finalmente termos terminado o debate, mas ao fato de terem gostado de seu conteúdo”, pondera. “Há algo de moderno e honesto neste livro. Ele disseca a interseção entre o avanço da civilização e da política e da sociedade.”

Lembro a frase, tão repetida por ele, Assange, e pelos cypherpunks: “Privacidade para os fracos, transparência para os poderosos”. Para criar esse mundo livre e democrático, alternativo àquele controlado por Estados e serviços de inteligência, a criptografia, software gratuito para todos e máquinas sobre as quais teremos maior controle seriam as melhores armas? São formas de luta. Essencial, continua, é saber por que existe essa luta. “A internet é agora o sistema nervoso da civilização que envolve futuras decisões e a distribuição do poder.”

Discussão que não li no livro, entre privacidade e anonimato. Privacidade é um direito, já o anonimato, na minha opinião, tem limites. É covarde, por exemplo, um anônimo falar barbaridades como li outro dia ao filtrar o site de CartaCapital: “É impossível – dizia o navegante – ter havido 6 milhões de judeus mortos no Holocausto; um número mais razoável seriam 500”. Assange: “Acho muito interessante as pessoas sentirem a necessidade de se tornar anônimas. É quase sempre o resultado do medo de retribuição. Claro, algumas retribuições são legítimas. Se você roubar o saco de frutas de uma velhinha, eu diria que uma retribuição será provavelmente legítima. Mas em vários casos a retribuição não é legitíma e, de qualquer forma, as pessoas deveriam ter o direito de opinar, sendo elas anônimas ou não, e até porque elas têm de ser criticadas”.

A resposta acima, vinda de uma pessoa que está presa em uma embaixada porque se posiciona contra soldados que matam civis me deixa perplexo. Assange: “Eu também tenho meus limites. Não critiquei, por exemplo, o sistema britânico de Justiça porque meus advogados me desaconselharam”. Sim, mas... “Faltam dez segundos”, avisa Ethan. Então, vamos à última pergunta: quanto tempo você acha que vai ficar nesta embaixada? Assange: “Trata-se de uma questão diplomática, política e legal. Algumas das questões são demasiado complexas. Mas, graças ao apoio do governo do Equador e da América Latina de forma geral, que defendeu a posição do Equador, a batalha foi levada de um processo legal pervertido de volta para o terreno político”.

Ainda segundo Assange, existe uma questão mais importante do que seu futuro: o WikiLeaks terá sucesso na batalha de dois anos e meio contra os Estados Unidos e de um bloqueio bancário, isento de qualquer processo judicial? Visa, Mastercard e PayPal, entre outras, subvencionaram , mas foram obrigadas a deixar de fazê-lo. Hoje, o WikiLeaks  tem de sobreviver apelando para as reservas. “Mesmo assim, combatemos intimidações com mais ataques.” Em 2013, a organização publicará 1 milhão de documentos.

Ethan: “Agora temos de encerrar”. Assange, que já desrespeitou outros pedidos do jovem, se levanta. Mas antes de sair da sala posa para a máquina fotográfica de Olivia. Indago se ele gosta de futebol. “Gosto de jogar mais do que de assistir.”

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