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A greve é burguesa

por Gianni Carta publicado 02/02/2009 12h28, última modificação 25/10/2011 13h39
A França sofreu sua maior greve geral em duas décadas. Diversas manifestações em todo o país afetaram transportes, escolas, hospitais e aeroportos

A França sofreu sua maior greve geral em duas décadas. Diversas manifestações em todo o país afetaram transportes, escolas, hospitais e aeroportos
Em julho de 2008, Nicolas Sarkozy fez a seguinte previsão: “Ninguém mais perceberá quando ocorrer uma greve na França”. Difícil imaginar como, nesse país, onde greves sempre foram uma maneira de manifestar insatisfação contra o governo, esse comportamento mudaria.

Nesta “Quinta-feira Negra”, 29, a França parou. Segundo o Ministério do Interior, os grevistas eram mais de 1 milhão; 2,5 milhões para a central CGT. Ou seja, a França sofreu sua maior greve geral em duas décadas. Diversas manifestações em todo o país afetaram transportes, escolas, hospitais, aeroportos etc.

Surpresa? Na verdade, nada de anormal num mundo onde as vozes de altermundialistas começam a ter maior repercussão do que as dos neoliberais. Contudo, sempre houve divergências entre pensadores em torno da repercussão de greves na esfera capitalista.

Nos anos 60, cientistas sociais previram que a classe trabalhadora se integraria na sociedade – e, por tabela, interesses de classes e conflitos seriam resolvidos cada vez menos através de greves. Mesmo porque uma classe trabalhadora, com dinheiro no bolso e filhos na universidade, já não seria mais explorada e sem direitos de adentrar o tablado político, como no século XIX.

Sarkozy, no atual contexto, seria o arquétipo de líder desse novo modelo. Para ele, entre patrões e assalariados tudo se resolve (ou deveria se resolver) na diplomacia. Mas, de algumas semanas para cá, o espectro de uma greve geral começou a rondar o presidente. Pior: se antes financeira, e agora econômica, a crise poderia se tornar social. Jovens de menos de 25 anos (entre os mais afetados pelo desemprego de cerca de 8%) e mais membros da agremiação anarcossindicalista SUD poderiam engatilhar movimentos nacionais. E violentos.

Diante da primeira crise do mundo globalizado, na qual o PIB da França terá, segundo o FMI, uma contração de 2% em 2009, Sarkozy tomou medidas para beneficiar os banqueiros. Os mesmos que provocaram a atual crise. E o que fará Sarkozy para estimular o consumo, isto é, o poder aquisitivo do povo, promessa-mor de sua campanha presidencial? Por ora, acreditem, o presidente pretende colocar em prática aquelas reformas econômicas liberais que faziam parte de seu programa eleitoral.

Setenta por cento do povo discorda de Sarko e foi favorável à greve desta “Quinta-feira Negra”. O motivo: a crise é posterior ao programa de governo. Portanto, antes de colocar as reformas em prática, ele precisa estimular o poder aquisitivo.

Sarko, como sempre, fez um de seus costumeiros e arrogantes discursos: “Eu escuto o povo, mas não levo nada em conta”. Dois dias antes da greve geral, dissera que “escuta e leva em conta”. Detalhe: a vasta maioria dos franceses já se mostrava favorável à greve.

Sarkozy tentou passar o recado de que a greve não seria uma maneira de mostrar “solidariedade” num momento de turbulências. A tática não funcionou. Na tentativa de entrar em sintonia com o povo, “entende as dificuldades” e acha “normal que as pessoas protestem”. Contudo, argumentou, foi eleito com um programa e o colocará em prática.

Nesta quinta-feira 29, atravessei, com outras centenas de grevistas, a rua Francs Bourgeois, no Marais, bairro de vanguarda parisiense. Buzinas, apitos, sinos, assobios, gritos, bandeiras, faixas. Um ativista da CGT gritava num alto-falante: “Todos juntos, todos juntos, todos juntos!” E a multidão: “Oui, oui, oui!”

Marine, professora de nível secundário com longos cabelos negros e olhos claros, de 35 anos, disse: “Seria egoísta de minha parte estar aqui somente porque Sarkozy quer suprimir centenas de empregos do meu setor. Estou aqui também, e talvez ainda sejam as maiores razões, porque meu poder aquisitivo é cada vez menor neste mundo globalizado. E, se eu ou outra colega perdermos o emprego, dificilmente encontraremos outro”.

Chegamos na praça da Bastilha. Um mar de gente. Marx era visionário e os pensadores dos anos 60 e Sarko estão errados: greves persistem devido a desigualdades e conflitos sociais. A única diferença é que Marine não é proletária. Ela pertence a uma burguesia que marcha pela rua Francs Bourgeois – e faz parte da oposição num mundo globalizado que se manifesta na Bastilha, estopim da Revolução Burguesa de 1789.