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A fracassada “guerra às drogas” mexicana

por Wálter Maierovitch publicado 17/08/2010 09h00, última modificação 06/06/2015 18h17
O jurista Wálter Fanganiello Maierovitch traça um histórico da malfadada batalha contra o narcotráfico e vê a iniciativa do presidente Felipe Calderón de discutir a legalização das drogas como “uma tentativa de distrair os ‘eleitores’
A fracassada 'guerra às drogas' mexicana

O jurista Wálter Fanganiello Maierovitch traça um histórico da malfadada batalha contra o narcotráfico e vê a iniciativa do presidente Felipe Calderón de discutir a legalização das drogas como “uma tentativa de distrair os ‘eleitores’. Foto: Guillermo Legaria/AFP

O ex-presidente mexicano Vicent Fox, assim como Fernando Henrique Cardozo, passou a defender a legalização das drogas após deixar o poder

O presidente Felipe Calderón, ao assumir a presidência do México (2006), entrou de cabeça, com apoio do governo George W. Bush, na estratégia da “war on drugs”. Foi uma jogada política. Precisava legitimar o seu mandato. Isto diante de forte suspeita popular de ocorrência de fraude nas apurações eleitorais.

Como a violência provocada pelos cartéis mexicanos causava insegurança na população, Calderón, logo no primeiro dia de mandato, declarou “guerra às drogas”. Bush garantiu a iniciativa e financiou o Plan Mérida, de fracasso absoluto: o Plan Mérida era uma cópia do Plan Colômbia, adaptado ao México.

Não demorou muito para os cidadãos mexicanos perceberam o engodo da política de militarização no combate às drogas. O Exército entrou no projeto. Está desmoralizado. A violência aumentou e os cartéis colombianos vencem a “guerra às drogas”.

A situação piorou para Calderón. Na visita a Barack Obama e ao Japão, para recolher auxílio para continuar a “war on drugs”, voltou com as mãos abanando. Obama e o czar de drogas da Casa Branca avisaram que a política de “war on drugs” fracassou, nos EUA e no México.

No dia 3 de agosto passado, e com o mundo a saber que a sua “war on drugs” mexicana resultou em 28 mil mortos (cerca de 70% de cadáveres de civis inocentes, sem qualquer ligação com drogas proibidas), Calderón falou em “disposição de iniciar um processo de discussão sobre a legalização das drogas”.

Sem W. Bush a financiar a aventura chamada de “war on drugs”, Calderón procura saídas. Até porque sabe que os cidadãos mexicanos, no começo do seu mandato favoráveis, já são contrários à “guerra às drogas”...

Uma das saídas de Calderón é abrir o debate, até para distrair os “eleitores”. Só que não pode admitir que fracassou, até agora.

Calderón, na verdade, reabre a discussão sobre proposta feita pelo ex-presidente Vicente Fox, que, com relação às drogas, é um novo Fernando Henrique Cardoso da política oportunista latino-americana. Fox e FHC, nos seus mandatos, seguiram como sabujos a orientação norte-americana, criminalizante e militarizada.

No dia 09 de agosto passado, Calderón disse à radio Caracol que a legalização poderia “incrementar o consumo entre os jovens”. Hoje, em coletiva, voltou ao tema: “Eu não sou favorável à legalização. Se alguém quiser fazer uma análise detida, precisará colocar na balança as vantagens e as desvantagens de uma escolha como essa (referência à legalização)”.

Fox, o atual FHC mexicano, tem um plano para a legalização. Está no seu blog.

Fox apresenta um projeto de legalização, produção, venda e distribuição de drogas. Sua meta é “bloquear o narcotráfico”, pelos cartéis, evidentemente.

Enquanto Calderón descobre que o federalismo, com polícias estaduais sujeitas ao poder corruptor, representa um óbice para a efetiva repressão, a direita mexicana reage contra a legalização.

Calderón quer mudar as policias e criar um órgão coordenador de ações, entre as policias estaduais e a federal.

O chamado “Consejo Ciudadano para la Seguridad Publica y la Justicia Penal” e o “Movimiento Blanco” chamam a legalização de “cortina de fumaça”. Uma cortina para esconder as causas principais da violência, que, para essas organizações não governamentais, seria a “perda do monopólio da força por parte do Estado”.

Pano rápido

O ex-presidente mexicano Ernesto Zedilho está com Fernando Henrique pela legalização. Zedilho quebrou o México, mas sabe bem que a indústria das drogas ilícitas foi a única que enriqueceu na catastrófica presidência. Como FHC, Zedilho (que nem mais no México mora) era adepto da criminalização do usuário e da militarização no combate aos cartéis.

Evidentemente, criminalizar usuário é desumano. A questão é sócio-sanitária, de saúde pública. Não é uma questão criminal.

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