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A força das palavras do Padre Silvano Fausti

por Flavia Guerra — publicado 29/07/2015 19h05, última modificação 30/07/2015 15h27
Confessor de Carlo Maria Martini revelou em entrevista pouco antes de morrer que este e Ratzinger fizeram acordo para derrotar um adversário que estava sendo forjado às escuras em abril de 2005
Reprodução
Cena da entrevista de Silvano Fausti Gli ao Stati Generali

Cena da entrevista de Silvano Fausti Gli ao Stati Generali

“Apesar de tudo, a morte é necessária. É a conclusão da vida. Nós é que hoje vivemos com medo da morte e, portanto, angustiados. Quando é hora de sair da barriga da mãe, é preciso sair. Se não, morrem os dois. E quando estamos prontos para partir, partimos. E é bonito.” Assim o jesuíta, teólogo e biblista italiano Silvano Fausti encerrou uma longa e rara entrevista ao site independente de notícias Gli Stati Generali (GSG) em março deste ano.

Na conversa que ocorreu quase três meses antes de o famoso e respeitadíssimo Padre Fausti morrer, em 24 de junho, aos 75 anos, após longo período enfermo, ele provou que, além de estar pronto para partir, também estava pronto para falar de praticamente tudo e que não temia qualquer polêmica que suas revelações pudessem causar.

De sua adolescência quase ateia em sua Valtrompia natal (na província de Brescia) ao entendimento de que “a fé é uma relação interior com Deus”. Das questões sobre a falta de liberdade do período em que Karol Woytila foi Papa (“A Igreja regrediu à Idade Média. Não havia a Inquisição, mas quase. Ele teve poder, autoridade, mas não havia abertura e nem renovação”), passando pela alegria de ver Jorge Mario Bergoglio se tornar o sumo pontífice em 2013, e, principalmente, pela revelação de que Joseph Ratzinger e o cardeal italiano Carlo Maria Martini, umas mais influentes autoridades contemporâneas do catolicismo, fizeram um acordo para derrotar um adversário que estava sendo forjado às escuras em abril de 2005.

Apesar de polêmica, a entrevista em vídeo só foi veiculada no GSN em 12 de julho, quase 20 dias após a morte de do padre jesuíta. “Conhecíamos a comunidade em que ele vivia e sua obra, uma das mais importantes do catolicismo contemporâneo. Nos parecia importante que o tornássemos mais conhecido por todos”, declaram a CartaCapital os jornalistas do GSN, Lorenzo Dilena e Jacopo Tondelli quando questionados sobre a decisão de realizar a entrevista com Fausti.

“Quando o entrevistamos, ele já estava muito doente. Queríamos registrar suas palavras, seu rosto, sua história, como se fosse um testamento. E não queríamos publicar a entrevista logo depois de sua morte porque não queríamos desfrutar da onda de emoção em torno do fato, mas sim deixar um testemunho perene”, completaram os editores.

Para entender o impacto da declaração de Fausti ao GSN, é preciso ter em mente que ele foi por mais de 15 anos confessor e conselheiro de Martini, morto em 31 de agosto de 2012, aos 85 anos. De acordo com as declarações do padre jesuíta, o acordo entre Martini e Ratzinger ocorreu durante o conclave que escolheria, após 26 anos de papado de João Paulo II, o novo líder mundial da fé católica.

Os principais candidatos para assumir o posto eram o jesuíta e arcebispo emérito de Milão, Martini, que nunca se alinhara com o papa polonês, e o cardeal Ratzinger, além de um ainda não tão expressivo Jorge Bergoglio, então arcebispo de Buenos Aires. O primeiro representava a ala progressista da Igreja enquanto o segundo, como já era sabido, uma vez que o alemão era amigo do conservador Woytila, a ortodoxia religiosa.

Mas, como relatou Padre Fausti, Martini descobriu que uma estratégia estava sendo tramada para enfraquecer as duas candidaturas e levar ao poder um outro membro da alta Cúria “muito strisciante (rastejante, servil e não confiável), que não conseguiu”. Quando descobriu a manobra, Martini procurou Ratinzger à noite e disse: “Aceite amanhã ser eleito papa com os meus votos... Aceite você, que integra a Cúria há 30 anos e é inteligente e honesto. Se você conseguir reformar a Cúria, bem. Se não, sairá”, revelou Fausti.  

Sobre as revelações feitas ao GSN, os jornalistas admitiram que eles próprios se surpreenderam. “A sua clareza nos impactou. Não esperávamos por isso. Soubemos, depois, que ele falou disso várias vezes com amigos e colegas. Talvez quisesse deixar um testemunho sobre a verdade à Igreja e ao mundo antes de partir”, disseram Dilena e Tondelli a CartaCapital.

O que o mundo já sabia era que Ratzinger, que  aceitou a proposta de Martini, se tornou Papa em 19 de abril de 2005. Mas, pondera Fausti, quase como um prenúncio do que seria seu papado, “a primeira coisa que fez foi ir a Áquila e colocar sua estola e seu pálio sobre o túmulo de Celestino V”.

Detalhe: Pietro del Morrone, o Celestino V, era beneditino e renunciou ao cargo no mesmo ano em que foi eleito, em 1294. Foi o único papa a renunciar (em situações históricas ‘normais’) ao cargo antes de Bento XVI. Ou seja, como publicou o jornal italiano Il Giornale, em 20 de julho, seu governo tinha prazo para acabar. O periódico, um dos grandes da Itália, indaga: “As palavras de padre Fausti até o momento não foram confrontadas. Mas resta ainda o mistério: Qual é o motivo que levou Ratzinger a renunciar ao Trono de São Pedro?”

Fausti, antes de partir, respondeu a esta questão e fez diversas outras  afirmações. Contou, por exemplo, que Martini e Ratzinger sempre se deram bem e se admiraram, mas que “davam um jeito de estar um contra o outro”. “Isso é típico. Para fazer notícia, precisa-se ser contra. Já com Woytila, ele lhe entregava todo ano um pedido de renúncia. Só que ele (o Papa) nunca aceitava porque, se o fizesse, teria contra si toda a América e os bispos da Europa.

Finalmente, quando Martini já tinha 75 anos,  Woytila  aceitou sua renúncia (para se tratar do mal de Parkinson) para não correr o risco de ele querer ficar ainda mais um pouco”, comentou um bem humorado Fausti.

O bom humor, aliás, sempre foi uma das grandes qualidades do padre. “Pense que, já esperando pelo fim, respondia a quem lhe perguntava sobre sua saúde: estou tão bem que posso morrer”, comentou o abade de Sant’Ambrogio ao site avvenire.it.

A entrevista, concedida na sede da Comunidade de Villapizzone, uma cascina (vila rural) na periferia de Milão, em que jesuítas e famílias de diversas nacionalidades (inclusive brasileiras e africanas) viviam em regime de cooperação e trabalho mútuo, foi simples, direta e em ‘trajes civis’. É essa proximidade com o povo de diversos países, que conheceu tanto em sua própria casa quanto em suas missões na África e no Brasil, que também apreciava no Papa Francisco.

“Hoje em dia não há mais o sagrado que se contrapõe ao profano. São todos santos. Porque Deus se fez homem. Portanto, todo homem é Deus. Até o último dos homens, o delinquente, o preso, o imigrante. Não são modelos de homem de fé, mas sim de homens. Este é nosso Deus”, filosofou o autor de diversos livros sobre a Bíblia, a religião, a espiritualidade, entre outros, que estão na lista dos mais lidos e influentes do catolicismo contemporâneo.

Em vez da polêmica que suas declarações causaram na opinião pública e na mídia italiana, mais notada foi a falta que seu trabalho humanitário já está fazendo. A imprensa italiana noticiou o caso, respeitando suas palavras. O Corriere della Sera, um dos mais influentes jornais europeus, repercutiu a entrevista ao GSN quatro dias depois de sua veiculação, mas se ateve a descrever as declarações de Fausti.

Entre os poucos mais críticos, o site católico Aletheia (que tem milhões leitores em todo o mundo) contrapôs a entrevista de Fausti e afirmou que há uma outra versão, muito diferente. Segundo o Aletheia, “um dos 115 cardiais presentes no conclave de 2005, afirmou, em entrevista à revista italiana de política Limes, em 2009, que um certo Bergoglio, diferentemente de ‘um homem da Cúria’, foi o verdadeiro adversário de Ratzinger.”

Para Dilena e Tondelli, as declarações de Fausti são confiáveis e permanecerão: “O fato foi amplamente repercutido em todo o mundo católico. A partir de agora, diante de um fato histórico tão relevante, existe um dado concreto com o qual se confrontar.”

Concreto também é que Martini, “o homem que poderia ter sito Papa, mas que nunca se sentiu um verdadeiro ‘papável’, e não só por seus problemas de saúde”, morreu em agosto de 2012, mas, dois meses antes, foi encontrar Ratzinger em Milão, no Encontro Mundial da Família, em junho de 2012.

“Ele disse a Ratzinger: ‘É hora de sair. A Cúria não muda. Aqui não se consegue fazer nada’”, afirmou Fausti. Seis meses depois da morte de Martini, Bento VI anunciou sua renúncia, em fevereiro de 2013.

Quando soube que Bergoglio havia se tornado o Papa Francisco, padre Fausti aprovou: “Finalmente! Esperava desde Gregorio Magno um Papa assim”, declarou o Padre, que em vida praticou ações e professou valores muito próximos aos do garoto que se tornou superior provincial dos jesuítas da Argentina aos 37 anos e que pagou caro por sua postura contra a participação de religiosos na luta armada contra a Ditadura Militar em seu país nas décadas de 70 e 80.

“Ele era muito jovem e ganhou muito destaque. Mas era contra a luta armada. Então o mandaram para estudar psicologia na Alemanha. (...) Aí pensaram: ‘Deve ser anticomunista.’ E o nomearam bispo. E assim se contentaram os jesuítas. E foi por puro acaso que ele virou bispo, depois cardeal e depois Papa !”, comentou mais uma vez o bem-humorado padre.

“Mas, desta vez, foi eleito pelas razões certas. Porque conseguiu mudar a Cúria. Se um bispo é realmente inteligente e, como ele, consegue estar com as pessoas reais, em vez de estar fechado em seu episcopado, consegue mudar a mentalidade”, declarou Fausti, que fez doutorado em fenomenologia da linguagem na universidade de Münster, na Alemanha, e se tornou professor de teologia na universidade.

Respeitadíssimo não só pelos tantos livros, aulas na universidade e pelo trabalho social, mas também pelas centenas de missas que celebrou na igreja milanesa de San Fedele, Fausti não era do tipo de homem que gastava palavras à toa. Ainda que rezasse a missa todos os dias até o fim da vida, não era de jogar conversa fora. Como afirmou um dos imigrantes que vivia e trabalhava na cascina, “ele sabia muito, tinha muito o que dizer, mas nunca foi homem de fazer discurso de mais de 20 minutos”.

A julgar por sua prosa concisa e sábia, se entendeu que era a hora de conceder uma entrevista longa ao GSG, é porque acreditou que era de fato importante. Sem perder a fé, o otimismo e o bom humor, Fausti, que nunca quis se tornar padre, mas apenas religioso.“Até que me disseram que eu deveria ser padre; obedeci”, defendeu sua fé no futuro: “Francisco é um Papa que é humano e cristão. Se bem que eu não entenda bem a diferença. Ser cristão é ser humano. É realmente uma coisa bela. Certamente vivemos, em questão de época histórica, a fase mais linda da Igreja. E também do mundo, pois temos possibilidades infinitas, que não existiam antes. Podemos nos destruir ou assumir essa responsabilidade pelo mundo novo”.

Assista abaixo a entrevista em italiano: