Você está aqui: Página Inicial / Internacional / A Europa vai prosperar. Mas o Reino Unido pode estar condenado a uma vida nas margens

Internacional

The Observer

A Europa vai prosperar. Mas o Reino Unido pode estar condenado a uma vida nas margens

por The Observer — publicado 20/06/2012 15h31, última modificação 06/06/2015 17h36
Os eurocéticos britânicos querem a austeridade, o que é absurdo para um Estado com interesses reais a proteger e promover
BRITAIN-MEDIA-POLITICS

O primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron. No país, o consenso é de que é bom estar fora do euro. Foto: Adrien Dennis / AFP

Por Will Hutton

Motoristas de táxi e comentaristas eminentes estão de acordo. O euro é um desastre absoluto. Nunca deveria ter sido lançado. As elites europeias exageraram, prendendo os orgulhosos povos da Europa em uma desastrosa camisa de força sem qualquer mandato democrático ou responsabilidade vigente. Esta é a hora da vingança. Seu colapso não será agradável, mas quanto mais cedo toda a experiência terminar e a Europa se tornar apenas uma associação frouxa de países com livre comércio e taxas de câmbio livremente flutuantes, melhor. Os eurocéticos foram vingados.

Este se tornou um firme consenso na mídia e na política britânicas, e hoje dificilmente parece o momento de contestá-lo. Afinal, a Espanha precisa de um resgate maciço para seu vacilante sistema bancário, incluindo o Santander, tão familiar em todas as ruas principais do Reino Unido, antes da eleição grega neste domingo. Se a Grécia deixasse o euro antes que o resgate esteja concluído, a corrida aos bancos afogaria a Espanha e se espalharia para outros lugares. A UE e o FMI têm apenas alguns dias para evitar uma calamidade. A Europa meridional enfrentaria uma inflação galopante e recessão.

Ninguém sabe o que acontecerá. Agora que a Espanha conseguiu seu socorro, a Alemanha aceitará uma união bancária europeia plena antes do final de junho, em que todos os países da Zona do Euro garantam mutuamente os depósitos bancários e as dívidas bancárias, uma supervisão bancária comum e meios conjuntos de garantir que todo banco da Zona do Euro tenha capital suficiente. Isso deveria cortar a ligação tóxica entre a crise bancária e a crise da dívida pública. Eu também aposto que o próximo governo grego fará um acordo para permitir que continue no euro com menos austeridade.

Além disso, uma combinação de dinheiro ultrabarato e grandes gastos em infraestrutura em todo o continente, mais uma vez aceitos com relutância pela Alemanha, começará a levantar a economia europeia. A UE terá saído do atoleiro e o sistema se manteve, porque afinal os custos da ruptura ou para que qualquer país saia eram simplesmente proibitivos.

Mas a situação é perigosamente volátil e os alemães podem demorar demais para agir. Talvez enfrentemos meses de corrida aos bancos e pandemônio e o euro seja reduzido basicamente a um bloco do norte da Europa, incluindo França e Alemanha, mas não a maior parte da Europa meridional. A grande questão é que, de um jeito ou de outro, o euro terá sobrevivido de alguma forma, porque os países membros terão se unido. E o que restará será incomensuravelmente mais forte e mais integrado – uma área do euro com uma união bancária, governança comum da política fiscal e estruturas políticas equiparáveis. Não um superestado federal, mas um novo amálgama de nações-estados com uma nova arquitetura internacional – e com uma identidade europeia recém-forjada.

Um dos subprodutos da crise é que todo europeu adquiriu consciência da interdependência do continente. O que acontece na Grécia, Espanha, Irlanda, França ou Alemanha afeta todos os outros. Gostemos ou não, precisamos coexistir. Nesse caso, este se torna um momento de opção existencial para o Reino Unido. Os membros da Zona do Euro não estão lutando pelo euro apenas porque os custos do colapso são terríveis. A Europa deve ter uma ordem monetária para sustentar suas ambições de ser um mercado único.

A desvalorização, considerada uma panaceia em todo o espectro econômico e político britânico, certamente funciona para um país individual se ele puder se desvalorizar em relação aos outros, que mantêm suas moedas estáveis. Mas, como argumentou Keynes de modo tão eficaz, se a desvalorização se tornar a política padrão em todo o sistema – a tentação em um mundo de taxas de câmbio flutuantes –, a consequência é o desastre. É um convite para que todo mundo adote políticas econômicas prejudiciais aos vizinhos, tentando fixar sua moeda para reforçar suas exportações e minimizar as importações, como a China faz há 30 anos. Um mercado único precisa de uma ordem monetária adequada – uma proposta central keynesiana. Essa não é uma doutrina das elites europeias. É como um mercado único pode funcionar para todas as suas populações.

E é por isso que a Europa pós-crise será tão dura para o Reino Unido. A UE que sobreviver com seu euro será o centro da ordem europeia. Ela definirá as taxas de juros e a política fiscal que se tornarão a referência para todos os outros países europeus. Será o maior e mais desejável mercado na Europa e definirá as regras de como o comércio será conduzido em sua jurisdição. Já está acontecendo. Importantes ministros e autoridades reconheceram que o Reino Unido precisava concordar com a união bancária – com consequências incalculáveis para a City –, mas poderia fazer pouco ou nada para moldá-la.

A regulamentação financeira será organizada em Bruxelas em benefício dos países membros do euro. Se não gostarmos, podemos suportá-la. Será generalizada, da economia à mudança climática.

Existe um deleite geral por não fazermos parte desse superestado emergente – uma linguagem que representa mal o que a Europa está se tornando. Um referendo vai cimentar nosso afastamento ou mesmo levar à saída. Os céticos dizem que o modelo que devemos seguir é a Suíça. A verdade é que seríamos uma espécie de Grande Guernsey, sofrendo um esgotamento econômico acelerado. Orgulhosamente, vamos flutuar a libra, apesar de evidências de que na prática a flutuação significa – para um país com um enorme setor financeiro internacional como o nosso, que suga capital do exterior – a supervalorização sistêmica e a evisceração de nosso setor de produtos comercializados: uma máquina do apocalipse econômico.

Nossa indústria de automóveis, de propriedade estrangeira, dependente das exportações para o mercado único europeu, gradualmente migrará de volta para a Europa ou a Ásia de baixo custo. Em uma série de interesses estratégicos chaves – finanças, agricultura, pesca, transporte, energia, tecnologia da informação e segurança de dados –, a política referencial será feita em Bruxelas, Paris e Berlim. Elas conduzirão a UE através da crise; suas dívidas serão entre si, e não conosco.

Para os britânicos eurocéticos, nada disso conta. A visão é de uma austeridade infinita, priorizando a redução do déficit acima de tudo e a evisceração do contrato social no país, e uma recusa a reconhecer a interdependência no exterior ou que haja qualquer necessidade construtiva de criar regras e uma ordem internacional, especialmente na Europa. Devemos todos decididamente apertar os cintos e exportar nosso desemprego para os outros, em um mundo de taxas de câmbio flutuantes e regras internacionais inexistentes. É uma doutrina de árida mesquinharia e de extremo nacionalismo, uma linha editorial apropriada para jornais populistas de centro-direita, mas absurda para um Estado com interesses reais a proteger e promover. O Reino Unido ficou à margem da crise do euro. Ficará ainda mais distante do que virá a seguir, deixando-nos não apenas economicamente diminuídos, mas culturalmente encolhidos.

Leia mais em guardian.co.uk

registrado em: