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Obamania

A Europa ama Obama

por Gianni Carta publicado 07/11/2008 23h37, última modificação 25/10/2011 13h39
Até o premier italiano, Silvio Berlusconi, expressou a fidelidade de seu governo aos Estados Unidos de Obama, a seu modo

Até o premier italiano, Silvio Berlusconi, expressou a fidelidade de seu governo aos Estados Unidos de Obama, a seu modo

A obamania sacode o Velho Continente. Após semanas de crise financeira numa Europa onde decresce o poder aquisitivo e aumenta o espectro da recessão – mais as contínuas imagens televisivas de carnificinas provocadas pelo terrorismo e infindáveis guerras iniciadas por W. Bush – finalmente uma notícia fabulosa: Barack Hussein Obama, o candidato democrata, será o novo presidente dos Estados Unidos. 

A vitória ao cargo máximo da política, na terra do Tio Sam, de um homem de 47 anos com segundo nome Hussein, filho de pai queniano e muçulmano e mãe americana branca, traz bons presságios. A União Européia, e a maior parte de seus 27 integrantes, recebe Obama de braços abertos por um simples motivo, a política externa unilateral pilotada pelo provinciano W. nos últimos oito anos se tornará multilateral. 

Neste novo contexto, o Reino Unido continuará, como sempre, sendo o eterno aliado dos EUA. Mas com uma diferença: Obama tem maiores afinidades com o chanceler trabalhista Gordon Brown do que W. tinha com Tony Blair, este seu braço direito na invasão do Iraque. 

Visto que Berlim e Washington não atravessaram um período róseo sob W. (Berlim quer retirar seu contingente do Iraque), a chanceler alemã, Angela Merkel, anseia pela chegada ao poder de Obama. Já Luis Rodríguez Zapatero, o carismático premier socialista da Espanha, retirou o contingente espanhol do Iraque assim que eleito em 2004. Obama pretende, eventualmente, fazer o mesmo. Os dois certamente terão excelentes relações. 

Até o premier italiano, Silvio Berlusconi, expressou a fidelidade de seu governo aos Estados Unidos de Obama, a seu modo. Berlusconi, primeiro, escalou-se a conselheiro do novo presidente. Depois, fez observações sobre o “bronzeado” do democrata. Integrantes do primeiro-ministro da Itália não foram tão sutis e declararam, logo após o anúncio do resultado, que quem iria mesmo comemorar era a Al-Qaeda. 

Na última visita de Berlusconi a W. nos EUA, um tablóide britânico publicou fotos que certamente comprovam o carinho de um pelo outro. As imagens, vale ressaltar, são um pouco constrangedoras. Sorrisos nos lábios, uma foto mostra Bush e Berlusconi com braços entrelaçados num jardim. Em outra, vemos Bush carinhosamente conduzindo Berlusconi para uma sala, com as duas mãos nas costas do premier italiano. 

O francês Nicolas Sarkozy também se entende bem com W. Dado o excesso de guerras e estragos geopolíticos provocados por W. no Oriente Médio, o governo de Sarko se mostrou leal ao amigo americano fazendo ameaças contra o Irã. E fez mais: levou o dossiê Irã para a UE, que agora preside. 

Eminências pardas do Élysée garantem que Sarko, de 53 anos, e Obama têm tudo para se tornar aliados: são pragmáticos, da mesma geração, ambos filhos de imigrantes... Contudo, Sarko tem um problema em relação a Obama que poderá ser prejudicial à relação dos dois. A obamania está ofuscando a fama de Sarko, ou melhor, o fenômeno bling-bling. Obama é ainda mais popular na França que no seu próprio país. 

A pedido do diário Le Figaro e da rede de tevê LCI, a OpinionWay constatou que 85% dos franceses entrevistados avaliam a vitória de Obama como uma “coisa boa”. Em contrapartida, nos EUA a OpinionWay revelou que apenas 43% julgam Obama uma “coisa boa” e 21% “nem um coisa boa nem ruim”. Pior: 35% dos americanos consideram a escolha do senador de Illinois uma “coisa ruim”. 

A própria reação do editorialista do conservador Figaro, Paul-Henri du Limbert, deixa transparente que Obama superou, na Europa, até as ainda bem demarcadas divisões ideológicas. Escreveu Du Limbert: “No imediato, à direita como à esquerda, estamos encantados com a história do mestiço da classe média que se tornou presidente dos Estados Unidos”. 

Du Limbert, ao escrever “no imediato”, está coberto de razão. Espera-se muito de Obama: paz entre Israel e os territórios palestinos, negociações com grupos insurgentes como Taleban e Hezbollah, e com países como, entre outros, Paquistão, Síria e Rússia, a ratificação do Protocolo de Kyoto, e, até o final de 2009, a conclusão de um acordo do meio ambiente. Isso sem contar o plano para lidar com a crise financeira e econômica global. 

Desilusões não são uma impossibilidade. Os europeus terão de lidar com o indelével protecionismo do mercado americano praticado pelos democratas. Poloneses e outros povos do Leste Europeu, ainda traumatizados pela Guerra Fria, se sentem ameaçados por Moscou. Pesquisas indicam que naquela região a maioria simpatiza com Obama, mas consideravam John McCain o homem certo para defender seus países. De qualquer forma, a obamania na Europa é sinal de que há luz no fim do túnel.