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Internacional

Israel e Irã

A estratégia de Netanyahu falha

por Gianni Carta publicado 14/11/2011 10h04, última modificação 14/11/2011 10h04
A ameaça de atacar o Irã é blefe arriscado e põe em risco o mundo todo, não somente Israel
Mahmoud Ahmadinejad

A ameaça de atacar o Irã é blefe arriscado e põe em risco o mundo todo, não somente Israel. Foto: Ruzbeh Jadidoleslam/AP

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu revela-se um péssimo estrategista ao ameaçar um ataque unilateral contra o Irã. A intimidação, por conta do desenvolvimento de armas atômicas naquele país, demonstra o elevado grau de irracionalidade do premier israelense. Isso porque a ameaça é, na verdade, um blefe bastante arriscado, com potenciais consequências catastróficas para o mundo, não somente para Israel.

“Netanyahu quer assustar os Estados Unidos e a comunidade internacional para angariar apoio a um ataque militar ou para impor sanções econômicas contra o Irã”, argumenta o cientista político iraniano Hesam Houryaband.

 

Mas a chamada comunidade internacional (leia Conselho de Segurança da ONU) não parece tão conivente em relação às expectativas de Netanyahu. De saída, Moscou já avisou que vetará novas sanções contra o regime de Teerã no Conselho de Segurança da ONU. A -China, outro dos cinco países que são membros permanentes do Conselho, agirá da mesma forma. E, às vésperas de um pleito presidencial, Barack Obama não pretende envolver Estados Unidos em outra guerra no Oriente Médio. Isso, claro, não impede que os EUA, Reino Unido e França, os outros três integrantes do Conselho, tentem impor sanções ao Irã.

Um fator negativo para as tentativas de Jerusalém de encurralar Teerã foi o novo relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), publicado na terça-feira 8. AIEA alega ter “sérias -preocupações com as possíveis dimensões militares do programa nuclear do Irã”. Podemos confiar, contudo, na AIEA?

Teerã, isso é transparente para numerosos observadores, não está mais próximo da produção de uma bomba atômica do que em 2003. O relatório, em suma, não traz nada de novo. Jeff Lewis, do Institute of International Studies, com sede na Califórnia, diz que não existe uma corrida iraniana rumo à bomba atômica. Entretanto, Uzi Even, da Universidade de Tel-Aviv, em Israel, disse para a BBC News: “Parece claro, com base no último relatório da AIEA, que o Irã possui todos os requisitos para desenvolver um dispositivo nuclear viável”. Ou seja, tudo depende do ângulo através do qual o observador avalia o quadro e como ele pretende agir.

Após a divulgação do relatório da AIEA, até políticos israelenses ainda mais irracionais que Netanyahu, como o ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, revelaram um certo comedimento. Lieberman enfatizou a necessidade de novas “sanções paralisantes contra o Irã”. No entanto, o ministro emendou: “A opção militar é a última possível e a pior, mas ela tem de continuar sobre a mesa e pronta para ser colocada em prática”.

Sem o apoio da China e da Rússia e de novas sanções econômicas por parte do Conselho de Segurança contra Teerã, como agirá Israel? Após tanto ameaçar Teerã, há quem creia em um ataque iminente. Segundo fontes dos serviços de inteligência, o tabloide britânico Daily Mail aventa que o ataque estaria marcado para o Natal ou pouco depois.

Israel já bombardeou com êxito o Iraque e a Síria para destruir projetos nucleares. Contudo, o Irã é um caso bastante diferente. Como diz Houryaband, o cientista político iraniano, Teerã retaliaria contra qualquer ataque israelense. Mais: grupos militantes como o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, em Gaza, também atacariam Israel. Por tabela, os Estados Unidos, pressionados pelo seu forte lobby judaico, e outros países Ocidentais, entrariam no conflito.

Assim, a possível contenda fratricida no Oriente Médio se esparramaria mundo afora, mesmo porque o Irã chamaria outros países para o conflito. Na quarta-feira 9, o general iraniano Massud Jazyeri, chefe do Estado-Maior das forças iranianas, deixou isso claro: “O Irã, em caso de ataque às suas instalações militares, destruirá Israel”. Pior: a resposta iraniana “não se limitará ao Oriente Médio”. O motivo? Simples: as autoridades iranianas consideram que Israel está agindo em sintonia com os Estados Unidos. E, é óbvio, não é preciso ser especialista em Oriente Médio para deduzir que Barack Obama, como todos os presidentes norte-americanos desde a criação de Israel, em 1948, age em uníssono com o Estado israelense.

Impotente no seu país, Obama parece estar tão desnorteado quanto Netanyahu cercado por revoltas nos países vizinhos. Por isso, vale especular, ele é conivente com a falta de lógica, ou de racionalidade, por parte do governo -israelense. Às vésperas de um polêmico voto na ONU para aceitar a Palestina como Estado membro, novos assentamentos israelenses continuam a pipocar em terras palestinas. Israel engajou-se em uma nova queda de braço com a Autoridade Palestina. E onde está a lógica de comprar -briga com a Turquia? E por aí vai.

Nesse quadro negro, Netanyahu não é o único a padecer de falta de racionalidade. A nova onda começou com o presidente Shimon Peres, outrora um político tido como competente. No domingo 6, Peres declarou: “A possibilidade de um ataque militar contra o Irã está mais próxima do que uma opção diplomática”.

Esse cenário de desvario se estende ao povo. Numerosos israelenses sabem que um ataque contra Israel seria o início de uma guerra global. No entanto, a maioria, segundo pesquisas, daria sinal verde ao ataque.

O que levanta a seguinte questão: quem é mais irracional, israelenses ou iranianos? Para Bradley Burston, do diário -israelense Haaretz, é difícil fazer uma distinção, embora, de forma geral, os iranianos ganhem de Israel quando mesquitas são profanadas, árabes-israelenses ou palestinos são atacados ou marginalizados, leis antidemocráticas suprimem a língua árabe, assentamentos são erguidos etc. etc.

“Vocês querem uma previsão?”, indaga Burston. “Benjamin Netanyahu será mais longevo no poder do que Mahmoud Ahmadinejad na política. E se as coisas caminharem como nos dois últimos anos, Benjamin Netanyahu excederá em duração a democracia israelense.”

Para Houryaband, “o discurso de Ahmadinejad de destruir Israel não reflete a política exterior do Irã, e muito menos a posição do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei”. Ahmadinejad, em outras palavras, faz um discurso doméstico. O Irã, continua Houryaband, quer armas nucleares para proteger seu regime. A razão? Teerã viu a invasão do Iraque e da Líbia. “Qual será o próximo da lista?” Ninguém atacará a Coreia do Norte ou o Paquistão, ambos com programas nucleares avançados. E Israel, vale dizer, também é uma potência atômica, embora jamais tenha confirmado ou desmentido dispor de um arsenal nuclear.

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