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Opinião

A estratégia chinesa para aumentar sua importância mundial

por Paulo Yokota — publicado 17/11/2014 05h25
Enquanto a influência dos EUA diminui, o país asiático pressiona a comunidade internacional e se prepara para ser a primeira economia do mundo nas próximas décadas
LI XUEREN / APEC CHINA 2014 / XINHUA / AFP
Reunião da APEC

Reunião da APEC (Fórum de Cooperação Econômica Ásia Pacífico): encontro reforça protagonismo chinês

Existe um conceito muito utilizado nas análises políticas que sempre um espaço deixado vazio logo será ocupado por alguém. O que se constata é que os políticos de todo o planeta estão avaliando que os Estados Unidos, pelas razões mais variadas, estão reduzindo suas influências em todo o mundo, limitados tanto pela disponibilidade de recursos como da falta de um consenso interno sobre a sua política externa. Parte deste espaço está sendo ocupado pela China, que, segundo estimativas de muitos analistas, tende a ocupar o lugar da primeira economia do mundo nas próximas décadas, quer seja estimado pelo poder de paridade de compra, quer pelo dólar cotado no mercado, ainda que em termos per capita os chineses estejam muito longe dos países mais desenvolvidos.

Há que se constatar que a China e o seu governo, que conta com a liderança inconteste do presidente Xi Jinping, conseguiram dar um importante passo na sua estratégia visando aumentar sua importância no cenário internacional, promovendo a reunião da APEC – Fórum de Cooperação Econômica Ásia Pacífico realizada no seu país. Lá estavam Barack Obama, Shinzo Abe, Vladimir Putin e os demais mandatários dos países que compõem este agrupamento, até mesmo países que contam com divergências com relação à China, como o Japão ou os Estados Unidos. Eles deram um claro sinal positivo para o prosseguimento dos entendimentos que objetivam um acordo de livre comércio com alcance limitado. Esta iniciativa contrapõe-se ao TPP – Trans-Pacific Partnership, liderado pelos Estados Unidos, que não consegue um avanço similar, ainda que tenha iniciado as conversações com alguns anos de antecedência.

A oportunidade da reunião de tão importantes líderes foi aproveitada também para avanços dos entendimentos regionais como bilaterais, o que proporciona créditos adicionais para a China. Três acordos atingidos possuem importância mundial, como os estabelecidos entre os Estados Unidos e a China, tratando das facilidades adicionais para o comércio de produtos relacionados com a tecnologia da informação que deverá ser discutido no âmbito da OMC – Organização Mundial do Comércio, os objetivos de redução dos lançamentos de gases que provocam efeitos sobre os climas, que deverá ser discutido nas Nações Unidas, e as medidas visando à redução das tensões militares entre os dois países, que comandam blocos importantes dos seus aliados.

Ainda que os países envolvidos tenham justificados receios sobre a predominância da China, inclusive do ponto de vista político e militar, acabam adotando uma posição pragmática, admitindo que a economia chinesa tenda a continuar num longo período de crescimento de sua demanda, com perspectivas de importar produtos de outros países, seus componentes e matérias-primas, como parte de um mundo globalizado. Sua população ainda conta com elevado percentual vivendo no meio rural, que tenderá a aumentar a sua urbanização no decorrer dos próximos anos, suportando o seu desenvolvimento econômico, ainda com problemas.

Ao mesmo tempo, a elevada poupança chinesa admite espaços para investimentos em outros países, notadamente no aperfeiçoamento da infraestrutura sempre necessária na região, contando com bancos para esta finalidade. Tudo indica que o bloco asiático já apresenta um núcleo central básico, onde outros países da Bacia do Pacífico podem acrescentar mercados adicionais, mesmo que não exclusivos.

As pressões que vêm sendo exercidas pela China, com finalidades mais simples, permitiram obter esta aprovação dos demais países. Mesmo com as diferenças étnicas, econômicas, culturais e religiosas não se pode esperar que os entendimentos atingissem objetivo como os que foram obtidos na Comunidade Europeia, mas o mínimo de entendimentos comerciais aparenta vantajoso para a maioria dos países, até porque o desenvolvimento da China ainda não consolidou a complexidade já existente nos Estados Unidos ou na Europa.

É preciso admitir, também, que o consenso, mais difícil nos países de plena liberdade política, torne-se mais fácil na China que ainda tem o comando centralizado no seu Partido Comunista, mesmo que se enfrentem dificuldades para a implementação das reformas em andamento, que visam maior prioridade para a ampliação do seu mercado interno.

Parece que todos admitem que com as dimensões chinesas, notadamente de sua população, nas próximas décadas será inevitável que sua economia venha a ultrapassar a dos Estados Unidos, onde Barack Obama não consegue consolidar sua liderança política. Ainda que muitos setores da economia chinesa já contem com tecnologias de ponta, em outros necessitam ser suplementados pelos países membros da APEC.

A China já vem estabelecendo acordos de fornecimento, como a energia do gás da Rússia bem como de outros suprimentos de matérias-primas da Austrália. Todos os participantes da APEC esperam poder contar com acordos similares que permitam fomentar suas exportações.

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