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Eleição americana é batalha pelo futuro do capitalismo

por The Observer — publicado 26/07/2012 04h01, última modificação 06/06/2015 18h19
Romney encarna um sistema dominado pela engenharia financeira que usa empresas como fichas de cassino
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“Veja bem, se você é bem-sucedido, não conseguiu isso sozinho. Quando temos êxito, ele se deve a nossa iniciativa individual, mas também porque fizemos as coisas em conjunto." Foto: Nicholas Kamm/AFP

 Por Will Hutton, de Nova York

“Veja bem, se você é bem-sucedido, não conseguiu isso sozinho. Quando temos êxito, ele se deve a nossa iniciativa individual, mas também porque fizemos as coisas em conjunto." Essas foram as palavras do presidente Obama na semana passada, quando fazia campanha em Roanoke, Virgínia. E acrescentou: "Se você é bem-sucedido, alguém lhe deu uma ajuda no caminho".

Ele citou grandes professores, pesquisas do governo, estradas, pontes e todo o tecido do sistema americano como diferentes maneiras nas quais "alguém no caminho" contribuiu para seu êxito. Para o eminente pensador britânico Leonard Hobhouse, essa era a essência do liberalismo social, agora defendido por um presidente americano. Hobhouse argumentava com fervor que a riqueza capitalista era criada conjuntamente pela interação entre a sociedade, o capital social e o empreendedor. O investimento governamental, apropriadamente financiado pelos impostos, era a precondição para um capitalismo bem-sucedido.

A Fox News, autoapregoada a guardiã americana da livre iniciativa capitalista no século 21, assim como o Pravda defendia o comunismo, abordou a questão prontamente. Em meu hotel em Nova York, assisti a um inflamado comentarista da Fox começar a atacar o socialismo, e logo após a deixa foi aproveitada pelo candidato republicano à presidência, Mitt Romney, como seria de se esperar de qualquer político republicano. O discurso realmente "revela o que ele [Obama] pensa sobre nosso país, sobre a livre iniciativa, sobre a iniciativa individual e sobre os Estados Unidos", ele declarou. "Alguém entre vocês montou um negócio próprio? Quem fez isso, levante a mão." Segundo uma combinação prévia, mãos se ergueram. "Engula isso, senhor presidente", ele concluiu.

A recuperação econômica mais lenta e hesitante desde a Segunda Guerra Mundial já suscitava questionamentos ansiosos sobre como recuperar o dinamismo econômico americano, mas a candidatura de Romney à presidência cristalizou um debate fundamental sobre o capitalismo que irá respingar na Grã-Bretanha. Este é um potencial ponto de virada para ambos os países. Romney, cuja fortuna foi feita na Bain Capital, a empresa de private equity da qual ele foi fundador, proprietário e diretor, encarna todos os males (ou forças, dependendo da opinião) de um capitalismo dominado pela engenharia financeira, em que as empresas servem de fichas de cassino. Isso levou inclusive à derrocada de Romney quando desafiou Ted Kennedy na disputa pelo Senado em Massachusetts em 1994. Os democratas estão decididos a usar o tema para derrubá-lo pela segunda vez. A Bain Capital era e é um produto tipicamente derivado do boom de 25 anos do crédito e dos preços dos ativos que começou no início dos anos 1980. Romney farejou a oportunidade. Ele passou a angariar dinheiro junto a investidores privados, dizendo que a meta era empregar técnicas de consultoria da Bain em empresas já montadas e compradas criteriosamente por seu potencial de recuperação. Isso, somado à significativa alavancagem, garantiria retornos financeiros estratosféricos, inclusive para Romney.

O público entende que se você financiar a compra de uma casa com um banco que lhe empreste 90% do valor pedido, e a casa dobrar de valor, então sua própria participação de 10% se multiplica 11 vezes. Romney aplicaria a mesma lógica não para a atividade geradora de riqueza de criar empresas inovadoras, mas para comprar empresas existentes. Os bancos estavam ávidos para emprestar somas vultosas para esses esquemas, conforme fizeram até o crash financeiro em 2008. Os lucros das próprias empresas pagariam o serviço da dívida da Bain.

A Bain Capital valorizava a empresa -- levando a produção para países de baixo custo, vendendo terrenos supérfluos e reduzindo orçamentos de pesquisa e investimento. E o aumento geral dos preços dos imóveis ajudaria ainda mais as coisas. Quando os lucros das empresas subiam, elas entravam no mercado de ações por um preço bem mais alto, e assim todo mundo ficava muito rico.

O private equity sempre foi polêmico. Algumas empresas maduras e mal administradas se beneficiaram do tratamento com private equity, mas esta se tornou uma enorme indústria especializada em fazer negócios, alavancagens extravagantes e autoenriquecimento, deixando para trás um rastro de desastres. Na Grã-Bretanha, a EMI foi mutilada pelo fundo de private equity de Guy Hands e agora é provável que seja engolida pela Universal. Em The Buyout of America [A liquidação da América], o jornalista americano Josh Kosman afirma que muitas das empresas envolvidas nos maiores negócios de private equity da década de 1990 tiveram desempenho inferior ao das empresas que continuaram independentes. Ele identifica cinco companhias -- Stage Store, American Pad and Paper, GS Industries, Dade Behring e Details -- que pagaram polpudos dividendos e honorários à Bain antes de falir.

O fato é que o fundamento do private equity não é criar valor através de inovação e investimento. Isso demandaria que os donos desses fundos assumissem outro risco (os resultados da inovação são incertos), além do risco de alavancagem, dificilmente o ponto de mira no negócio. Ao contrário, o requisito fundamental é inflar a empresa, para que ela possa ser revendida nos mercados públicos gerando grandes lucros de capital, exatamente como diz Obama.

A Bain Capital é parte do problema, não a solução. A receita do private equity abateu o ânimo dos inovadores dos EUA, enquanto deixava seus bancos soterrados por enormes dívidas insolúveis. O modelo de negócios agora está falido e os EUA têm de começar a questionar se o tipo de capitalismo supostamente individual da Bain realmente gera crescimento e empregos. E a resposta é: não, o que gera?

Obama lançou o contra-argumento. Inovação implica assumir riscos, e a menos que haja mecanismos para dividi-los entre os setores privado e público os riscos e a inovação não são necessariamente assumidos. "A internet não se inventou sozinha", argumentou Obama. "Pesquisas do governo criaram a internet para que todas as empresas pudessem ganhar dinheiro com ela."

Ele poderia ter ido bem mais longe. O mesmo se aplica a indústrias que variam da aeroespacial à farmacêutica. Todo o ecossistema que abriga a inovação -- patentes, direitos autorais, finanças, universidades, pesquisa, transferência de conhecimento, regras de propriedade, regulação para assegurar padrões unificados -- é criado conjuntamente pelo público e o privado. Empreendedores e empresas inovadores têm uma relação constante de tentativa e erro com seus clientes, fornecedores e outros, não estando isolados em um silo individualista.

A Fox News faz a acusação de que isso é socialismo absurdo e perigoso. O capitalismo anglo-americano, enrascado em dívidas e baixo investimento e superado em inovação por seus concorrentes na Ásia e na Alemanha, está em uma encruzilhada. O que está mais claro do que nunca é que a reação dos conservadores é idiota. Se Obama e os democratas conseguirem derrotá-los nos EUA, haverá ramificações globais -- uma oportunidade para reconhecer o que realmente faz o bom capitalismo funcionar. Finalmente, o jogo avança.

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