Você está aqui: Página Inicial / Internacional / A derrota de Putin

Internacional

Wálter Maierovitch

A derrota de Putin

por Wálter Maierovitch publicado 11/12/2011 17h12, última modificação 11/12/2011 17h12
O Putin visto na véspera da eleição estava nervoso, inseguro. A face do premier revelava saber que o seu partido, Rússia Unida, sofreria uma pesada derrota. Não deu outra

Na véspera da eleição de escolha dos 450 deputados que comporão a Câmara Baixa (Duma) da Federação Russa, notou-se que, além da plástica e do Botox, outro componente atuara na mudança fisionômica do premier Vladimir Putin, chamado de czar Putin pelos opositores nacionalistas, guiados por Vladimir Zhirinovski e pelos comunistas do partido KPRF, liderados por Gennadi Zyuganov.

Nas telas dos televisores não mais aparecia um Putin de feição imperturbável e ar de segurança. Aquela expressão exibida, por exemplo, quando mantinha alta popularidade. Ou a mostrada em setembro deste ano ao anunciar, sem perceber estar disparando um tiro no pé, avoltaà Presidência em março de 2012. Na ocasião, Putin confessou à celebração, quatro anos atrás, de acordo de troca de cadeiras com Dmitri Medvedev, atual presidente e que será o primeiro-ministro na próxima primavera.

 

O Putin visto na véspera da eleição estava nervoso, inseguro. A face do premier revelava saber que o seu partido, Rússia Unida, sofreria uma pesada derrota, com perda da maioria qualificada apta a mudar a Constituição de 1993. Não deu outra, seu partido perdeu cadeiras e ficou com a maioria simples, a exigir alianças e concessões. Os jovens e a classe média esperaram até a eleição para a Duma para dar o troco em Putin e tentar atrapalhar seus sonhos de permanecer no poder até 2024.

Esses jovens inconformados votaram pela primeira vez. A propósito, não eram nascidos ao tempo do comunismo soviético nem acompanharam a abertura política (Perestroika) de Mikhail Gorbachev, nos ano s80. A força jovem usou a rede web e conseguiu fazer de Alexey Navalni, o blogger da anticorrupção, o grande destaque das eleições.Paraesses jovens, as ações de protesto não terminaram com as eleições para a Duma e não serão afetadas pelas 400 prisões realizadas pela polícia nem pelas críticas veiculadas na televisão oficial.

Para o atual presidente, Medvedev, e a justificar a vitória que teve sabor de derrota (apenas 237 cadeiras, em 2011), ganhar eleição era mais fácil quando o preço do petróleo atingia 110 dólares o barril. Nessa época lembrada, o partido Rússia Unida contava com 64,3% dos votos. Já Putin preferiu falar em mudanças e esqueceu a acusação já feita de que governos estrangeiros estavam financiando grupos de oposição.

A reação dos jovens estudantes e da classe média decorreu do inconformismo com o nível de corrupção e a insatisfação com a rede de sustentação de Putin. Uma rede de poder formada por oligarcas fiéis, amigos dos tempos do início da sua carreira política,em São Petersburgo, e ex-companheiros de KGB, apelidados pela oposição de siloviki (durões, em tradução livre).

Fora isso, existe uma inquietação por parte dos estudantes e da classe média quanto àvoltade velhos métodos. Aí são sempre lembrados os casos do advogado Sergei Magnitski, trucidado na prisão depois de denunciar uma megafraude fiscal, e da jornalista Anna Politkovskaia, assassinada em outubro de 2006 por revelar, no jornal Novaya Gazeta, violações a direitos humanos contra chechenos. Esses graves fatos são posteriores a maio de 1998, quando a Federação Russa ratificou a Convenção Europeia e ficou aberta a possibilidade de qualquer cidadão bater à porta da Corte de Direitos Humanos de Estrasburgo.

Com efeito. No domingo, 110 milhões de russos estavam autorizados a votar e o partido de Putin, que em 2007 conquistara 315 cadeiras na Duma, só elegeu 237 deputados neste 2011.

O partido comunista (KPRF) foi o que mais cresceu. Conquistou 94 cadeiras, quando, em 2007, tinha apenas 57. O Rússia Justa, de oposição, mas sempre disposto a negociar vantagens com Putin, passou o Liberal-Democrático, que era a terceira força em 2007. Com os resultados anunciados, o Rússia Justa pulou de 38 deputados, em 2007, para 61, enquanto os nacionalistas (liberal-democratas) conquistaram 58 cadeiras. Em 2007 eram 40.

Comose percebe, Putin não tem mais a cômoda maioria de antes. A queda, apesar das insinuações de Hillary Clinton, tira a força dos discursos de fraude eleitoral. Na maioria das cidades da Sibéria, os comunistas venceram com facilidade e os resultados na região do Cáucaso, com o Rússia Unida goleado, eram esperados: na Chechênia, o partido de Putin obteve 99,48% dos votos, mostrando a força da repressão, depois da tentativa de independência, os massacres de 2001 e a saída do exército russo em 2009. Não se deve esquecer que sete partidos participaram do pleito, mas a cláusula de barreira (7%) tira as pequenas agremiações opositoras do páreo.

 

registrado em: