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Internacional

Crise econômica mundial

A década perdida para a Europa

por Clara Roman — publicado 09/08/2011 16h27, última modificação 06/06/2015 18h16
Em entrevista a Clara Roman, professor de Economia da Unicamp explica alguns mitos sobre a crise econômica mundial e aponta que a Europa é quem encontra-se na pior situação. Foto: Giuseppe Cacace/AFP

O rebaixamento da nota de classificação de risco dos Estados Unidos, pela Standard e Poor’s, gerou uma nova onda de pânico no mercado global. A segunda-feira 8 abriu com queda nas bolsas de valores do mundo inteiro – a Bovespa foi uma das mais prejudicadas, com queda de 8,08% - e o Banco Central Europeu tratou de fortalecer os países do bloco para evitar novos rebaixamentos, por meio da injeção de capital e controle de taxas cambiais.

O fenômeno repete a reação dos mercados após a quebra do banco Lehman Brothers, em 2008, iniciando um processo de recessão econômica mundial que se estende até hoje. Curiosamente, os títulos americanos foram os únicos que apresentaram crescimento nesses últimos dias, o que, segundo o professor Francisco Lopreato, do departamento de Economia da Unicamp, sinaliza a confiança dos mercados no investimento, em contrapartida à decisão da SeP.

O professor, no entanto, aponta que dificilmente a economia mundial irá escapar de uma nova queda. A diferença é justamente que os países já gastaram tudo o que podiam em 2008 e não possuem mais recursos para combater a nova queda. A Europa, diz ele, atravessa um período difícil, do qual não conseguirá se levantar nos próximos dez anos, uma década perdida, à semelhança da crise que a América Latina viveu nos anos 80. Ninguém sairá ileso, mas o professor aponta para a possibilidade de o Brasil aproveitar o momento para fortalecer sua indústria.

Confira abaixo a entrevista completa:

CartaCapital: Qual sua opinião sobre a decisão da agencia Standard e Poor’s em rebaixar a nota dos EUA?

Francisco Lopreato: Concordo que os Estados Unidos já não têm a posição que tinham há alguns anos. Esse debate no Congresso americano, entre democratas e republicanos, capitaneados pelo Tea Party, trouxe uma insegurança, mas daí a rebaixar é um pouco demais, considerando a situação ainda dos Estados Unidos no mercado financeiro internacional. Não é por outra razão que desde a sexta-feira os títulos americanos subiram. Todo mundo correu para títulos americanos. É um sinal de que o mercado pouco considerou a ideia da agência. Eu achei precipitado. Se os Estados Unidos não são AAA, como ficam os outros países? Teria que fazer uma reclassificação de vário outros. A decisão precipitou esse movimento. Provavelmente, o que vai ocorrer é que os EUA vão tentar desqualificar a avaliação da agência.

CC: O senhor acredita que vão ocorrer rebaixamentos sucessivos?

FL: Para serem coerentes, deveriam ocorrer outros rebaixamentos, como na França, porque a questão é relativa. Para a agência ser coerente, consistente na análise,  teria que ser revisto o ranking todo.  Mas, no meio dessa crise toda, se rebaixar vários países, a coisa complica. Os Estados Unidos são AA+ e a França é AAA, será? Ninguém correu para título francês. O mercado buscou segurança no título americano.

CC: Na semana passada, o Congresso aprovou a elevação do teto da dívida. Isso não demonstra uma preocupação com a dívida?

FL: É óbvio que,  com a crise, com a expansão da atuação do Estado americano para salvar várias empresas, em diferentes áreas, no setor industrial e bancos para evitar uma catástrofe, uma crise violentíssima, o governo ampliou consideravelmente seu gasto e seu déficit. Isso bateu no teto da dívida. Essa ideia de ampliar o teto da dívida é uma coisa corriqueira, já aconteceu inúmeras vezes e nunca foi motivo de uma discussão mais aguda no Congresso americano. Era quase que imediata. O Congresso americano tem uma participação na definição dos gastos públicos e no controle das finanças públicas muito maior do que, por exemplo, o Congresso brasileiro. Essa negociação sempre foi uma coisa trivial nos Estados Unidos. O grande problema não foi econômico, foi político, um acirramento de discussão política entre os dois partidos, que transbordou obviamente para a economia. Se não fosse essa questão política, essa questão se daria como se deu em várias outras oportunidades. Claro, o mundo está passando de uma dificuldade fiscal por causa do papel que os governos tiveram para segurar os efeitos da crise de 2008.

CC: O senhor acredita que está tendo uma divulgação excessiva que gera um alarmismo exagerado?

FL: A mídia acompanhou a disputa no Congresso Americano, fez o papel dela, retratou a insegurança, o movimento interno, mas juntou a questão econômica com a questão política interna americana. Junto a isso, a agência rebaixou a dívida. Estão criando uma série de fatores, provocando o "efeito manada", que é quando o pessoal olha e sai correndo. Daqui a pouco sossega. Isso pode acarretar consequências graves para os países da Europa, que estão numa situação mais complicada que os EUA. A situação nos Estados Unidos, não é que esteja fácil, mas a situação na Europa está bastante complicada. Fora a Alemanha, que está numa situação tranquila, o crescimento europeu é pequeno, a dívida é grande. Isso pode ter um efeito muito grave.

CC: E quanto aos gastos governamentais?

FL: De fato, os governos gastaram muito e com isso elevou a dívida pública dos governos. Dificilmente, irá se conseguir fazer uma nova rodada de gastos como foi feito em 2008 e a situação está bem mais complicada. Isso porque, em 2008, se gastou muito e se acreditou que economia iria se recuperar rapidamente. Houve uma recuperação, mas longe do que eles imaginavam. Ela não caiu, mas andou meio de lado. Sem o crescimento, fica difícil digerir esse estoque de dívida que foi feito.  O que levou a isso foi uma desregulamentação do sistema bancário. Deu-se dinheiro para os bancos e não se cobrou, não foi feito nada, não se cobrou uma regulamentação dos bancos, imaginando que só com a atuação do mercado iria retomar o crescimento da economia, e voltando a crescer, esse efeito que foi provocado pelo aumento de gastos da dívida seria diluído no tempo, não teria problema, mas não foi o que aconteceu

Depois da crise de 1929, foi feito uma serie de regulamentações.  Tanto a economia europeia quanto a americana não voltaram a crescer. Os níveis de desemprego nos Estados Unidos é alto, o crescimento, ainda que melhor que na Europa, foi muito pequeno. A medida que se criaram outras tensões, o receio do peso da dívida começa a aflorar e isso pode provocar  uma nova recessão como a de 2008, mas com governos com um raio de manobra bem menor do que se tinha em 2008, e com grande chances de acarretar um grande mergulho. A probabilidade de queda é grande.

CC: Quais seriam saídas para lidar com essa situação?

FL: Aí que é complicado viu, vão ter que lidar com as mesmas armas que utilizaram antes, mas com raio de manobra muitíssimo menor. A resposta que está sendo cobrada do Banco Central Europeu é de fazer um processo de ajuste e se eles levarem por esse lado, não tem saída mesmo, o movimento vai ser de levar uma crise. O que eles propuseram para os países, para a Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália, França, Inglaterra, é o processo de contenção de gastos. Isso, nesse quadro, vai acabar provocando a crise, em algum momento vão ter que relaxar isso. Se eles não relaxarem, é aquela coisa: cortar gastos em momento de recessão é enxugar gelo. Vão fazer esse processo e arrastar essa crise por um período bastante longo. Não deve ter recuperação para a economia europeia tão cedo. A Europa vai ter níveis baixos de crescimento, que deve se arrastar por período relativamente grande.

Nos anos 80, nós tivemos a crise da América Latina, a década perdida e o Japão teve também sua década perdida nos anos 90, até mais de uma década. Provavelmente, a Europa está caminhando para isso.

CC: Quais as razões?

FL: O problema fiscal surgiu porque o governo teve que intervir pesado para socorrer o problema bancário em 2008. Eles não estavam com problema fiscal, que veio com o peso que o governo teve para intervir na economia. Fizeram isso e não cobraram nada em troca. Essa crise vai levar a uma definição de medidas mais significativas das que foram feitas em 2008. O governo vai ter que fazer um ajuste fiscal, mas vai ter um ajuste financeiro também. Vai ter que existir um movimento de regulamentação da atuação do sistema financeiro. Para não deixar solto novamente.

CC: Por que explodiu em 2008 e por que explodiu novamente agora?

FL: A partir dos anos 80, houve um processo de desregulamentação do sistema bancário e isso tomou uma magnitude enorme, tanto nos Estados Unidos, como na Europa, no mundo inteiro. No Brasil, a regulamentação do sistema bancário é bem mais estreita que em outros países, felizmente, e por isso não aprofundou tanto nessa crise. Nos países avançados, essa desregulamentação foi muito aguda, e isso propiciou uma série de movimentos, que eles chamavam de inovações financeiras, que criou uma complexidade de formas financeiras nunca vistas. Mundo financeiro é isso, em algum momento pode provocar uma crise, quando, ninguém sabe.

O economista Nouriel Roubini dizia desde 2005 que a crise estava para chegar. É uma crise mais ou menos previsível, porque o volume de inovações financeiras e complexidade foram se tornando intrincadas dentro do sistema financeiro, era claro que iria haver uma reversão. Quando, ninguém podia saber. E se instalou no subprime americano.

CC: Pode ser considerado fruto da imprudência?

FL: Num sistema liberalizado completamente, quem vai ficar fora?. Se está ganhando, porque ser prudente? Se as operações estão sendo lucrativas, algum banco vai deixar de fazer, por causa da prudência?

Sempre acham que a coisa está bem, até dar errado. Tem uma chance de ganhar. Todo mundo pensando assim, a história acaba em algum momento, como aconteceu nos Estados Unidos. É um castelo de cartas, que contamina o mundo inteiro.

CC: E os emergentes? Podem sair ganhando?

FL: Numa crise dessas proporções, ninguém sai ganhando, em princípio. A questão é ver quem perde menos. Uma crise dessas afeta a todos, não tem como os países saírem ilesos dessa. É um problema que afeta todo mundo, inclusive emergentes. No caso brasileiro, o Brasil depende muito das commodities, do preço das commodities.  Vamos ver como vai ser comportar o preço. Se o preço cair, isso afeta diretamente o mercado brasileiro.

Nós tivemos uma série de lançamentos que as empresas estavam buscando capitais na bolsa para alavancar investimentos e que perderam muito com as quedas na bolsa. Não tem como não ter uma retroação e isso afeta a atividade de uma maneira geral. Por exemplo, os gastos públicos são afetados porque a arrecadação vai cair junto. Em geral, esses países perdem. Vai depender da atuação de cada país, por exemplo, no caso brasileiro, estamos sofrendo problemas graves: um deles é a questão do câmbio, que rebate diretamente no setor industrial. Então, podemos ser compelidos e obrigatoriamente atuar nessas duas questões. Vai depender de como o Brasil vai defender o setor industrial, que pode ser bastante afetado, com a valorização do câmbio, que já está muito grande e causa a perda de exportações.

A China tem uma relação muito forte com os Estados Unidos, tem um volume muito grande de títulos americanos, é dona de 3 trilhões de dólares de reservas americanas. Mas eu não acredito que vai ter qualquer problema na dívida americana, então eles não devem ter problemas. Provavelmente, como o mercado chinês é voltado para o mercado interno, o país vai sofrer alguma coisa, mas nada que atrapalhe o crescimento, talvez uma taxa um pouco menor, mas não vai ter recessão como nos EUA. No Brasil, com essa crise, acredito que tenha uma desaceleração ainda maior.

CC: Qual risco de bolha no Brasil?

FL: Não acho que tenha esse risco. O mercado brasileiro é bem regulamentado.  Os bancos brasileiros não se alavancaram e entraram nos pacotes de inovação financeira como os bancos europeus. Estão bastante enquadrados nas regras. Eu não acredito em problemas. O que comentaram muito é o preço dos imóveis, que subiram muito. O setor dos imóveis teve uma expansão bastante grande. Não dá pra caracterizar isso como bolha, como aconteceu no mercado subprime americano, porque o crédito no mercado imobiliário brasileiro é de uma porcentagem baixa e os bancos não fizeram as loucuras no mercado subprime brasileiro como nos Estados Unidos. O que eu imagino que aconteça é um arrefecimento desse mercado imobiliário, que estava explodindo. Algumas empresas que se alavancaram demais podem sentir, mas é diferente de uma bolha como aconteceu nos EUA, que é o mercado como todo. Talvez perca o dinamismo, mas não acredito em bolha.

CC: E quanto à expansão do crédito, há algum perigo?

FL: Quando o governo Lula começou a subir os créditos, o nosso patamar era de 20% do PIB. Estamos em um patamar muito baixo. A base era muito pequena. Mais do que dobramos, porque nosso patamar era muito pequeno. Já no final do governo Lula, o ritmo de expansão disso já era muito menor. As famílias começam a se endividar, mas ainda não está em um patamar alto.

CC: E quanto à política de juros?

FL: Primeiro de tudo, não dá para pensar em aumentar mais. O mercado estava esperando mais um aumento. Imagino que o BC não vá fazer a insensatez, como o Meirelles que, às vésperas da queda do Lehman Brothers, aumentou os juros. Acredito que, em principio, já parou, não tem mais aumento de juros. E aí, a partir desse movimento, dependendo do desenrolar, teremos que abaixar a taxa de juros.

CC: E quanto à guerra cambial?

FL: O governo está no caminho certo, que é mexer no mercado de derivativos. É esse o caminho certo. Com medidas mais paliativas, tem efeito de curto prazo. Se mexe no IOF , o mercado se adapta muito rápido, mas mexer no derivativos, é uma coisa mais contundente. O câmbio está muito valorizado, o tesouro tem que estar muito ativo. O governo deve continuar nesse mesmo caminho.

CC: Qual o risco para o Brasil de manter as reservas internacionais em dólar?

FL: Não tem para onde correr. Vai continuar em dólar, não tem muito que fazer. Não tem como ser diferente. Hoje, o Euro é impensável. Não sabe nem se o Euro vai sobreviver.

De uma maneira geral, a posição do governo brasileiro é bastante razoável. A atitude é de cautela, mas tem uma preocupação clara que o governo deve manter o nível de atividade interna. O Brasil Maior está no caminho certo.

Numa crise dessas, todos os países sofrem, mas os possíveis ganhos vão depender da atuação, é como os países reagem a isso. Temos a oportunidade de buscar um apoio ao setor industrial, no sentido da alta tecnologia. O Brasil Maior está no caminho certo, aponta para uma questão importante, que é o apoio ao setor industrial, para que ele ganhe mais competitividade e possa sair fortalecido, mesmo numa situação de crise mundial.

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