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A Costa do Marfim e a volta da 'Françáfrica'

por Rede Brasil Atual — publicado 12/04/2011 16h47, última modificação 12/04/2011 16h47
Na Costa do Marfim, a queda de Gbagbo é uma vitória militar da França e secundada pelas forças que apoiavam o candidato declarado vencedor pelas potências ocidentais

Por Flavio Aguiar, da Rede Brasil Atual

Na Costa do Marfim, a queda de Gbagbo é uma vitória militar da França e secundada pelas forças que apoiavam o candidato declarado vencedor pelas potências ocidentais

Eu prometera Portugal (cuja situação comentei no Jornal Brasil Atual - enviei também um clip para o Seu Jornal, da TV dos Trabalhadores). Mas vai agora a situação na Costa do Marfim.

Não sou eu que estou dizendo: é o The Independent, o El País, o New York Times, o Time, a Foreign Affairs, o The Guardian. A queda de Laurent Gbagbo em Abidjan é uma vitória militar da França, apoiada pelas forças da ONU, e secundada pelas forças que apoiavam Alassane Ouattara, o candidato declarado vencedor pela França, pelas potências ocidentais, pela ONU e os vários países da região - nessa ordem hierárquica.

Na prática, o desenlace dessa fase do enfrentamento armado na Costa do Marfim entre partidários dos dois candidatos, significa o retorno ao primeiro plano da política do país e da região da perspectiva da "Françáfrica". Essa expressão - Francefrique em francês - foi cunhada por Houphuet Boigny, o presidente/ditador daquele país africano e que o governou desde a década de 60, quando houve a independência, até sua morte, em 1993.

Boigny foi um jovem sindicalista e depois político marfinense, que, mais do que liderar, tornou-se o fiel da balança da independência. Primeiro, teve afinidades com os comunistas, sem se tornar membro do partido. Depois entrou para a política... francesa, tendo se tornado representante outre-mer no parlamento em Paris.

Com o processo de independência, firmou-se como um aliado da França e do Ocidente na região. Daí a idéia da Françáfrica. Agiu encarniçadamente contra a influência soviética e chinesa na África; opôs-se ao MPLA de Angola; favoreceu Kasabuvu e Moise Tshombe no Congo, contra Patrice Lumumba, que terminaria assassinado. Era próximo de todo o establishment conservador francês. Moveu a capital administrativa do país de Abidjan (que continua sendo o centro econômico) para sua cidade natal, Yamoussoukro.

Nesta fez construir a maior basílica do mundo, a de Nossa Senhora da Paz, mais larga, mais comprida e mais alta do que a do Vaticano. Construiu um Centro para Convenções Internacionais suntuoso. Visitei-o em 1996, e nele deparei com uma sala de conferências para mais de 300 pessoas, toda decorada exclusivamente com madeiras do Brasil, de mogno à araucária, de jacarandá a pau-rosa etc.

De certo modo, os conflitantes atuais, Gbagbo e Ouattara, são "crias" do reinado de Boigny, que, por sua vez, era garantido pela presença permanente de duas divisões do exército francês, em território marfinense - aliás, o maior exportador de cacau do mundo. Ouattara cresceu à sombra de Boigny; foi seu ministro, e tornou-se um quadro importante do FMI; já Gbagbo desenvolveu vínculos com os socialistas franceses - não rompidos até hoje, pois uma facção do PS continua a apoiá-la - e foi exilado na França durante vários anos.

Voltando ao país ainda antes da morte de Boigny, que o anistiou com a frase "a árvore perdoa o passarinho que a deixou", ou algo parecido, conseguiu eleger-se presidente em 2000. Era professor de história de inclinação marxista (cheguei a ve-lo uma vez, durante minhas visitas ao país como professor convidado de literatura brasileira). Chefiou num governo de tendência social-democrata, mas aos poucos foi mergulhando na intrincada e violenta política do país e na disputa entre grupos armados.

Depois de sua ascensão à presidência, eclodiu uma revolta separatista no norte do país, que faz fronteira com Burkina-Faso e o Mali. Na raiz dessa revolta está uma das políticas de Boigny, que atraía imigrantes dos países vizinhos com concessão de terras, para povoar o território e acrescer a produção agrícola.

Na região proliferou um movimento que sempre estranhou tanto a elite (afrancesada e católica) do sul do país quanto a política de proximidade com o PS de Gbagbo. Esse movimento tornou-se apoiador, há tempos, de Ouattara. Em 2002 o confronto virou uma autêntica guerra civil, com combates inclusive em Abidjan e nas cercanias, mas a partir do controle que manteve na capital Gbagbo conseguiu impor-se e consolidar-se no poder.

O processo de "paz", garantido por tropas da ONU, levou à última eleição, no ano passado, com um resultado controverso. A Comissão Eleitoral deu a vitória a Ouattara (sempre apoiado pelo norte, pela França e seus aliados); a Comissão Constitucional, que tinha a última palavra, anulou votações na região norte e deu a vitória a Gbagbo.

A Comissão de Observadores da ONU inclinou-se por Ouattara, secundada por países africanos da região. Ficou a pergunta sobre se essa inclinação foi pre-determinada, além de insuflada pela França, cuja preferência por Ouattara era evidente desde sempre. Inclusive levantou-se hoje que este último e Sarkozy são amigos bastante próximos.

A violenta intervenção da França no conflito, desequilibrando-o em favor do candidato da oposição, foi apontada, além da defesa de interesses econômicos e geo-políticos, como atendendo a um interesse interno de Sarkozy, que tem estado mal nas pesquisas para a futura eleição nacional, ameaçado tanto pela esquerda quanto pela extrema-direita, além de em seu próprio território político de centro-direita, com a possibilidade da candidatura de Dominique Strauss-Kahn que, de membro do PS francês, evoluiu para diretor-presidente do FMI.

Sem os blindados e os helicópteros da ONU e da França, a resistência de Gbagbo teria, no mínimo, durado mais. E o argumento de que o ataque contra o palácio presidencial atendeu à necessidade de "proteger civis" e poupar suas vidas carece de credibilidade, dada a evidente preferência por Ouattara e a má-vontade em relação a Gbagbo, ambas manifestas há tempos.

Aliás, esse quadro refletiu-se em boa parte do comportamento da mídia, que erguia a voz num fortissimo con brio sempre que havia denúncias de violação dos direitos humanos por parte das tropas deste, e tocava piano baixíssimo sempre que as denúncias atingiam as tropas favoráveis a Ouattara, isso numa guerra hoje sabidamente sujíssima de parte a parte. A Al Jazeera chegou a publicar uma análise criteriosa desse comportamento da mídia internacional.

A guerra, na Costa do Marfim, ainda não acabou. Pode ser que venha a acabar, se Ouattara, o vencedor no campo do conflito, conseguir colocar-se na posição de magistrado, mediar conflitos num país dividido, neutralizar os grupos armados mais belicosos de seu próprio lado e agir no sentido de reconciliar as diversas facções políticas, étnicas e religiosas. Significativamente, por exemplo, as comemorações mais ruidosas de sua vitória se deram no bairro de Abobo, densamente povoado por migrantes do norte do país.

Embora em condição de desigualdade, os dois contendores estão agora "frente a frente" no Hotel du Golf, um dos mais requintados de Abidjan, transformado em quartel do oposicionista, protegido pela ONU, e agora também em prisão do derrotado e de sua família, formalmente também sob proteção da mesma ONU que ajudou a derrotá-lo.

Mas tudo isso vai depender agora também da disposição de Sarkozy e de seu movimento de ressucitar a "Françáfrica" de Boigny. Diante desse quadro turbulento e enevoado, soa grotesca a observação da secretária de estado norte-americana Hillary Clinton de que a queda de Gbagbo deve servir de lição para os ditadores do mundo que desrespeitam a vontade de seu povo. É uma frase de alguém que olha para a história de seu próprio país e só consegue ver um desenho animado de Walt Disney. Certamente, não dos melhores.

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