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A coroação de Putin III

por Gianni Carta publicado 28/09/2011 11h48, última modificação 28/09/2011 18h15
Putin pode permanecer no poder até 2024, superando Brezhnev no cargo e só perdendo para Stalin, este na liderança por 31 anos

Os russos sempre tiveram seus czares. Sob diferentes regimes ideológicos, a lista é longa: Pedro, o Grande, Alexandre III, Lenin, Stalin. E tem até uma mulher, Catarina II.

E agora temos Vladimir Putin, eleito presidente pela primeira vez em 2000, reeleito em 2004, e agora, após quase quatro anos como primeiro-ministro, visto que a Constituição não lhe permitia um terceiro mandato consecutivo, será candidato para a presidencial de março de 2012.

Foi o que anunciou o leal Dmitry Medvedev, o atual presidente, durante o Congresso do Partido da Rússia Unida, em 24 de setembro. Putin, de 58 anos, com aqueles seus enigmáticos olhos de ex-espião da KGB, concordou: “Será uma grande honra”. Em seguida, o atual primeiro-ministro disse à plateia que esse pacto entre ele e Medvedev foi selado há anos.

Na esteira, Putin emendou que Medvedev seria seu primeiro-ministro. Outra humilhação? Por que Medvedev aceitou esse tipo de pacto? A falta de uma resposta para essa pergunta significa a ausência de um sistema democrático naquele país.

Com uma economia à deriva, a corrupção rola solta. A mídia é manipulada pelo governo, e jornalistas intimidados. Para se ter uma ideia, somente em novembro de 2010 houve 60 casos de violência contra jornalistas. Oleg Kashin, por exemplo, do diário Kommersant, a reportar sobre os desmatamentos para viabilizar a construção de uma rodovia entre Moscou e São Petersburgo, foi um dos casos mais flagrantes. Isso porque cenas da surra que levou foram reprisadas na internet, e em seguida por redes de tevê.

As imagens mostraram como um dos dois agressores manteve Kashin no solo enquanto o outro lhe desferiu cerca de 50 vigorosas pancadas com uma barra de ferro. Com traumatismo craniano, fraturas nas mandíbulas, numa perna e em vários dedos, o jornalista permaneceu longo tempo em coma induzido.

Slava Alekseyev, jornalista russo, me disse que um dos suspeitos das agressões contra Kashin é o movimento pró-Kremlin Nashi (“nosso”). “Trata-se de um agrupamento como a juventude hitlerista que na Alemanha nazista exterminava os inimigos do regime sem recorrer ao tribunal.” Algo como os esquadrões da morte no Brasil, compara Alekseyev.

Nem todos têm elos com o Kremlin. Mas seria uma coincidência o aumento da violência com a chegada na Presidência de Putin, em 2000? E como explicar os confrontos do Kremlin com Mikhail Khodorkosvski, presidente da gigante de petróleo Yukos preso por fraude fiscal em 2003? Khodorkovski, de 48 anos e ainda atrás das grades, foi encarcerado por financiar legendas de oposição a Putin. Caso contrário, como explicar a caterva de empresários a sonegar impostos ainda soltos?

Quando Medvedev chegou ao poder, em 2008, falou em “modernização”, por exemplo. A relação de Medvedev com Barack Obama parecia render frutos. Aqueles anos sob o sinistro ex-integrante da KGB pareciam terminados.

No entanto, agora vemos, mais uma vez, o quão opaco permanece o tablado político russo. Nesse contexto, Medvedev, se ele teve alguma credibilidade, já não tem mais nenhuma. De saída, Alexei Kudrin, respeitado ministro das Finanças considerado, inclusive, para o cargo de primeiro-ministro, avisou que não serviria num governo de Medvedev. Enraivecido com a declaração de Kudrin, Medvedev lhe disse para renunciar. Foi o que fez Kudrin.

Se a política russa è impenetrável, certo é que nesses meses a preceder as parlamentares de dezembro, e o subsequente pleito presidencial, serão um espetáculo circense.

O grande personagem nesse show responde, é claro, por Vladimir Putin. O premier/presidente não beija bebês. Isso é coisa para políticos europeus afetados. Putin preferiu abrir sua campanha presidencial já no final do mês passado numa Harley Davidson, seguido por uma gangue de harleiros, que, à sua imagem, trajavam os manjados casacos pretos de couro.

Os harleiros adentraram a cidade portuária de Novorossiysk, que comemorava sua libertação durante a Segunda Guerra Mundial. A multidão, parece, curtiu a cena animada pelo hino dos motoqueiros, os “Night Wolves”. No seu discurso, Putin chamou os bikers de “irmãos patriotas”.

Putin, á imagem de Mussolini, também gosta de ser fotografado de torso nu. O vimos caçando tigres, em 2007, na Sibéria. Sempre a mostrar o torso, apareceu pescando, ou a cavalo, também na Sibéria. E sempre o vemos aplicando um golpe de judô em algum infeliz. Segundo vários relatos, Putin, teria recentemente feito uma plástica para tirar bolsas localizadas abaixo dos olhos. O espião, assim como seu amigo Silvio Berlusconi, também seria um adepto do Botox.

Há histórias muito piores a envolver Putin. Andrei Lugovoi teria contaminado o chá do ex-agente da KGB Alexander Litvinenko, em Londres, com plutônio. Litvinenko morreu logo em seguida, em novembro de 2006. Putin não permitiu a extradição de Lugovoi de Moscou para Londres. O mistério continua, e os britânicos até hoje não entenderam o que aconteceu na sua capital.

Graças a Medvedev, o mandato presidencial é agora de seis anos, não quatro. Assim sendo, é provável que Putin permaneça no poder até 2024. Isso, claro, se ele for novamente candidato em 2018. Assim, ele superará Leonid Brezhnev, que ficou 18 anos no poder. E só perderá para Stalin, este na liderança do país por 31 anos. De qualquer modo, Putin não será uma nota de rodapé na história dos czares russos.

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