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Entrevista

A ambígua No-Fly Zone

por Gianni Carta publicado 28/03/2011 10h00, última modificação 06/06/2015 18h17
Por que a resolução da ONU se expõe a interpretações conflitantes, na opinião do especialista Ben Barka. A Gianni Carta
A ambígua No-Fly Zone

Por que a resolução da ONU se expõe a interpretações conflitantes, na opinião do especialista Ben Barka. A Gianni Carta

Especialista em políticas americana e europeia da Universidade de Valenciennes, Mokhtar ben Barka analisa as repercussões da Resolução de Conselho de Segurança 1.973 nos Estados Unidos e na Europa.

CartaCapital: É a política doméstica a levar Obama a transferir a liderança militar para a Otan na Líbia?

Mokhtar ben Barka: A atitude de Obama é o resultado do medo que os Estados Unidos têm de se atolarem numa guerra prolongada. Sim, no início a guerra pareceu ter objetivos claros: intervir para proteger civis. Agora muita gente se indaga qual será o paradeiro da Líbia. Considere a síndrome do Iraque. A zona de exclusão aérea lá imposta durou dez anos. E houve casos prévios no Vietnã, e agora não somente no Iraque, mas também no Afeganistão.

CC: Então por que os EUA aderiram à aliança?

MBB: Porque não podem ficar afastados da arena internacional
e deixar a França na liderança da intervenção. Lembre-se: há petróleo na Líbia. A Líbia tem uma história irônica: foi bombardeada por Ronald Reagan em 1986. Em seguida, George W. Bush tornou-se amigo de Kaddafi. A Europa preocupa-se mais do que os EUA com direitos humanos na Líbia. Não estou dizendo que Washington não considera questões de direitos humanos, mas nos EUA os interesses nacionais vêm sempre em primeiro plano.

CC: Nicolas Sarkozy quis forjar uma aliança anglo-francesa para continuar a reforçar a zona de exclusão. Mas parece que a Otan conduzirá as operações militares. Sarkozy perdeu sua influência diplomática?

MBB: Talvez Sarkozy tenha agido com demasiada rapidez. Isso tem a ver com a sua personalidade. Vale sublinhar que essa intervenção para controlar uma zona aérea de exclusão implica a morte de civis. Sarkozy não esperava a decisão da Alemanha de ficar fora da coalizão. No início, os EUA mostraram-se relutantes. Washington reconsiderou o plano, mas deixou claro que sairia da Líbia tão logo fosse possível.

CC: Sarkozy ultrapassou os limites da resolução?

MBB: Sarkozy não violou a Resolução 1.973. O problema é a ambiguidade da própria. O que é ou não permitido? Mas Sarkozy tem razão ao dizer que o mundo árabe não gosta da Otan. Donde sua sugestão de uma aliança anglo-francesa, com a participação de nações árabes a supervisionar as operações militares na Líbia.

CC: O ministro turco para a Europa tem fundamentos para acusar Sarkozy de explorar a Líbia para suas próprias ambições eleitorais?

MBB: É um argumento válido. Mas, em geral, não se pode colocar em dúvida a reputação da França quanto a direitos humanos. Como sempre, paradoxos são a regra na política. Michèle Alliot-Marie, ex-ministra francesa do Exterior, não ofereceu ajuda policial ao regime de Ben Ali no início da revolta tunisiana?

CC: Kaddafi alegou esta ser uma nova ‘’cruzada’’ contra o Islã. O “Guia” pode angariar o apoio de outras nações árabes com esse tipo de discurso?

MBB: Essa possibilidade não pode ser excluída. Kaddafi é perverso. Diz estar lutando contra a Al-Qaeda, e esse não é o caso. Está explorando a lógica de cruzada com todas as suas consequências, inclusive o fanatismo.

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