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60% dos italianos querem a queda imediata de Berlusconi e a volta do decoro e da ética

por Wálter Maierovitch publicado 17/02/2011 08h20, última modificação 21/02/2011 12h18
Berlusconi confunde o público com o privado e, permanentemente, finge não perceber o conflito de interesse entre seus negócios empresariais e os das estatais italianas. Por Wálter Maierovitch
Em pesquisa, 60% dos italianos querem a queda de Berlusconi

O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi. Foto: Christophe Simon/AFP

1. Na madrugada de hoje, o respeitado jornalista Giovanni Floris, condutor do programa televisivo de debates políticos Ballarò (RAI-3), leu, para delírio do auditório lotado, o resultado de uma pesquisa feita por amostragem.

Por ela, 60% dos eleitores residentes na Itália querem a imediata renúncia do primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

2. A maioria dos italianos clama por decoro no exercício do cargo de premiê. Também por ética pública na condução do governo e pelo fim da “meritocracia” instituída do Berlusconi.

Na meritocracia berlusconiana só são abertas oportunidades às detentoras de corpos sexualmente esculturais e desfrutáveis.

Não precisa ser italiano para perceber que a boa imagem internacional da Itália só será recuperada com a substituição do atual chefe de governo.

3. Não só as orgias do premiê incomodam e envergonham a Itália.

Berlusconi confunde o público com o privado e, permanentemente, finge não perceber o conflito de interesse entre seus negócios empresariais e os das estatais italianas.

O premiê se coloca como vítima de uma Magistratura voltada, segundo afirma, a cassar a vontade popular expressa por votos e derrubá-lo por sentenças.

O certo é que Berlusconi — que só fala em vontade da maioria e preservação do sistema democrático — quer usar isso como escudo de impunidade. A experiência brasileira mostra que o então presidente Fernando Collor de Mello, eleito com grande votação, acabou cassado por fato ocorrido quando no exercício do cargo de presidente da República.

No momento, Berlusconi estuda numa manifestação de praça.

Por evidente, ele tentará se contrapor à manifestação de domingo passado quando mulheres, espontaneamente, sem bandeiras de partidos políticos, sem líderes, pediram respeito, dignidade, liberdade e a renúncia de Berlusconi.

As manifestações ocorreram em 230 cidades italianas e, só em Roma, 1 milhão de mulheres estiveram na Praça do Povo em protesto.

Os dois advogados do premiê — deputados colocados na lista de candidatos por determinação de Berlusconi, pois na Itália se elege por lista do partido — falam em incompetência funcional e territorial da juíza que recebeu as acusações e determinou um rito processual mais rápido do que o ordinário. Pela decisão da juíza de instrução preliminar (gip), o processo tramitará num Colégio julgador, composto por três magistradas.

4. Berlusconi é réu (imputado) desde ontem.

Antes era investigado pela Magistratura do Ministério Público de Milão por “concussão” (grosso modo, abuso de função com exigência) e desfrutamento de “prostituição infantil”, no caso da marroquina apelidada de Ruby Rubacuore (Ruby-Rouba Coração).

Os advogados, sem corar, sustentam que Berlusconi agiu como primeiro-ministro quando interferiu na soltura da menor Ruby (estava presa por furto no departamento de polícia).

Só para lembrar, Berlusconi, com o celular do seu agente de segurança, telefonou para o departamento de polícia de Milão (Questura). Então, falou que Ruby era sobrinha do presidente Mubarak e isso poderia gerar um rompimento diplomático prejudicial à Itália, caso a menor não fosse colocada em liberdade.

A mentira era tamanha que Berlusconi achou que a marroquina Ruby fosse egípcia. O então presidente Mubarak enviou nota diplomática de protesto. Negou parentesco e reprovou as declarações de Berlusconi de que, certa vez, ele havia lhe pedido para que tomasse conta da sobrinha.

Parêntese. Ruby era prostituta, comparecia, apesar de menor idade, às orgias (bunga-bunga) nas residências do premiê. Ruby tinha o número do celular de Berlusconi e trocava com ele, antes da prisão, mensagens (mais de 200 estão comprovadas).

Depois do telefonema ao departamento de polícia, Berlusconi enviou para lá a sua antiga higienista bucal Nicole Minetti: por determinação de Berlusconi ao partido, Minetti foi colocada na lista de candidados à vereança e se elegeu pela votação obtida pela coligação partidária.

A menor Ruby foi liberada sob custódia a Minetti. Berlusconi foi participado da soltura de Ruby. No primeiro quarteirão depois do departamento de polícia (Questura), Minetti se despediu de Ruby e esta seguiu na companhia da prostituta com quem morava. Foi essa prostituta quem avisou Berlusconi da prisão de Ruby e dos riscos de vazarem ligações do premiê com uma menor. Como se nota, Berlusconi velava “pela sobrinha de Mubarak”, como disse ter prometido a ele.

5. Para a juíza de instrução preliminar Cristina Censo — que recebeu a acusação para colocar Berlusconi como réu por crimes de desfrutamento de prostituição infantil e concussão — no episódio Ruby não houve, pela prova revelada no curso das investigações, atuação de Berlusconi como premiê, mas no interesse privado.

Assim sendo, concluiu pela competência do Colégio Judiciário da quarta seção do Tribunal de Milão, composto pelas juízas Carmen D’Elia, Orsolina De Cristofaro e Giulia Turri. Afastou, como decorrência, a competência do Tribunal de Ministros (outro órgão judiciário).

Berlusconi e seus advogados-deputados sustentam que, por ter Berlusconi atuado como premiê, a competência para apreciar o caso é do Tribunal de Ministros (órgão judiciário com juízes sorteados).

É a tese que interessa a Berlusconi. Isto porque o Tribunal de Ministro, para processar e julgar Berlusconi, precisa de autorização do Parlamento. Nele, o premiê Berlusconi tem maioria, e a autorização não seria dada.

PANO RÁPIDO. Berlusconi não vai comparecer ao Colégio Judiciário. Quer enviar o caso para o Tribunal de Ministros que, para processá-lo, precisa de autorização do Parlamento, de maioria berlusconiana. Em síntese, ele não quer ser processado. Até porque não abrirá mão da autorização do Parlamento, no caso de ser reconhecida, pela Corte Constitucional (será acionada), a competência do Tribunal de Ministros.

*Matéria publicada originalmente no Terra

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