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Casamento Real

A princesa é pop

por André Siqueira — publicado 30/06/2010 10h14, última modificação 23/08/2010 15h20
A rainha é pop

Após o périplo pela cidade – com o trecho final percorrido no barco Vasaorden, manejado por dezesseis remadores, ao melhor estilo viking –, o casal acenou para o público, do balcão do palácio real. Foto: André Siqueira

O casamento da herdeira do trono da Suécia com o 'personal trainer é um trunfo da corte para conquistar popularidade

A noiva veste minissaia e recebe a aliança de um rapaz de boné, tênis e calças largas, sobre um palco em forma de bolo de casamento. Paródias desta natureza estão entre os protestos mais comuns nas monarquias europeias. Cumprem, no mínimo, a função de quebrar o clima solene que se instala nos países à proximidade de cerimônias reais. Em Estocolmo, o inusitado da cena foi vê-la preceder uma coreografia de rap, como parte das comemorações oficiais das bodas da princesa Victoria com seu ex-professor de ginástica, Daniel Westling, agora príncipe da Suécia.

Mais popular, só mesmo a canção escolhida para dar início ao cortejo de sete quilômetros, em carruagem aberta, após o fim da cerimônia, no último dia 19. Embalada por um coral que, das janelas próximas à catedral, entoavam música erudita, a multidão ouviu o hit pop Love is in the Air à passagem dos noivos. Mais uma prova de que os oito anos de namoro permitiram à corte não só digerir a idéia de ver a princesa – a primeira na linha de sucessão do rei Carl XVI Gustav – se casar com um plebeu como facilitou a aproximação da família real com os súditos.

Tornar a corte mais popular é uma das últimas esperanças de elevar a aceitação da monarquia, que anda com o prestígio abalado. Uma pesquisa recente, publicada às vésperas do casamento pelo jornal sueco Dagens Nyheter, mostra a queda vertiginosa da aprovação do regime nos últimos 15 anos. Em 1996, 70% da população era favorável à monarquia, ante apenas 10% contra. Neste ano, os partidários da corte caíram para 46%, enquanto 25% pedem mudanças no sistema político.

Pior ainda, para os monarcas, é ver que a aprovação mais alta (61%) ocorre na faixa etária mais elevada dos entrevistados, entre 70 e 79 anos. E a reprovação atinge o ápice entre os suecos de 30 a 39 anos – contemporâneos, portanto, da princesa herdeira, nascida em 1977.

Entre os mais jovens, a apatia é o sentimento mais comum, que as duas semanas de comemoração ininterrupta tentavam quebrar. “Não sei porque temos uma família real, mas queria entrar nas festas”, dizia o estudante Dag Oldenburg, de 15 anos. Acompanhado de duas amigas de 16 anos, ele rondava uma das boates montadas especialmente para a ocasião em uma das praças do centro da cidade, com presença proibida para menores de 18 anos.

Entre os convidados de Victoria e Daniel, estavam outros príncipes europeus que desafiaram as tradições e buscaram parceiras fora dos palácios. Entre eles Guilhermo e Johan Friso, filhos da rainha Beatriz da Holanda, acompanhados das respectivas esposas e princesas Máxima e Mabel, a primeira uma executiva argentina e a segunda ativista humanitária, fundadora da ONG War Child. Por mais que essa mistura tenha se tornado uma forte tendência nas cortes europeias, o affair sueco carrega um peso a mais: a expectativa de que Victoria seja a primeira herdeira legítima a assumir efetivamente o trono. Antes dela, só a rainha Cristina, que ascendeu ao trono aos seis anos de idade e renunciou antes dos 30, ao se converter ao catolicismo, em 1654.

A tentativa de transformar a quebra de protocolo em aprovação popular influenciou a data do casamento, que coincidiu com as festividades de entrada do verão – quando o sol se põe depois das 22h e nasce antes das 3h. Daí a participação maciça da população. De acordo com a polícia de Estocolmo, 500 mil pessoas acompanharam o cortejo nupcial. Um contingente, sem dúvida, significativo para um país de nove milhões de habitantes, ainda que as autoridades da capital estimassem presença recorde de turistas estrangeiros. Como a professora Cona Cheng e o engenheiro Yi Kun Peng, que deixaram Taiwan para passar a lua-de-mel na Suécia, numa tentativa de coroar seu próprio casamento com o clima festivo da nobreza europeia. “Quase nos casamos junto com a princesa. Não é o máximo?”, comemoravam.

Pode ser cedo para dizer se a estratégia será capaz de converter republicanos à causa monárquica, mas é de se esperar um reforço no vínculo da família real com os simpatizantes do atual sistema de governo sueco. O consultor empresarial Joachim Vang, de 50 anos, viajou 600 quilômetros com a família até a capital, disputou espaço em meio à multidão por cinco horas só para testemunhar, por 30 segundos, a passagem da carruagem com os recém-casados. E diz ter valido à pena. “A maioria dos que se dizem republicanos fala da boca para fora. Se tivessem de escolher mesmo, ouviriam o coração”, afirmou.

O fascínio das tradições reais encanta até mesmo a quem não apóia a monarquia. A pesquisadora finlandesa Anna-Leena Lastikka, de 33 anos, viajou de barco até Estocolmo para acompanhar a cerimônia, fascinada pela história de amor palaciana. “A Finlândia foi parte da Suécia, e até hoje estudamos sueco na escola. Acompanho a vida da família real e vejo um significado nesta cerimônia, mas estou bastante satisfeita em ter um presidente”, disse a primeira. Em outras palavras, monarquia nos olhos do vizinho é refresco.

Na prática, desde a constituição de 1975, o rei não tem qualquer influencia direta sobre os rumos da política nacional. Tampouco sobre as forças armadas, ainda que ostente a mais alta patente militar. Seu poder está praticamente restrito à seara diplomática, ao representar a Suécia em viagens internacionais e celebrar acordos comerciais. No Brasil, o casal real foi celebrizado pelos projetos sociais mantidos no País pela rainha Silvia, filha de uma brasileira e um empresário alemão, criada em São Paulo, onde o pai trabalhou por mais de dez anos.

O clima carnavalesco nas ruas contrastava com o rigor da cerimônia, transmitida ao vivo nos telões instalados nos pontos de maior concentração do público. A começar pelas proporções da Storkyrkan, a catedral de Estocolmo, relativamente pequena para abrigar um evento internacional. O templo presbiteriano, localizado nas ruas apertadas do centro histórico da cidade, atingiu a lotação máxima com 1,2 mil convidados. Lá dentro, o que se via era o melhor protocolo das cortes europeias e muitos litros de sangue azul. Do lado de fora, uma grande festa popular, com direito a aplausos a cada movimento dos noivos e quando as câmeras focalizavam o rei e a rainha.

Após o périplo pela cidade – com o trecho final percorrido no barco Vasaorden, manejado por dezesseis remadores, ao melhor estilo viking –, o casal acenou para o público, do balcão do palácio real. Durante a noite e a madrugada, ainda tiveram de participar de um baile pós-casamento, com os pais e convidados. Depois de um banho-maria de oito anos até conquistar o direito a viver “felizes para sempre”, só faltou aos príncipes, no dia do sonhado casamento, fazer bom uso da plebeia expressão “enfim, sós”.