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10 milhões de euros por um assassino

por Gianni Carta publicado 09/11/2010 16h33, última modificação 13/10/2011 11h18
O governo sérvio eleva o prêmio pela captura do genocida Ratko Mladic
10 milhões de euros por um assassino

O governo sérvio eleva o prêmio pela captura do genocida Ratko Mladic (à esquerda), símbolo do terror da Guerra na Bósnia. Por Gianni Carta. Montagem sobre fotos de: Pascal Guyot e Manoocher/AFP

O governo sérvio eleva o prêmio pela captura do genocida Ratko Mladic

Quinze anos após ter sido acusado pelo maior massacre desde a Segunda Guerra Mundial, o general Ratko Mladic continua à solta. Mas o cerco parece se fechar. Responsável pela morte de 8 mil meninos e homens em Srebrenica, o sérvio-bósnio Mladic em breve poderá, dizem os mais otimistas, ser julgado pelo Tribunal Internacional para a ex-Iugoslávia, em Haia. Em 1995, o tribunal o indiciou por crimes de guerra em Sarajevo, e por genocídio em Srebrenica.

Seu paradeiro, no caso, seria o mesmo de outros de seus ex-aliados e superiores na guerra civil ocorrida na Bósnia e Herzegóvina entre 1992 e 1995. O mais recente responsável por genocídio e crimes de guerra a ser entregue ao Tribunal Internacional é Radovan Karadzic, ex-líder dos sérvios na Bósnia. Detido em julho de 2008, o poeta e psiquiatra é responsável pela própria defesa. Da mesma forma atuou em Haia Slobodan Milosevic, último presidente da Iugoslávia. Mas o julgamento foi interrompido quando Milosevic morreu de infarto, em 2006.

Mladic, general do exército sérvio-bósnio, é atualmente o mais procurado dos participantes no conflito. No fim de outubro, o governo sérvio elevou a recompensa pela sua captura de 1 milhão para 10 milhões de euros. A polícia sérvia também anunciou ter identificado três locais onde o fugitivo de 68 anos poderia se encontrar. Um deles seria um vilarejo turístico, Arandjelova, no centro da Sérvia.

Os esconderijos mais prováveis seriam dois locais em Belgrado, a capital sérvia. Ou seja, Mladic estaria a viver sob as barbas das autoridades sérvias. A hipótese levanta a seguinte questão: o governo sérvio pretende, de fato, enviar Mladic para Haia?

Meses atrás, Raymond Carter, coronel da Sfor, a força da Otan na Bósnia, incumbido de capturar Karadzic a partir de 2003, me disse: “Há vários elementos que dificultam prender um criminoso de guerra”. Ele é tido por vários compatriotas, incluindo políticos do alto escalão, como herói. E um criminoso de guerra como Mladic dispõe da proteção de uma rede de aliados militares e de serviços de inteligência.

Além disso, acrescentou Carter, “países envolvidos na sua detenção (no caso de Karadzic, os EUA e a França) temem uma carnificina”. Um embate entre forças da Sfor contra as ainda mais potentes forças de Mladic “está longe de ser um passeio no parque”. E mais: a competição entre grupos militares de inteligência dos EUA e França resulta em operações paralelas.

Numa noite de fevereiro  de 2004, o coronel Carter e seus soldados encontram-se na porta do edifício onde está Karadzic. Carter telefona para o quartel-general da Sfor, em seguida para Carla del Ponte, a então procuradora-chefe em Haia. Queria permissão para deter Karadzic. Del Ponte era favorável, mas dirigentes da Sfor teceram as seguintes e inúteis perguntas: qual o número de janelas, quantos automóveis vê no estacionamento? Veredicto dos superiores: inquérito incompleto. O motivo real? As unidades da Otan tinham prioridade na captura de Karadzic – algo que aconteceria somente quatro anos mais tarde.

Interesse em deter  Mladic por parte do governo sérvio não falta. Para integrar a União Europeia, a Sérvia teria de entregá-lo para o tribunal em Haia. Após o aumento da recompensa pela cabeça do general por parte do governo sérvio, Verica Kalanovic, ministra sérvia da Infraestrutura, afirmou: “A Sérvia está determinada a se livrar desse incômodo”.

Mas escassos dias antes da declaração de Kalanovic à União Europeia, a prioridade do bloco parecia não mais ser capturar e julgar Mladic. Apesar da suspeita de que o criminoso estaria escondido em Belgrado, ministros do Exterior dos 27 países membros da UE decidiram dar início ao processo para integrar a Sérvia na União. Processo que pode levar mais de um ano, até antes das legislativas sérvias, em junho de 2012.

Em miúdos: a UE parece ter preferido focar na estabilização da nascente democracia sérvia. Em jogo está cimentar as instituições democráticas antes das eleições legislativas e acelerar as reformas econômicas. Igualmente preocupante  para a UE é o Kosovo. Em setembro, a Sérvia aceitou uma resolução das Nações Unidas. E assim Belgrado decidiu não relançar o debate sobre a independência desse território. A UE continua, porém, a pressionar Belgrado a dialogar com Pristina.

E mesmo se de forma menos incisiva, a comunidade europeia continua a forçar Belgrado a capturar Mladic. Na mesma Belgrado onde, parece, se esconde Mladic, vivia Karadzic. O homenzarrão de 66 anos havia deixado crescer a espessa cabeleira, e uma longa barba branca. Com nome falso, havia se metamorfoseado num guru sociável na sua comunidade.

A captura de Mladic parece ser mais complexa do que a de Karadzic. Ele não só conta com uma rede militar e de inteligência mais fiel como se contenta com uma vida mais espartana. Além disso, é mais ágil na fuga: foi treinado pelos serviços militares de inteligência.

Para muitos sérvios, Mladic permanece um mito. Viveu uma infância na pobreza e seu pai foi assassinado por croatas nazistas. Teve de trabalhar para sustentar a mãe viúva. Sua formação militar ocorreu sob a ideologia comunista de Tito, que manteve em harmonia seis repúblicas multiétnicas. Contudo, com o início da derrocada da Iugoslávia, em 1991, Mladic aderiu à onda nacionalista sérvia. Em março de 1994 uma tragédia mudou sua vida. Ao ler um artigo a descrever o pai como um “assassino”, sua filha Maria, estudante de Medicina de 22 anos, suicidou-se com a arma predileta do pai. Mladic nunca se recuperou. Tornou-se ainda mais violento. Em Srebrenica interrogou suspeitos de “crimes de guerra”.

Em seguida, mandou executar 8 mil homens e meninos de 12 a 77 anos em cinco dias. As famílias das vítimas esperam o julgamento em Haia.

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