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Internacional

Entrevista

Sucessão no FMI: “Os EUA e a Europa vão ter de sentar à mesa e negociar”

por Ricardo Carvalho — publicado 17/05/2011 18h39, última modificação 17/05/2011 19h25
Caso Strauss-Kahn deixe o cargo, direção do FMI deve continuar nas mãos de um europeu, apesar de apelo por mudanças, diz professor Francisco Lopreato, da Unicamp

A eclosão do escândalo sexual envolvendo o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, que foi preso no final de semana em Nova York acusado de tentativa de estupro, antecipou uma discussão sobre a sucessão na liderança do fundo. O assunto, que só seria levantado no ano que vem, quando Strauss-Kahn pretendia se candidatar à presidência da França, acabou ganhando força nos últimos dias, quando analistas internacionais viram no escândalo uma brecha para defender mudanças na direção do fundo - mudanças que incluem maior participação de países emergentes na instituição.

Em artigo do Wall Street Journal, Paul Hannon usou o episódio para defender que o próximo diretor-dirigente do FMI seja um economista de um país emergente. Em seis décadas de existência do órgão, os 10 ocupantes do cargo vieram de países europeus, num acordo com os Estados Unidos que dá a um norte-americano a presidência do Banco Mundial.

O jornal espanhol El País também abordou o tema, enfatizando que a União Europeia resiste em abrir mão de ter um europeu no cargo, apesar do cenário econômico mundial mostrar assimetrias entre o peso das economias emergentes no PIB mundial e as cotas que possuem no FMI. A Europa, por exemplo, controla 29% dos votos no fundo e tem um peso econômico mundial que ronda 20%. A China, que concentra 14% do PIB global, tem apenas 6% dos votos.

Para Francisco Lopreato, professor do Departamento de Economia da Unicamp, são esperadas mudanças nas esferas de poder do fundo para dar espaço aos países emergentes, principalmente a China. Entretanto, o economista não acredita que essa mudança ocorra já na escolha do sucessor de Strauss-Kahn. Confira os principais pontos da entrevista.

CartaCapital: O Wall Street Journal defendeu que a Europa abra mão do seu “direito injustificável de nomear o chefe do FMI”. O senhor acredita que isso venha a acontecer?
Francisco Lopretao:
Eu acho que o próximo presidente do FMI será um europeu. As coisas no fundo não mudam tão rápido, tem uma inércia muito grande. Além do mais, o próprio Strauss-Kahn estava de saída, provavelmente para concorrer à presidência da França e já se discutia quem seria seu sucessor.

Agora, a situação está mudando. Historicamente sempre houve a divisão entre o FMI europeu e o Banco Mundial norte-americano. Com o mundo em que os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) têm uma presença muito forte, há certamente uma tendência para mudanças. Ter um diretor desse bloco na liderança do FMI é algo bastante palpável e que vai acontecer, só que não agora. Para o próximo mandato ou para o outro, talvez. Não tem como as coisas continuarem nesses termos e certamente a regra será rompida. Ela vai ficar insustentável.

CC: As cotas que os países têm no FMI não estão em desacordo com o cenário econômico atual?
FL:
Há pouco tempo, não faz um ano, se rediscutiu a questão das cotas, e houve um aumento da participação dos países emergentes. Houve um aumento que sinalizou a maior presença dessas nações, mas que não mudou o status quo. Eu acho que essa mudança sinalizou muito bem um movimento de mudança, mas também o limite que essa mudança tem hoje. Por isso que eu acredito que o próximo presidente não será de fora do acordo entre europeus e norte-americanos. Nós vamos caminhar para uma mudança ainda maior das cotas, e, com essa maior influência, haverá a possibilidade de revezar a liderança do FMI.

CC: O senhor acredita que o escândalo noticiado, e uma possível saída de Strauss-Kahn do cargo, venham a interferir nos pacotes de ajuda negociados entre o FMI e países como Grécia e Portugal?
FL:
Eu acho que não, o FMI é meio um paquiderme para se mexer. Não é a posição do diretor-executivo que vai mudar alguma coisa. Vai dar uma paralisia até o pessoal digerir o ocorrido, mas eu não acredito que mude propostas tão importantes como os resgates financeiros. Até porque a forma de divisão de poder e de chegar a soluções dentro do FMI é um negócio muito compartimentabilizado. Uma vez tomada uma decisão, a presidência não tem esse poder tão fantástico a ponto de uma mudança inesperada alterar significativamente o rumo das negociações.

CC: O senhor acha que uma possível liderança não europeia no FMI influencie também a hegemonia dos EUA no Banco Mundial?
FL
: O mundo está numa mudança de esferas de poder. Antes, havia um sistema extremamente concentrado nos EUA e secundado pela Europa. Agora nós temos uma presença muito maior de outros países, principalmente da China. Isso, sem dúvidas, vai gerar mudanças. Não vejo como os EUA reverterem esse quadro. Por exemplo: no final dos anos 70, a indústria e a moeda dos EUA estavam sendo questionadas. Só que no início dos anos 80 eles conseguiram reverter a situação. O que era um aparente avanço do Japão e da Alemanha reverteu-se, nos anos 80 e 90, na presença absoluta dos EUA.

Hoje está mais difícil ocorrer essa reversão porque dificilmente os EUA conseguem impor algo a China. Então os norte-americanos vão ter de abrir algum espaço para acomodar o avanço da China. E, consequentemente, os outros países do BRICS vão ganhar algum espaço também. É uma mudança muito lenta, mas é uma sinalização de que a situação não é mais como nos anos anteriores, quando os EUA não tinham que dar satisfações a ninguém. Eles vão ter de sentar à mesa e negociar.

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