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Internacional

Relação conturbada

“O retorno às fronteiras de 1967 é inviável”, diz analista

por Gabriel Bonis publicado 24/05/2011 12h00, última modificação 24/05/2011 14h27
Em entrevista à CartaCapital, Luiz Alberto Moniz Bandeira afirma que o discurso de Barack Obama para a criação de um Estado palestino é dúbio
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Para cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, o discurso de Barack Obama para a criação de um Estado palestino, propondo trocas de terras com Israel, é dúbio. Foto: AFP/Getty Images/ Joshua Roberts

Em um discurso na quinta-feira 19, o presidente dos EUA, Barack Obama, defendeu a criação de um Estado palestino no Oriente Médio. Porém, contrariou Israel, seu aliado histórico na região, ao dizer que os diálogos devem começar com base nas fronteiras da Palestina em 1967. Na época, os israelenses venceram a Guerra dos Seis Dias, ocupando assim a Cisjordânia, Jerusalém Oriental, a Faixa de Gaza, a Península do Sinai e as Colinas de Golã.

Para o cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, apesar de a declaração representar uma inflexão da política dos EUA, as explicações do presidente americano são dúbias. “Obama disse que a base da negociação deve ser as fronteiras de 1967, no entanto, ponderou que estas deveriam ocorrer mediante trocas de terras entre as partes”, diz, em entrevista à CartaCapital.

Ao reunir-se com Barack Obama na sexta-feira 20, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rejeitou a proposta. Contudo, afirmou estar disposto a comprometer-se com a paz na região. Antes do encontro, o premiê declarou que os EUA “não entendem a situação do Oriente Médio” e que a sugestão tornaria as fronteiras com Israel indefensáveis.

A postura agressiva de Netanyahu despertou a crítica da líder da oposição israelense, Tzipi Livni, que considerou o comportamento do primeiro-ministro como desnecessariamente “prejudicial às relações com os EUA, colocando a segurança do país em risco”.

No domingo 22, o presidente americano voltou a ressaltar sua proposta, em um discurso na Aipac - o mais poderoso lobby a favor de Israel dos EUA. Desta vez, defendeu que os ajustes abranjam as transformações ocorridas nas últimas quatro décadas e apontou as fronteiras de 1967 apenas como base para as negociações, o que despertou elogios de Netanyahu.

Para discutir as implicações do discurso de Barack Obama na relação com Israel, a CartaCapital conversou com o especialista, autor de mais de 20 livros, entre eles a Formação do Império Americano, no qual analisa o surgimento do sionismo, a criação de Israel e seu desenvolvimento relacionado aos EUA. Acompanhe abaixo:

CartaCapital - O presidente Barack Obama fez um discurso na quinta-feira 19, afirmando que um Estado palestino deveria ser reconhecido conforme as suas fronteiras de 1967, antes da Guerra dos Seis Dias. O senhor acredita que o posicionamento dos EUA sobre a questão veio em um momento adequado?

Luiz Alberto Moniz Bandeira Essa declaração pareceu indicar alguma inflexão da política dos Estados Unidos vis-à-vis Israel, mas suas explicações são dúbias. No discurso sobre o Oriente Médio ele disse que a base da negociação para o estabelecimento de um Estado palestino deve ser as fronteiras de 1967, antes da Guerra dos Seis Dias, quando lsrael ocupou a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, até então pertencentes à Jordânia, a Faixa de Gaza e a Península do Sinai (então com o Egito) e das Colinas de Golã (da Síria). Ponderou, no entanto, que as negociações, com base nas linhas de 1967, deveriam ser mediante “swaps”, trocas de terras acertadas de comum acordo entre as partes.

Não podia falar de outro modo, devido possivelmente à reação do poderoso grupo de lobby israelense American Israel Public Affairs Committee (Aipac), que tem muito peso sobre a política doméstica nos Estados Unidos, pois financia candidaturas tanto de democratas quanto de republicanos, e consequentemente exerce forte influência sobre sua política internacional. No domingo, para acalmar as tensões, explicou, em discurso pronunciado na Aipac Policy Conference 2011, que seu plano para a criação de um Estado palestino em terras ocupadas por Israel incluía uma troca de territórios mutuamente acordada e não exatamente conforme a fronteira de antes da guerra de 1967. De qualquer modo, sem nenhuma iniciativa real, seu discurso foi inócuo e não se pode esperar que ele cumpra o que diz, pois não é seu hábito.

CC- O senhor acredita que a proposta apresentada por Obama para um Estado Palestino reconhecido internacionalmente é possível ou viável?

LA - Creio que, no momento, é muito difícil, devido à posição de Israel. A situação no Oriente Médio está muito indefinida e fluida. Aparentemente a reconciliação entre o Hamas e Fatah, com o respaldo do Egito, para viabilizar as eleições no Estado palestino, constitui um fato novo que terá muita influência sobre o rumo de quaisquer negociações com Israel, cuja condição fundamental é seu reconhecimento. Os palestinos esperam que se acentue o confronto entre o Israel e os Estados Unidos, o que fortaleceria a sua posição. As faccões rivais Fatah, dominando a Cisjordânia, e Hamas, a Faixa de Gaza, agora unidas esperam que a Assembléia Geral da ONU, reconheça o Estado palestino em setembro, de acordo com a resolução 377 da ONU Uniting for Peace Resolution, conhecida como "Acheson Plan" - adotada em 3 novembro de 1950, determinando que, na falta de unanimidade entre os membros permanentes do Conselho de Segurança, falhe a responsabilidade primária de manter a paz internacional e a segurança, onde pareça estar a paz ameaçada, ou quebre a paz, ou ato de agressão, a Assembléia Geral  considerará a matéria imediatamente com vistas a recomendar as medidas coletivas necessárias.

CC – O senhor acredita em um possível reconhecimento do Estado palestino pela ONU em setembro?

LA - A sessão especial de emergência pode ser requerida por um membro do

Conselho de Segurança ou pela maioria dos membros das Nações, onde os palestinos têm a maioria de apoio. Porém o presidente Obama, em entrevista exclusiva à BBC, já ressalvou que qualquer tentativa de autoridades palestinas de pedir à ONU o reconhecimento formal de um Estado será apenas "um esforço simbólico" e "pouco realista". Para ele os palestinos têm que tomar uma decisão sobre como lidar com Israel, porque será muito difícil ter uma negociação. Conforme afirmou, "seja lá o que acontecer na ONU, é preciso falar com os israelenses. Não se pode passar por cima deles”. De fato, Israel é uma realidade e, queiram ou não alguns muçulmanos, não é possível deixar de reconhecê-lo. Não se pode mover a roda da história para trás.

CC - O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, disse que os EUA não entendem a situação no Oriente Médio e que estava desapontado com as declarações de Obama. Isto fez a oposição israelense criticar o ministro, dizendo que não deveria tratar os EUA como inimigos. O senhor acredita que esse poder dos americanos pode fazer com que Israel aceite concessões para constituir um Estado Palestino?

LA – É difícil avaliar a situação. Os palestinos pretendem realizar outra intifada branca, com a marcha de milhares ou possivelmente um milhão de cidadãos desarmados em 5 de junho, data em que foi deflagrada a Guerra dos Seis Dias, em 1967. As manifestações pacíficas visam exigir a declaração da independência do Estado palestino e constranger Israel caso este recorra à repressão, como faz o governo da Síria. Outras movimentações deverão ocorrer ao longo das fronteiras de Israel com Líbano e Síria, além de Gaza e da Cisdjordânia, pelo menos até setembro, quando se realizará a Assembléia da ONU. O que ocorrerá ali é difícil de prever, porém, o retorno às fronteiras de 1967 é objetivamente inviável. Israel não aceita nem mesmo o retorno dos palestinos, porque nas regiões ocupadas nas guerras de 1947, 1967 e outras há cidades com bairros luxuosos, hospitais e universidades. Logo, os israelenses não vão ceder essas áreas. Além disso, o retorno dos palestinos seria o fim do Estado judaico, um Estado teocrático, como, aliás, todos os Estados árabes.

CC – Qual o maior temor de Israel ao ceder espaço para a formação de um Estado palestino?

LA – Israel tem uma população estimada em 7,6 milhões de cidadãos, dos quais 5,7 milhões são judeus e quase dois milhões palestinos, além de estar cercado por outros 1,3 milhões – dos quais 33% vivem com a ajuda da ONU em campos de refugiados, na Faixa de Gaza (sob o comando do Hamas) - e quase dois milhões de palestinos na Cisjordânia, administrada pela Autoridade Palestina e também povoada por mais de 350 mil colonos israelenses, que controlam uma vasta área, além de 500 no Líbano e cerca de oito milhões, espalhados pelos demais países, como apátridas no Oriente Médio e em outras regiões.

Israel teme que se esses palestinos voltarem e se integrarem à sua sociedade, eles, constituindo a maioria da população, elegeriam o governo. Isto acabaria com o Estado judaico. É uma situação impossível de se resolver. Quando o governo britânico, atendendo à aspiração da Zionist Federation, comprometeu-se a favorecer o estabelecimento de um “lar nacional” para o povo judeu, o coronel inglês, conhecido como Lawrence da Arábia - que estimulara o nacionalismo entre os árabes contra as tropas do Império Otomano, durante a I Guerra Mundial -, previu que se estabeleceria um conflito sem fim na Palestina, pois os camponeses árabes não se dispunham a ceder suas terras para os colonos judeus e assim estava a criar-se uma situação, na qual a influência judaica nas finanças da Europa poderia ser suficiente para impedir os árabes de recusarem ou pior.

CC- De que maneira o discurso de Obama pode servir para as pretensões de Fatah e Hamas, que recentemente selaram um acordo de paz, para governar a Palestina, inclusive com eleições presidenciais e parlamentares?

LA - Creio ser muito difícil prever o resultado que o discurso de Obama pode produzir junto aos árabes e palestinos. O Hamas tem como ponto de seu programa a destruição de Israel. Contudo, pretender destruir Israel é algo irrealista, que somente fanáticos, nos quais a racionalidade não existe, podem pensar e desejar. Mas, infelizmente, no Oriente Médio o que predomina é a fé, que começa onde a razão acaba. O que lá prevalece é a irracionalidade. Então não se pode avaliar racionalmente os acontecimentos no Oriente Médio, onde nasceram várias religiões e seitas monoteístas, que não se entendem ou se toleram. Nem os judeus renunciam às suas crenças nem os muçulmanos, que gritam Allāhu Akbar (Deus é grande) e Muhammad o seu profeta, em nome dos quais morrem esperando encontrar a vida eterna no Paraíso.

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