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Internacional

‘Movimento erra quando se coloca como um partido político’

por Beatriz Borges — publicado 04/06/2011 12h09, última modificação 06/06/2015 18h16
Em entrevista, Ferran Requejo Coll, especialista em teoria da democracia da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, contesta “preparo intelectual de lideranças” e vê contradições em protestos na Espanha. Por Beatriz Borges. Foto: Marta Maeso
'Movimento erra quando se coloca como partido político'

Ferran Coll, especialista em democracia da Universidade Pompeu Fabra (Barcelona) vê “despreparo intelectual” e contradições em protestos na Espanha. Por Beatriz Borges. Foto: Luis Ansorena

De Barcelona

Vinte dias se passaram desde que surgiram as primeiras manifestações populares contra a situação política e econômica na Espanha. O movimento “Democracia Real Já” ganhou força, se espalhou por diversas cidades do país e inspirou protestos semelhantes em outras regiões da Europa. , há quase duas semanas, que escancarou a rejeição às medidas anti-crise tomadas pelo Partido Socialista, do primeiro-ministro José Luis Zapatero, e pavimentou o caminho do conservador Partido Popular rumo às eleições gerais, marcadas para o ano que vem.

No dia seguinte ao pleito, manifestantes seguiram nas praças – – mas as preocupações nos acampamentos passavam longe do resultado das urnas. Em vez disso, as comissões formadas para viabilizar a mobilização se ocupavam com discussões que percorriam assuntos como “feminismo”, “mídia” e a própria manutenção dos protestos.

A sobrevivência do movimento, dias após as eleições, demonstra que as reivindicações não se limitam às mudanças de representantes, confirmadas pelas urnas, mas do próprio modelo de representação espanhol. O desafio agora é fazer com que o movimento mantenha os questionamentos sobre a situação social na Espanha sem que se confunda com os papéis desempenhados pelos próprios alvos dos manifestantes: os partidos políticos.

O risco, de acordo com Ferran Requejo Coll, doutor em Filosofia e professor de Ciências Políticas da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, é alto. Autor do livro "As Democracias", resultado de pesquisa sobre as teorias da democracia, do liberalismo político e do federalismo, Coll afirma, em entrevista a CartaCapital, que os líderes do protesto erram quando assumem para si a responsabilidade de buscar soluções para a crise porque “não sabem como fazê-las”. É direto ao afirmar que a força e representatividade dos manifestantes – “não chegam a 100 mil pessoas em toda a Espanha” – são relativas e que eles são ingênuos por pensar ser viável a implementação de uma democracia de fato participativa, baseada em referendos e decisões coletivas.

“A democracia real, se implantássemos o 'fazer o que o povo quer', seria um desastre”, sentencia o analista, para quem a mobilização corre o risco de perder a legitimidade ao tentar fazer com que saiam dos acampamentos projetos de interesse nacional. “Quem decide o que é importante ou não? O movimento erra quando se coloca como um partido político”.

O especialista vê ainda “baixo preparo intelectual” nas contradições criadas pelo movimento, que, no entanto, tem como principal mérito “canalizar e expressar um mal estar social”.

Abaixo, a entrevista concedida em Barcelona:

CartaCapital: Como o sr. vê o movimento "Democracia Real Já"?

Ferran Requejo Coll: É um movimento reativo que tem duas vertentes. A primeira se explica pela crise, que questiona tanto o sistema de produção que eles acusam de ser um capitalismo ineficiente, pouco ecológico e socialmente injusto. Nesse sistema, os atores são os bancos que eles vêem como apêndices dos governos e do capital financeiro internacional, criando crescentes desigualdades dentro dos países. A segunda é a crítica à democracia representativa. Um dos lemas é "não nos representam", independentemente do partido, um ataque transversal a toda a classe política tanto de direita como de esquerda. O que une o movimento 15M (referência a 15 de Maio, quando começou o movimento) é aquilo a que se opõe, àquilo que eles dizem “não”. Entretanto, eles tentaram fazer alguns manifestos em que se contradizem. Denota-se pouca preparo técnica, apesar de a opinião pública em geral os ver com simpatia.

CC: O lema do movimento é “Democracia Real Já”. Na Espanha não existe uma democracia real?

Coll: Quando eles se referem à democracia “real” estão contrapondo com a atual, que é irreal ou pouco realista. Isso indica a ingenuidade e o baixo preparo intelectual do movimento. A palavra democracia, na história do pensamento político, nem sempre foi uma palavra positiva. Só ganhou prestígio há 150 anos. A democracia real, se implementássemos o "fazer o que o povo quer", seria um desastre. Nenhum teórico da democracia defende isso.

CC: O que há de errado com o sistema eleitoral espanhol?

Coll: O sistema eleitoral espanhol, nas eleições do Parlamento Central, considera um número de deputados pelo tamanho dos distritos. Então, das 50 províncias espanholas, são escolhidos no máximo de 8 ou 9 deputados cada uma. Ou seja, não é proporcional porque só o primeiro e o segundo partido mais votados completam o número de deputados necessários. É um sistema majoritário, como nos EUA e na Inglaterra. O grande prejudicado, nesse sistema, é o terceiro colocado. No caso da Espanha, a Esquerda Unida (IU).

CC: Se mudassem isso, como seria?

Coll: Poderiam mudar a situação das províncias (equivalente aos estados brasileiros) às comunidades autônomas (equivalente às regiões do Brasil). Assim, o distrito eleitoral seria composto por comunidade. Isso corrigiria a forma de representação. O problema é que isso implica uma reforma constitucional. A constituição espanhola é muito rígida: são necessárias muitas maiorias para mudá-la. É um processo complicado…

CC: E isso não interessa aos grandes partidos, como o PP e o PSOE…

Coll: Não, eles não são a favor dessa reforma, principalmente porque é um sistema eleitoral que lhes favorece. Não favorece os partidos minoritários, que sempre ganham um número proporcional de votos, mas sim às duas grandes forças.

CC: O movimento 15M se desenvolveu. Primeiro, organizaram o acampamento. Depois, as assembleias. Agora a sociedade lhes exige propostas, enquanto alguns defendem que eles não deveriam fazê-las. Como o senhor vê essa mudança?

Coll: Eu acredito que a força desse movimento está na sua posição crítica. Quando passam a fazer propostas, nasce uma tensão que faz com que eles percam a legitimidade. Por um lado, as propostas têm um senso comum, são claras. Mas outras, tecnicamente, são mais questionáveis. Por exemplo, pedem "referendos obrigatórios para tudo o que a União Européia decida". Francamente, acredito que esse não seja o caminho. Trata-se de um conceito muito volátil: quem decide o que é importante ou não? O movimento erra quando se coloca como um partido político. Creio que a força do movimento é canalizar e expressar um mal estar social; é um erro fazer propostas. Primeiro porque não sabem como fazê-las. São temas complexos e que, ao propor soluções, corre-se o risco de transformar-se em um movimento populista. Isso deslegitimaria todo o sistema democrático porque critica a classe política e ao mesmo tempo faz parte dela. E a Espanha demorou muito para conseguir um sistema democrático…

CC: O senhor vê com naturalidade o fato de a sociedade exigir propostas do movimento?

Coll: Sim, é normal perguntar "e como saímos daqui?". O movimento está para deliberar, para discutir. Mas não para fazer propostas nem tomar decisões. Já dizia Aristóteles, que as assembléias são boas para deliberar, mas péssimas para decidir. É um erro pedir propostas ao movimento.

CC: O senhor considera esse movimento um "termômetro social"? Como podemos medir o 15M?

Coll: Em números absolutos, o movimento não é grande. Não chega a 100 mil pessoas em toda Espanha. No entanto, a repercussão vai além. E para isso temos que considerar as novas tecnologias. As democracias ocidentais devem acostumar-se com esses movimentos, porque serão contínuos; intermitentes, mas constantes. Agora tivemos a crise. Depois virão outras questões. Tivemos um caso importante durante a guerra do Iraque, em 2003. As pessoas saíram às ruas, organizadas por e-mail e mensagens de celular. As novas tecnologias estão mudando o tipo de relação entre governantes e governados. As instituições não estão preparadas para isso, são do século XIX.

CC: Como o senhor vê a comparação que alguns meios fizeram entre o 15M e as revoltas árabes?

Coll: É uma comparação mais estética, superficial. As revoluções árabes são sérias e profundas, porque questionam o sistema político, ou seja, ditaduras corruptas. Eles querem aumentar o nível de democracia, de liberdades individuais, de uma constituição mais liberal. Os protestos daqui não. Dizem "democracia real já", mas eles vivem num sistema democrático e têm seus direitos assegurados. Enquanto os países árabes estão colocando em jogo o seu futuro.

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