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Entrevista

A Bolívia está à beira da crise

por Paula Thomaz — publicado 28/09/2011 11h50, última modificação 28/09/2011 18h15
Para cientista político, protestos iniciados por população indígena e reprimidos por Evo Morales podem se espalhar

O presidente da Bolívia, Evo Morales, vive um governo controverso com suas bases indígena e socialista. No último domingo, um confronto entre policiais e manifestantes que protestavam contra a construção de uma rodovia, que prejudicaria uma área de reserva florestal, provou essa afirmação. De um lado, a obra se impõe porque é importante para o desenvolvimento econômico do país e, de outro, 13 mil pessoas de diferentes etnias indígenas, que vivem nessa área, seriam afetadas por esse “progresso”. Agora, parece que a maioria dos eleitores que deu apoio crucial à reeleição de Evo em 2009, não está mais ao seu lado.

“Parece que o governo criou uma lógica de que ‘quem não está conosco está contra nós’ e com isso perde a perspectiva do processo histórico social interno e sobre quem são seus aliados”, diz Rafael Duarte Villa, cientista político e professor da Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com o professor Villa, os grupos sociais indígenas já não são tão ingênuos e ganharam certo nível de consciência política sobre o que significa mobilizar-se contra o governo. Mas que “grupos de oposição lucram com esse enfrentamento, cuja a principal base de apoio era classe média não indígena.” Agora a base da oposição pode ser ampliada, se a oposição conseguir trazer para seu lado esses setores sociais indígenas descontentes. “Esse é um ponto que o governo Morales não está entendendo bem. [Essas manifestações] não só enfraquecem o governo socialmente, mas fortalece socialmente a oposição”, avalia.

Numa tentativa de amainar a violência da operação de domingo, que reuniu 500 policiais contra cerca de 1500 manifestantes na aldeia Yucumo, a 300 quilômetros da capital La Paz, Morales decidiu suspender a construção da estrada, considerada estratégica para o país – a rodovia teria um percurso de cerca de 300 quilômetros e um custo aproximado de 420 milhões de dólares, financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Para conter o protesto, policiais atacaram com gás lacrimogêneo e cassetetes barracas de acampamentos indígenas. A ação teria deixado mortos duas crianças e quatro adultos, segundo a imprensa local. Os policiais espancaram e amordaçaram homens e mulheres, que foram levados à força para ônibus e vans em direção às suas comunidades.

O vice-comandante da Polícia, general Oscar Munoz disse que o uso da violência foi uma resposta à ameaça de nativos armados com flechas. Mas o procurador do Ministério Público da Bolívia, Rolando Villena, disse que os índios foram atacados quando se preparavam para jantar, e exigiu a Morales a "cessação imediata da violência", conforme solicitado pelo escritório da ONU em La Paz.

Em reação, nesta segunda-feira 26, a ministra da Defesa boliviana, Cecília Chacón, renunciou ao cargo alegando discordar da “intervenção feita pelo governo” no domingo.

A diretora de imigração do país, María René Quiroga, que também renunciou nesta terça-feira 27 ao cargo, repudiou a operação violenta feita pela polícia. Já o vice-ministro do Interior Marcos Farfán deixou o posto, mas para facilitar a investigação de uma comissão especial a ser composta por representantes dos organismos nacionais e internacionais relacionados aos direitos humanos. Ele é acusado pelo ex-ministro de governo da Bolívia, Sacha Llorenti, que também renunciou no início da tarde desta terça-feira, de ter dado a ordem para a ação policial de domingo.

Em coletiva de imprensa, onde anunciou a suspensão das obras, Morales classificou os excessos da polícia como “imperdoáveis”, de acordo com reportagem do La Prensa. Ele disse que nunca instruiu a intervenção violenta como aconteceu no último domingo, e que as autoridades não falaram de vítimas, mas reconheceu que os fatos de domingo foram “lamentáveis." Para os indígenas bolivianos, o anúncio de Morales confirmou que o projeto vai continuar, porque “a suspensão das obras se dará apenas enquanto o referendo consulta as regiões por onde a via vai passar”, disse à Efe o porta-voz do Tipnis, Adolfo Moye. "As comunidades indígenas têm dito que esta estrada não deve passar por Tipnis. Então, o que irá à consulta? Não acredito nesta proposta do governo", disse Moye.

Para o cientista político, Evo não está sendo bem aconselhado sobre como reagir ao momento. “Evo Morales não toma decisões sozinho. É possível que haja um setor mais linha dura dentro do governo que pode estar influenciando e gerando demora numa reposta mais baseada num diálogo”. Villa afirma que a renúncia de ministros representa, na verdade, o início “não só de uma crise da base social, mas também de uma crise institucional bastante forte”.

Segundo o professor, se esse diálogo não for iniciado o quanto antes, uma crise nacional pode ser gerada e que, se houver uma identificação dessa manifestação com os demais setores da Bolívia, a situação pode ficar delicada para o governo de Evo Morales. “Até agora a reação do setor indígena está sendo moderada e está dando um crédito a Morales. Eles esperam que comece um processo de diálogo. Mas caso não queira negociar, isso pode levar a uma escalada de conflitos ou de manifestações que vai nacionalizar a reivindicação e um momento de instabilidade política pode se precipitar”.

Enquanto os indígenas afirmam que "Evo não quer ouvi-los", autoridades do governo dizem que são os indígenas "que se recusam ao diálogo" para que "juntos possam definir o trajeto".

A marcha indígena da Amazônia para La Paz, que no domingo completou 41 dias, reúne cerca de 1.500 indígenas. O protesto é contra a construção do segundo trecho da estrada, entre Villa Tunari, em Cochabamba (centro) e San Ignácio de Moxos, em Beni, próximo à fronteira com o Brasil.

A estrada passaria pela reserva do Território Indígena Parque Nacional Isidoro Sécure (Tipnis ), mas o governo rebate, dizendo que o percurso "ainda não está definido". Indígenas afirmam que ela poderá afetar o ecossistema e suas formas de vida e favorecer a exportação da folha de coca da região do Chapare, definido como um dos redutos políticos de Evo Morales, em Cochabamba.

Em nota, o Itamaraty afirmou ter recebido com preocupação a notícia sobre os distúrbios e disse ter confiança no governo e em diferentes setores do país para buscarem diálogo e favorecer a negociação sobre o traçado da rodovia. O governo se dispôs ainda a "cooperar com a Bolívia no contexto da obra", afirmando que "se trata de projeto de grande importância para a integração nacional da Bolívia e que atende aos parâmetros relativos a impacto social e ambiental previstos na legislação boliviana".

Apesar de interpretar a situação como um problema interno da Bolívia, o cientista político acredita que a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), que prioriza o diálogo político, as políticas sociais, o meio ambiente, entre outros, poderia iniciar um processo de consulta com o governo boliviano. “É uma possibilidade [de resolução para o conflito], levando em conta a questão da dinâmica das manifestações, que se intensificam, o resultado da instabilidade política e da figura de Evo. Eventualmente, um mecanismo de consulta pode ser um elemento preventivo importante.”

Enquanto isso, outros setores como sindicatos, estudantes e ONGs vão se organizando em protestos e convocam uma greve geral para esta quarta-feira.

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