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Mais gás para o mercado

por Roberto Rockmann — publicado 25/09/2015 16h30
Entenda como a venda de ativos da Petrobras no setor anima a concorrência
Evelson de Freitas/Estadão
Indústria-brasileira

Em 2013, os produtores de energia representaram 43% do gás consumido no País e a indústria, 46%

A decisão da Petrobras de se desfazer de ativos para reduzir sua dívida e elevar a rentabilidade de suas operações poderá provocar mudanças no setor de gás, insumo que tem conquistado importância na matriz elétrica. A oferta tende a ser crescente ao longo dos próximos anos, a partir da exploração gradual do pré-sal. Entre este e o próximo ano, a estatal estima vender o equivalente a 15,1 bilhões de dólares em ativos, segundo a revisão mais recente anunciada em seu plano de negócios, divulgado no fim de junho.

Entre os ativos avaliados para a venda e ainda em discussão no conselho de administração estão os 49% na Gaspetro, que reúne a participação acionária em 20 empresas de distribuição de gás natural, uma parte da malha de gasodutos e o porcentual nas usinas termoelétricas. Desde o fim da década de 1990, por causa da ameaça de racionamento que viria a ocorrer de fato em 2001, a estatal investiu no segmento para gerar energia elétrica.

O processo mais avançado de negociações seria aquele que envolve a Gaspetro, cujas distribuidoras comercializaram 33,2 milhões de metros cúbicos por dia no ano passado, o equivalente a 53% do mercado de distribuição de gás natural do País. As ofertas, conduzidas pelo Itaú BBA, teriam sido entregues no fim do mês passado. Estariam na disputa duas empresas estrangeiras, a japonesa Mitsui e a chinesa Beijing Gas.

O processo de venda de uma participação dos gasodutos e das termoelétricas ainda está em fase mais preliminar. O caso mais complexo seria o das termoelétricas, pois cada uma das cerca de 20 usinas tem contratos de compra e venda de gás diferentes e com preços igualmente diversos. Para tornar a história mais enrolada, parte do gás usado em algumas usinas é fornecida pelo Gasoduto Brasil-Bolívia, cujo contrato entre os governos brasileiro e boliviano expira em 2019.

Ponte-estaiada
As termoelétricas consumiram neste ano 50% da oferta

Segundo o diretor-comercial da Gas Energy, Ricardo Pinto, o plano de desinvestimento atrai a atenção de diversas empresas interessadas no mercado de gás natural no Brasil. “Há um movimento de muitos agentes de olho nos ativos e na tentativa de entender o mercado nacional, cuja demanda do setor industrial pode ser impulsionada, além do crescimento da importância do gás para o setor elétrico.”

Em 2011, a indústria respondeu por dois terços do gás consumido no País e o setor elétrico, por 17%. Dois anos depois, os produtores de energia representaram 43% do consumo e a indústria, 46%. Neste ano, diante da estiagem, cerca de 50% do insumo foi usado pelas termoelétricas, com pouco mais de 50 milhões de metros cúbicos por dia, quase dez vezes mais que o apurado em 2009. 

Apesar do aumento do consumo, a oferta de gás para o setor elétrico no curto prazo tende a ser reduzida. “Boa parte do acréscimo de produção terá de ser por Gás Natural Liquefeito, mas o futuro é promissor”, afirma o presidente da Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), Mauricio Tolmasquim.

Nas estimativas da EPE, em 2024 a oferta de gás deverá ter um incremento na produção líquida potencial: dos 56 milhões de metros cúbicos do ano passado para 99 milhões. “O cenário pode passar por uma mudança relevante nos próximos anos, com aumento da demanda, novas empresas e a criação de um mercado secundário de gás natural liquefeito”, projeta Giovani Loss, especialista do Mattos Filho Advogados.

No momento, a oferta é escassa. “Há dificuldade para contratar gás, que agora tem a preferência do setor elétrico”, diz o superintendente da Associação Brasileira da Indústria do Vidro, Lucien Belmonte. O preço é outro entrave. A exploração do produto não convencional tem atraído indústrias para os Estados Unidos, de olho no preço do gás, que chega ao mercado a 4 dólares o milhão de BTUs. Aqui, as indústrias pagam mais de três vezes esse valor. 

A redução da presença da Petrobras no setor de gás atrairia novas empresas interessadas, avalia Ricardo Pinto. “Outros investimentos poderão ser acelerados, pois existe a demanda do setor elétrico e da indústria e as empresas vão buscar formas de elevar mais a oferta com o pré-sal, mas essa nova era pode ser aberta só em 2020, quando a curva de produção de óleo e gás crescer.”

As oportunidades de aumento da demanda levam diversas empresas a analisar investimentos. No fim do ano passado, ao ganhar dois projetos em leilão realizado pelo governo federal, o grupo gaúcho Bolognesi tornou-se o maior investidor em regaseificação no Brasil. Serão investidos pouco mais de 6 bilhões de reais na construção de duas usinas e dois terminais, um no Rio Grande do Sul e outro em Pernambuco.

Já o governo de São Paulo e empresas como a Comgás estudam a atração de um terminal de regaseificação em Santos, o que seria um passo inicial para o investimento em uma nova rede de gasodutos com foco no escoamento da produção de gás do pré-sal. 

Apesar dos sinais positivos, persistem dúvidas entre especialistas. Uma delas diz respeito ao custo de produção do gás no pré-sal, pois os poços estão a 300 quilômetros da costa e contêm muito gás carbônico associado à produção, cujo processo de separação é caro. O valor poderia inviabilizar parte do aumento de produção previsto.

Outra incerteza refere-se à Bolívia, que envia 30 milhões de metros cúbicos diários ao País. “Há dúvidas se os bolivianos terão capacidade de honrar o contrato até 2019. Desde 2005, com a nacionalização das reservas e a fuga de empresas estrangeiras, a produção estaria estagnada”, afirma a consultora Ieda Gomes. Os desafios são tão imponentes quanto as oportunidades.